Bem-te-vi na Espreita
Sua fama corria ligeiro por entre os galhos da mata. Todos sabiam que nada parava naquele bico sutilmente comprido e articulado que tanto proseava entre os cantos junto aos prantos. De fato, possuía a capacidade ímpar de estar no miolo...
“Miolo?”
Sim!!! Onde o fermento faz efeito quando esquenta. É no miolo que as coisas acontecem. Por isso sua presença constante, ainda que coadjuvante; afinal de contas, não era de seu interesse chamar atenção e muito menos ser protagonista.
— Lá vai ele meter o bico onde não é chamado. — Os canários queixavam-se uns com os outros. — Para depois espalhar na mata, sempre aumentando um ponto.
“Bem te vi!!! Bem te vi!!!”
— Pronto — todos da árvore estavam atentos —, quem será que ele viu dessa vez?
Assim começava um cochicho interminável, numa mistura de piados: agudos, graves, longos e curtos. Queriam saber quem havia sido avistado. Claro, pois a ave viu alguém... fazendo alguma coisa...
— Ouvi dizer que foi a cambacica Susana — disse o sabiá ofegante do alto da copa — enquanto saia de seu ninho para se encontrar com alguém.
Muitos ficaram boquiabertos com a informação, já que a passarinha mencionada pelo sabiá era parente do Bem-te-vi. Ambos tinham peito amarelado, embora a referida fosse um pouco mais robusta. Só que aquela queixa não durou muito:
— Não pode ser verdade essa afirmação! — Um canário pousava perto de seu bando. — Lá pelos arredores das bananeiras dizem que o avistado foi o próprio João-de-Barro.
Todas as aves entraram em desespero instantaneamente.
— Aquele que trancou a mulher e o amante dentro de casa para morrerem de fome e sede — concluiu.
O pânico tomou conta do ambiente e, mais uma vez, pios exacerbados invadiam o entorno daquela reunião não planejada. Naquele instante, o sol que brilhara forte durante o dia começava a se esconder, deixando as aves ainda mais inquietas.
— Acalmem-se, povo de bem. — Uma voz grave se destacou entre as demais. Tratava-se de Ester, a coruja que aparecia quando a tarde começava a despertar-se em tons opacos.
— João-de-Barro não foi visto. Aquele miserável morreu pouco tempo depois do crime que cometeu...
Um suspiro grupal soou longamente.
— ... e não é quem vocês imaginam. Confiem em mim pois sei o que aconteceu.
A credibilidade da coruja Ester não era tão boa por aquelas bandas. Diziam ser caduca e não juntar bem os pontos da razão; contudo, devido às circunstâncias, os pássaros acabaram dando a ela a palavra almejada para que pudesse contar o seu lado da história, já que a experiência da senhora devia ser levada em consideração.
— Fontes confiáveis me disseram que Oscar, o quero-quero, está sustentando três filhos que não são dele. E sobre isso nós só podemos pensar numa coisa: Joana, sua esposa, pulou a cerca!
— Você é velha mesmo, hein, dona coruja! — afirmou em tom irônico o mesmo sabiá que havia iniciado as especulações. — Todo mundo sabe que Joana já tinha três filhos quando se casou com Oscar, e isso não é segredo para ninguém. É melhor você ficar na sua.
Ester, ofendida com a audácia do sabiá, estava se corroendo por ter sido contrariada. Além de tudo, a coruja era bastante orgulhosa e na hora em que ia responder o colega, foi surpreendida com uma rajada de vento.
— Vai cair um temporal essa noite!
Quem havia dito aquilo? Todos olharam para a direção do som e puderam ver Carlinhos, o sanhaçu cinzento. Conhecido por suas previsões e seu tom misterioso, a ave se aproximou do grupo em um rasante.
— Vocês não sabem onde estão se metendo. — O clima se tornara sério com a luz minguante do crepúsculo. — Bem-te-vi é um pássaro perigoso, ardiloso e sangue-frio. Não deviam levar o nome dele no bico!
— E como você sabe? — Ester queria bater de frente com alguém.
— Coruja estúpida, me pergunto até hoje como pode ser símbolo de sabedoria. — Carlinhos aumentou o tom de voz. — Por acaso algum de vocês já avistou alguém que esteve na mira do Bem-te-vi?
