Memória e Saudade
Ontem eu quis escrever tantas coisas, tantas ideias, tantas reflexões brilhantes navegando nos mares da mente. Hoje, manhã cinzenta e silenciosa de domingo, não sou ninguém. Perdi todos os fios que puxei; todos os balões se estouraram; todas as chuvas caíram e, de repente, sumiram. Dormi e não sonhei; sono sem palavras que se pregou na parede no quarto como um quadro vazio, apesar da bela moldura.
Por que isso acontece comigo? Vivo perdendo tesouros entre os dedos, de mãos estendidas, querendo saber o que fazer quando encaro o vazio.
O silêncio que busquei tem me incomodado. Fantasmas que voltam sem dó de pisarem novamente no campo onde perderam suas vidas. Tenho saudade de coisas secretas; mistério que se deita mas não dorme; pedra que não despenca morro abaixo; livro conhecido, mas nunca lido. Hoje, vesti-me de azul. Porque quis trazer um pouco do céu escondido para dentro de casa. Na quietude dessa manhã, trabalho com as incertezas de ruídos ao meio-dia. Pela tarde, sei que vou me deitar e tentar ler um pouco. À noite, serei o que nunca fui, mas finjo ser. Por fim, poderei dormir e sonhar com as histórias que jamais vou escrever.
As melhores ideias passaram sem que eu as cativasse. Era apenas um jogo de tentar me lembrar do impossível, do imensurável. Eu não me lembrei. A vela se apagou antes que eu terminasse de ler o livro. Nunca pude descobrir seu final. Essas coisas têm acontecido com certa frequência. Tenho deixado tudo para depois, e quando assim o tenho em em minhas mãos, tudo se desfaz. Eu me desfaço; olho a paisagem pela janela e não a compreendo. Ruas, carros, pessoas; vazio atrás de vazio, sonhos que não encontraram o caminho de casa.
Ainda acredito no poder das palavras. Embora elas tenham assumido uma face assustadora. Pensei que tivesse desatado os nós do peito, mas descobri que no fim de ano outros nós surgem para enlaçar o ano novo que ainda não começou. Há muito do passado no presente, apenas o futuro é incerto. O resto é memória e saudade.
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