A Escrita que Vai Além das Páginas

Foi lá pelas bandas da Zona da Mata Mineira que um rapaz, instantes após revisar seu primeiro livro, saiu para imprimir e encadernar uma cópia do trabalho que, até então, se encontrava apenas em seu computador. Estava contente com este feito memorável que marcara uma longa caminhada: finalmente ia dar vida à sua obra.

Dia claro, clima agradável. Fiéis se reuniam na gruta de Nossa Senhora Aparecida para rezar o terço. Resolveu parar ali para, talvez, acompanhar uma Ave Maria. Nesse momento, alguém segurou em seu ombro e lhe disse: "A catedral está fechada, será que não vai ter confissão hoje?". Era uma senhorinha já pelos setenta anos, de roupas humildes, cujo tempo desempenhara com rigor o papel atribuído.

O rapaz olhou seu semblante cansado e compartilhou um singelo sorriso. "Talvez na Igreja de São Sebastião você encontre um padre para te atender", respondeu. Imediatamente a senhorinha se entristeceu e abaixou a cabeça. O moço percebendo que ela não sabia chegar à igreja em questão, logo pôs-se a explicar: "Fica a dois quarteirões daqui; a senhora só precisa atravessar a rua e seguir reto."

De nada adiantara. A senhorinha tornou a olhar para o moço retribuindo o sorriso com o qual fora contemplada. Só que mais tímido e mais triste. Naquele instante, o jovem escritor percebera pela primeira vez a melancolia de um espasmo sorridente. "Meu filho, eu te agradeço, mas só sei chegar até aqui. Eu sou analfabeta!"

Claro que o moço tentou agir naturalmente com aquela informação, mas por dentro se encontrava em ruínas. No mesmo dia em que deixara sua casa para imprimir um trabalho fruto de sua escrita, acabara encontrando uma idosa que nem sequer sabia ler. Seria uma ironia do destino? Nada disso! De fato, era uma lição prática que só a vida é capaz de dar, cujo conteúdo não se faz presente nas páginas dos livros.

"Venha, vamos ali na secretaria da catedral. Talvez tenha alguém lá". Assim o rapaz a conduziu pela escada que levava até o local e bateu na porta. Para sua surpresa, a mesma se abriu. Havia um padre para atendê-la. O moço então a desejou boa sorte e com um rápido abraço se despediu antes de seguir sozinho, novamente.

Pela rua, olhava o semblante das pessoas e repensava sobre a função de seu livro. Sabia ele que a expressividade sobrepunha as páginas de um exemplar, mas naquele dia compreendeu que muitas ações tornavam-se mais valiosas do que a teoria organizada em linhas arranjadas, já que estas não chegam até os destituídos de esperança. Foi então que voltou para a casa. Percebeu que não era ele que escrevia livros para serem lidos, mas a vida que disponibilizava as histórias para serem interpretadas.

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