Verbos do Aprendizado
Estou em fase de aprendizado. Fora dos livros; da poeira na estante; das teias que as aranhas fizeram; do estrago da chuva forte; das pegadas que algumas aves deixaram na janela; da vassoura escondida atrás da porta; fora até mesmo de mim. Consegui arrebentar as amarras e fugi para um lugar conhecido, aconchegante em sua pequenez, silencioso nas dobradiças das entradas, estimulante na capacidade de se moldar ao que eu preciso. Uma poltrona, um abajur de luz amarela, alguma coisa para esticar as pernas e uma venda para tampar os olhos. Este é o meu mundo. E, nesta escuridão, construo o meu universo.
Algum tempo se passou. Algumas vozes foram desaparecendo. E o verbo desaparecer se enraizou, fazendo-se presente na arte que desempenha: desapareceram reflexos, memórias, ilusões; também, pessoas, objetos, cadernos. Foi a primeira vez que vi um verbo sair do papel para atuar no palpável. No físico intransigente, na forma estática do que era para ser esquecido e não foi, nos cacos de um espelho que queria ser uma janela e não deu conta da paisagem. Tudo desapareceu.
No meu universo, posso escolher com quais verbos vou andar. Entre muitos, resistir virou amante. Amo-o inconcebivelmente. Porque viver é resistir. Há também o pensar que me ensina a caminhar. Um passo pensado às claras vale mais que um grande salto no escuro. Por fim, às vezes me surpreendo com a presença de um outro. Contemplar! Existem muitas coisas a serem contempladas que conectam o pensar ao resistir. É o verbo que mais me emociona e o que mais deixa surpresas à porta do coração.
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