Os pássaros se entreolharam com um gesto de negação e dúvida.
— Eu já imaginava! Vocês não avistaram ninguém, pois o referido matou todos. Ele é um assassino cruel, sem compaixão. Se posso dar-lhes um conselho amigável: fiquem longe dele!
Naquele ponto da conversa, as nuvens já haviam tomado conta do céu e rajadas de vento sopravam com força, anunciando a chuva que estava por vir. As aves, perplexas com as informações do misterioso sanhaçu cinzento, continuavam o burburinho sobre a vida alheia, quando foram assustadas por um relâmpago rasgando o céu, seguido de um enorme trovão. Mas isso não foi suficiente para que dessem um basta na prosa caluniosa; era preciso algo mais.
“Bem-te-vi!!! Bem-te-vi!!!”
Um farfalhar começou instantaneamente após ouvirem aquelas palavras. Eram pássaros para todos os lados, rumando para os seus ninhos, desesperados e temerosos em se tornarem a vítima da vez. Foi uma verdadeira confusão; um empurra-empurra; uma gritaria e um amedrontamento descomunal. Para que lado ia fulano? E beltrano? Então, todos desapareceram o mais rápido possível. Em suas cabeças estavam fugindo de um verdadeiro assassino, que dava sumiço em quem atravessasse o seu caminho.
Quando o último raio de sol se escondeu atrás da colina, a mata retornou para o silêncio habitual. Assim, a chuva começou a cair e todos as aves se encontravam em seus respectivos ninhos, refletindo os boatos compartilhados e os remendando em pontos sortidos. No fim, cada um entendeu uma coisa diferente, formando infinitas histórias em suas cabeças, mas, se havia algo em comum em seus pensamentos, era o seguinte fato:
“Bem-te-vi estava sempre na espreita!”
A pobre ave nada de mal fazia. Primero levou fama de fofoqueira por seus piados repetidos e encarrilhados; mas a realidade era que nunca havia ousado inventar uma história sequer em sua cabeça. Apenas cumprimentava quem cruzava suas pontes aéreas e nada mais. Porém, de vítima injustiçada, transformara-se em vilão aos bicos da floresta, desenvolvendo a gravidade do mexerico ao ponto de ser chamado de assassino.
“Ora, ora... Bando inquieto de pré-julgamentos.”
Bem-te-vi sabia o que se passava, no entanto não ousava ligar ou murmurar-se para tais especulações. Continuava a avistar os “colegas” e anunciar-se como de costume. Esperto era ele de ver a realidade como ela era e não se enganar com as verdades distorcidas dos autores de toda aquela bisbilhotice. Em poucos minutos construíram tantas lorotas paralelas que só restava ao pássaro à espreita piar do fundo de seus pulmões o que há muito já piava. E tal sentença não era nada além da verdade: de fato, ele avistara a todos em meio ao transe da imaginação fértil. Por fim acabou rindo depois que todos os caluniosos saltaram desesperados de seus galhos, pois era certo que também tinham seus respectivos rabos presos.
Na manhã seguinte tudo voltara ao normal. Bem-te-vi anunciou-se à luz da aurora e todos fingiram que não era com eles. Ninguém queria se expor. Claro que o pássaro era esperto e não passava muito tempo no mesmo lugar, saindo sempre em busca de outras redondezas para se instalar.
No dia em que a mata não ouviu o seu famoso e habitual piado, todos entraram em estado de angústia. E precisou de apenas alguns minutos para iniciarem as especulações, que dessa vez tomava um tom mais benevolente:
— Acho que ele só queria ser amigável — falavam.
Mas era tarde demais. Só viram de um outro ângulo depois que ele havia partido. E durante muito tempo remoeram a preocupação que atingia diretamente os seus corações. Enquanto isso, o Bem-te-vi voava para longe e avistava as novidades que a natureza concedia aos olhos de quem era capaz de enxergar a verdade por trás da densa fumaça ilusória. E assim, ao contrário da teorização de sua estável espreita, Bem-te-vi sentia nas asas a liberdade inerente ao seu estilo de vida. Não se prendia à corrente das conjecturas enferrujadas; preferia, ao invés disso, sentir a brisa por entre seu corpo, que seguia reto ao verdadeiro objetivo de ser feliz.
