Aquilo que não está nas telas...

Passei por um período onde tinha o hábito de me desligar das coisas eletrônicas ao meu redor, a fim de recolher-me em silêncio para analisar os fatos verdadeiros de minha realidade. Digo verdadeiros por estarem presentes na profundidade dos dias que vivia de forma desordenada, não abrangendo a superficialidade das telas luminosas.

Que coisa absurda pensar que a preocupação que consumia minha mente se resumia na carga de informação desnecessária que estava recebendo constantemente. Depois de tantos livros lidos e analisados, será que eu não saberia controlar essa situação? Por volta das 18 horas, passei a encerrar minhas atividades virtuais. Desligava todos os aparelhos da tomada, juntamente às luzes fluorescentes, e esperava a noite chegar.

Que coisa maravilhosa era o entardecer! Abria a janela e me atentava ao espetáculo que todos os dias estava à minha disposição. Ao longe podia ouvir uma Ave Maria, vinda do convento das irmãs franciscanas, junto aos pássaros que voltavam para os ninhos das árvores à medida em que o sol se escondia no horizonte.

A luz se dissipava aos poucos e fazia os postes da rua se acenderem. Um jogo de sombras se formava nas paredes com a brisa que entrava pela janela escancarada. Naquele momento olhava para a estante. "Quantos livros... Quantas histórias...". Percebia que nem tudo estava naquelas páginas; havia coisas impossíveis de serem escritas, restando-me a competência de percebê-las na contradição daquele entardecer: raso e trivial aos olhos dos conectados, mas belo e sublime aos que não faziam de sua realidade uma prisão metalizada somente às telas.

Foi a primeira vez que me desvinculei de algo que já era um hábito, porém infrutífero. Sabia que não poderia tirar mais nada de bom das informações que recolhia e averiguava. Era preciso atentar-me à vida desconectada que, embora simples e costumeira, também revelava belezas negligenciadas pela constância. Por fim, a noite chegou trazendo um céu estrelado; o grand finale da exibição que se repetiria no dia seguinte. Ao entrar naquele clima, mantive a janela aberta, acendi uma vela na mesa da sala e rezei, buscando concretizar dessa vez um espetáculo do íntimo de minha alma.

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