Compasso do Tempo

 23:58 do dia vinte e dois.

Meu aniversário está terminando, por mais um ano. Um novo Filipe, talvez. Jamais pensei que receberia uma carta escrita por mim em 2014, e quando menos esperava lá estava ela na caixa de entrada. A princípio eu não sabia o que era. Poderia facilmente ser excluída por julgar ser algo irrelevante. Por fim, abri o e-mail. Abracei o passado e revi, face a face, uma pessoa que há muito já deixou de existir.

23:51

Foi uma surpresa. Sim. Uma surpresa das grandes. Como eu pude escrever aquilo? E mais: como eu pude me esquecer assim, completamente? A vida é cheia de facetas abstratas como quadros de uma galeria moderna. Cada um interpreta como pode. Esta carta foi interpretada por mim como um soco no estômago.

23:52

Está chegando o fim. Meu aniversário, agora, mais uma vez, só ano que vem. Conversei com meus pais. Com Otávio. Rimos e contamos casos. No fim da noite descobri que todos os textos que escrevi a mão no ano de 2017 e 2018, bem como cartinhas de recordações da infância e adolescência foram jogadas fora. Exterminadas. Tudo foi por água abaixo. Textos que se perderam para sempre.

23:55

É irônico isso ter acontecido. É como se parte de mim fosse apagada. Uma parte que era para ser. Mas hoje, mais que nunca, queria encontrar estes fragmentos. Queria ler o que o Filipe de anos atrás tinha a dizer de suas ambições.

23:56

Tenho quatro minutos para deixar toda ambição no dia de hoje. Amanhã não terei nenhuma. Eu não sou o que escrevo. Ando além dessas palavras enlouquecidas por um compasso de tempo que se estende. Ainda permaneço no mesmo minuto em que comecei este parágrafo. Ele está brincando comigo, o tempo. Ah, justamente hoje. Vinte e oito anos atrás eu estava, bem... Sabe-se lá onde. Naqueles corredores gigantes da maternidade de Juiz de Fora, ouvia-se um choro de criança prematura. Era este que aqui escreve desesperado, tentando aproveitar ao máximo o dia em que se fez gente.

23:59

O último minuto. Carne e osso que se formaram para hoje estarem aqui, escrevendo algo complexo. Sim, afinal junta a alegria de me reencontrar com a tristeza de me perder para sempre. Coisas que se transformaram nos segredos mais instransponíveis que existem. Pois são impossíveis agora.

00:00

É o fim. Foi-me o Filipe. Vem o Filipe. Um dia termina, outro nasce. As palavras continuam. Os textos vão. Eu sigo sentado na cadeira. Nada mudou. Mas tudo mudou, meus caros. Tudo mudou. Eu já sou outro. Já sou o Filipe de vinte e oito. Inteiramente. Cem por cento. Sem desejo e ambição. Sem querer destaque nos pedestais. Sem saber o que são pedestais. Sem ter uma estante de livros na sala. Embora esteja lendo mais do que nunca. Desesperadamente.

00:02

Ontem foi um dia para se lembrar. Pois descobri que deixei um pedaço de mim no passado. E também que um pedaço do passado veio ao meu encontro, sem ao menos eu querer. Eu não queria. Era outra pessoa escrevendo. Uma pessoa que estava usando os mesmos dedos que uso agora. Mas que infelizmente o tempo fez eu esquecer. E não é que eu esqueci, mesmo?!

00:04

Talvez agora seja hora de parar de contar o tempo. Ou parar de contar as linhas. Horizontais, da esquerda para a direita. O que tinha de se perder, se perdeu. Eu não posso fazer nada. Histórias para ficarem escondidas. No escuro. Ninguém nunca saberá do segredo que o caderno amarelo carregava; dos sonhos escritos no de capa parda e das aventuras descritas na aquele outro de mesmo tom. Eu digo aventuras, sim; aventuras internas, tanto no campo espiritual quanto no mental. Um despertar. É claro. Memórias sendo memórias. Nada além. Eu já superei. 

00:07

É a última vez. Precisava encontrar um desfecho para isso. Não encontrei. Então finalizo me apresentando ao presente: sou um homem, adulto, de vinte e oito anos. O resquício da meninice ficou para trás. Embora eu persiga sonhos de menino. Embora também eu ainda queira um atlas ilustrado e muito bem colorido por um artista que desconheço. Preciso confessar uma coisa antes de sair: tenho mais de criança que de adulto. Por dentro ainda sou menino. E gosto de ser assim. Mas vamos fingir que este é um texto superficial. Então, já deixei as capas para os cadernos. Às folhas avulsas eu deixo o meu pesar. Aposto que queriam estar juntas, reunidas e organizadas. Mas estão aí: bagunçadas. Não chorem! Quem as escreve também é uma folha avulsa. Porém, ao contrário de vocês, que já foram preenchidas com lindas histórias, esta aqui segue vazia. Segue em branco. Apesar das marcas à lápis no papel. Parece que a borracha era muito boa.

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