“Miolo?”
Sim!!! Onde o fermento faz efeito quando esquenta. É no miolo que as coisas acontecem. Por isso sua presença constante, ainda que coadjuvante; afinal de contas, não era de seu interesse chamar atenção e muito menos ser protagonista.
— Lá vai ele meter o bico onde não é chamado. — Os canários queixavam-se uns com os outros. — Para depois espalhar na mata, sempre aumentando um ponto.
“Bem te vi!!! Bem te vi!!!”
— Pronto — todos da árvore estavam atentos —, quem será que ele viu dessa vez?
Assim começava um cochicho interminável, numa mistura de piados: agudos, graves, longos e curtos. Queriam saber quem havia sido avistado. Claro, pois a ave viu alguém... fazendo alguma coisa...
— Ouvi dizer que foi a cambacica Susana — disse o sabiá ofegante do alto da copa — enquanto saia de seu ninho para se encontrar com alguém.
Muitos ficaram boquiabertos com a informação, já que a passarinha mencionada pelo sabiá era parente do Bem-te-vi. Ambos tinham peito amarelado, embora a referida fosse um pouco mais robusta. Só que aquela queixa não durou muito:
— Não pode ser verdade essa afirmação! — Um canário pousava perto de seu bando. — Lá pelos arredores das bananeiras dizem que o avistado foi o próprio João-de-Barro.
Todas as aves entraram em desespero instantaneamente.
— Aquele que trancou a mulher e o amante dentro de casa para morrerem de fome e sede — concluiu.
O pânico tomou conta do ambiente e, mais uma vez, pios exacerbados invadiam o entorno daquela reunião não planejada. Naquele instante, o sol que brilhara forte durante o dia começava a se esconder, deixando as aves ainda mais inquietas.
— Acalmem-se, povo de bem. — Uma voz grave se destacou entre as demais. Tratava-se de Ester, a coruja que aparecia quando a tarde começava a despertar-se em tons opacos.
— João-de-Barro não foi visto. Aquele miserável morreu pouco tempo depois do crime que cometeu...
Um suspiro grupal soou longamente.
— ... e não é quem vocês imaginam. Confiem em mim pois sei o que aconteceu.
A credibilidade da coruja Ester não era tão boa por aquelas bandas. Diziam ser caduca e não juntar bem os pontos da razão; contudo, devido às circunstâncias, os pássaros acabaram dando a ela a palavra almejada para que pudesse contar o seu lado da história, já que a experiência da senhora devia ser levada em consideração.
— Fontes confiáveis me disseram que Oscar, o quero-quero, está sustentando três filhos que não são dele. E sobre isso nós só podemos pensar numa coisa: Joana, sua esposa, pulou a cerca!
— Você é velha mesmo, hein, dona coruja! — afirmou em tom irônico o mesmo sabiá que havia iniciado as especulações. — Todo mundo sabe que Joana já tinha três filhos quando se casou com Oscar, e isso não é segredo para ninguém. É melhor você ficar na sua.
Ester, ofendida com a audácia do sabiá, estava se corroendo por ter sido contrariada. Além de tudo, a coruja era bastante orgulhosa e na hora em que ia responder o colega, foi surpreendida com uma rajada de vento.
— Vai cair um temporal essa noite!
Quem havia dito aquilo? Todos olharam para a direção do som e puderam ver Carlinhos, o sanhaçu cinzento. Conhecido por suas previsões e seu tom misterioso, a ave se aproximou do grupo em um rasante.
— Vocês não sabem onde estão se metendo. — O clima se tornara sério com a luz minguante do crepúsculo. — Bem-te-vi é um pássaro perigoso, ardiloso e sangue-frio. Não deviam levar o nome dele no bico!
— E como você sabe? — Ester queria bater de frente com alguém.
— Coruja estúpida, me pergunto até hoje como pode ser símbolo de sabedoria. — Carlinhos aumentou o tom de voz. — Por acaso algum de vocês já avistou alguém que esteve na mira do Bem-te-vi?
Os pássaros se entreolharam com um gesto de negação e dúvida.
— Eu já imaginava! Vocês não avistaram ninguém, pois o referido matou todos. Ele é um assassino cruel, sem compaixão. Se posso dar-lhes um conselho amigável: fiquem longe dele!
Naquele ponto da conversa, as nuvens já haviam tomado conta do céu e rajadas de vento sopravam com força, anunciando a chuva que estava por vir. As aves, perplexas com as informações do misterioso sanhaçu cinzento, continuavam o burburinho sobre a vida alheia, quando foram assustadas por um relâmpago rasgando o céu, seguido de um enorme trovão. Mas isso não foi suficiente para que dessem um basta na prosa caluniosa; era preciso algo mais.
“Bem-te-vi!!! Bem-te-vi!!!”
Um farfalhar começou instantaneamente após ouvirem aquelas palavras. Eram pássaros para todos os lados, rumando para os seus ninhos, desesperados e temerosos em se tornarem a vítima da vez. Foi uma verdadeira confusão; um empurra-empurra; uma gritaria e um amedrontamento descomunal. Para que lado ia fulano? E beltrano? Então, todos desapareceram o mais rápido possível. Em suas cabeças estavam fugindo de um verdadeiro assassino, que dava sumiço em quem atravessasse o seu caminho.
Quando o último raio de sol se escondeu atrás da colina, a mata retornou para o silêncio habitual. Assim, a chuva começou a cair e todos as aves se encontravam em seus respectivos ninhos, refletindo os boatos compartilhados e os remendando em pontos sortidos. No fim, cada um entendeu uma coisa diferente, formando infinitas histórias em suas cabeças, mas, se havia algo em comum em seus pensamentos, era o seguinte fato:
“Bem-te-vi estava sempre na espreita!”
A pobre ave nada de mal fazia. Primero levou fama de fofoqueira por seus piados repetidos e encarrilhados; mas a realidade era que nunca havia ousado inventar uma história sequer em sua cabeça. Apenas cumprimentava quem cruzava suas pontes aéreas e nada mais. Porém, de vítima injustiçada, transformara-se em vilão aos bicos da floresta, desenvolvendo a gravidade do mexerico ao ponto de ser chamado de assassino.
“Ora, ora... Bando inquieto de pré-julgamentos.”
Bem-te-vi sabia o que se passava, no entanto não ousava ligar ou murmurar-se para tais especulações. Continuava a avistar os “colegas” e anunciar-se como de costume. Esperto era ele de ver a realidade como ela era e não se enganar com as verdades distorcidas dos autores de toda aquela bisbilhotice. Em poucos minutos construíram tantas lorotas paralelas que só restava ao pássaro à espreita piar do fundo de seus pulmões o que há muito já piava. E tal sentença não era nada além da verdade: de fato, ele avistara a todos em meio ao transe da imaginação fértil. Por fim acabou rindo depois que todos os caluniosos saltaram desesperados de seus galhos, pois era certo que também tinham seus respectivos rabos presos.
Na manhã seguinte tudo voltara ao normal. Bem-te-vi anunciou-se à luz da aurora e todos fingiram que não era com eles. Ninguém queria se expor. Claro que o pássaro era esperto e não passava muito tempo no mesmo lugar, saindo sempre em busca de outras redondezas para se instalar.
No dia em que a mata não ouviu o seu famoso e habitual piado, todos entraram em estado de angústia. E precisou de apenas alguns minutos para iniciarem as especulações, que dessa vez tomava um tom mais benevolente:
— Acho que ele só queria ser amigável — falavam.
Mas era tarde demais. Só viram de um outro ângulo depois que ele havia partido. E durante muito tempo remoeram a preocupação que atingia diretamente os seus corações. Enquanto isso, o Bem-te-vi voava para longe e avistava as novidades que a natureza concedia aos olhos de quem era capaz de enxergar a verdade por trás da densa fumaça ilusória. E assim, ao contrário da teorização de sua estável espreita, Bem-te-vi sentia nas asas a liberdade inerente ao seu estilo de vida. Não se prendia à corrente das conjecturas enferrujadas; preferia, ao invés disso, sentir a brisa por entre seu corpo, que seguia reto ao verdadeiro objetivo de ser feliz.
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