O Portão que Não Mais se Abriu
A vila se alegrou quando seus moradores souberam no nascimento de Matias, filho de um casal conhecido por aquelas bandas. Seu pai trabalhava na fazenda de café do coronel, exercendo a função de inspetor. Moço carismático, amigável e solícito. A mãe, dona de casa, trabalhava para manter o lar que agora ganhava um novo integrante.
Que alegria foi a chegada do menino. Matias crescera como uma criança feliz, brincando nas ruas de pedras com os outros meninos. Corria, cantava e sorria. Às tardes escutava o chamado de sua mãe dizendo para entrar; assim, esperavam o pai chegar do serviço. Jantavam conversando alegremente e dormiam para, enfim, reiniciarem os afazeres mais uma vez.
Na escola, Matias brilhava. Se destacava dos demais colegas pelas contas que fazia de cabeça. Decorara a tabuada antes de qualquer um e se orgulhava disso. Ao ouvir o sino, corria para casa, com fome, pensando no que haveria para comer. Broa de milho com café era o que sonhava todos os dias
Estava com doze anos quando retornava pelo mesmo caminho, numa tarde linda de outono. Os pássaros cantavam alegremente pelo percurso. Ao abrir o portão, viu a figura da mãe chegando pela janela; semblante devastado, com um pano de prato torcido nas mãos. Algo havia acontecido.
O garoto, que pensava na família como uma base sólida de afeto, descobrira que o pai se envolvera numa confusão do trabalho e isso se desdobrou em uma tragédia. Algo mesquinho, visando lucros fáceis para o cafezal, que gerou um acidente fatal de um dos operários. O coronel se livrou da culpa com os advogados contratados, mas alguém precisava pagar pelo ocorrido. O inspetor fora condenado.
A mãe chorava copiosamente. O menino não tinha sabedoria para consolá-la. Nos dias que se sucederam, o boato correra pela pequena cidade. Na escola chamavam Matias de filho do assassino. Sua mãe não tinha mais coragem de sair e encontrar as pessoas na rua. Definhava em casa. Pouco a pouco, a tristeza tomava um lugar mais importante nas tardes lentas que se estendiam. E assim, os anos foram passando...
Quando Matias completou dezesseis anos, as brigas dentro de casa eram constantes. Um não compreendia o outro, e isso gerava um abismo na relação que antes era regada pelo afeto. Certa noite, em uma discussão, a deprimida mulher o agrediu no rosto dizendo ser o desgosto da família. Fora o suficiente para o adolescente sair de casa sem dizer nada, apenas escutando os gritos estridentes da mãe.
Por horas andou sem rumo, sem empatia, sem vontade de prosseguir. Não tinha mais perspectivas, nem o brilho no olhar das tardes que vivera em anos felizes de sua vida. Era uma noite estrelada, que refletia seu encanto nas águas do rio que corria violento sob a ponte. Ali, Matias parou. Sozinho, pensou no que a vida havia lhe dado: vergonha e desgosto? Tudo ocasionando em trocas de palavras ásperas e agressivas que não o levaram a lugar algum...
Não tinha mais forças para lutar contra si mesmo, contra a pressão que envolvia a sua realidade. Olhou o rio e sentiu medo. Sentiu frio. Àquele instante as lagrimas escorreram por seu rosto; pensou em voltar mas havia um bloqueio em sua mente. O vento soprou e a noite prosseguia como uma orquestra melancólica acompanhada pelo movimento das folhas nas árvores. Bastou um lapso para o garoto se jogar, sem ninguém para impedi-lo daquele trágico impulso.
O corpo fora encontrado tempos depois, mas os boatos já corriam pela região. Que tristeza! Daquela casa, nada restou; onde antes a alegria reinava nas refeições em família, o luto se firmara. Algo evitável? Como uma bola de neve que vai rolando montanha abaixo, não se sabe as proporções que certo acontecimento pode acarretar. O que se sabe é que dali nunca mais foi emitido um riso; os raios de sol não mais entravam pelas janelas cerradas, nem tampouco os passos marcavam a grama do jardim, pois aquele velho portão fora trancado e nunca mais voltara a se abrir.
Que alegria foi a chegada do menino. Matias crescera como uma criança feliz, brincando nas ruas de pedras com os outros meninos. Corria, cantava e sorria. Às tardes escutava o chamado de sua mãe dizendo para entrar; assim, esperavam o pai chegar do serviço. Jantavam conversando alegremente e dormiam para, enfim, reiniciarem os afazeres mais uma vez.
Na escola, Matias brilhava. Se destacava dos demais colegas pelas contas que fazia de cabeça. Decorara a tabuada antes de qualquer um e se orgulhava disso. Ao ouvir o sino, corria para casa, com fome, pensando no que haveria para comer. Broa de milho com café era o que sonhava todos os dias
Estava com doze anos quando retornava pelo mesmo caminho, numa tarde linda de outono. Os pássaros cantavam alegremente pelo percurso. Ao abrir o portão, viu a figura da mãe chegando pela janela; semblante devastado, com um pano de prato torcido nas mãos. Algo havia acontecido.
O garoto, que pensava na família como uma base sólida de afeto, descobrira que o pai se envolvera numa confusão do trabalho e isso se desdobrou em uma tragédia. Algo mesquinho, visando lucros fáceis para o cafezal, que gerou um acidente fatal de um dos operários. O coronel se livrou da culpa com os advogados contratados, mas alguém precisava pagar pelo ocorrido. O inspetor fora condenado.
A mãe chorava copiosamente. O menino não tinha sabedoria para consolá-la. Nos dias que se sucederam, o boato correra pela pequena cidade. Na escola chamavam Matias de filho do assassino. Sua mãe não tinha mais coragem de sair e encontrar as pessoas na rua. Definhava em casa. Pouco a pouco, a tristeza tomava um lugar mais importante nas tardes lentas que se estendiam. E assim, os anos foram passando...
Quando Matias completou dezesseis anos, as brigas dentro de casa eram constantes. Um não compreendia o outro, e isso gerava um abismo na relação que antes era regada pelo afeto. Certa noite, em uma discussão, a deprimida mulher o agrediu no rosto dizendo ser o desgosto da família. Fora o suficiente para o adolescente sair de casa sem dizer nada, apenas escutando os gritos estridentes da mãe.
Por horas andou sem rumo, sem empatia, sem vontade de prosseguir. Não tinha mais perspectivas, nem o brilho no olhar das tardes que vivera em anos felizes de sua vida. Era uma noite estrelada, que refletia seu encanto nas águas do rio que corria violento sob a ponte. Ali, Matias parou. Sozinho, pensou no que a vida havia lhe dado: vergonha e desgosto? Tudo ocasionando em trocas de palavras ásperas e agressivas que não o levaram a lugar algum...
Não tinha mais forças para lutar contra si mesmo, contra a pressão que envolvia a sua realidade. Olhou o rio e sentiu medo. Sentiu frio. Àquele instante as lagrimas escorreram por seu rosto; pensou em voltar mas havia um bloqueio em sua mente. O vento soprou e a noite prosseguia como uma orquestra melancólica acompanhada pelo movimento das folhas nas árvores. Bastou um lapso para o garoto se jogar, sem ninguém para impedi-lo daquele trágico impulso.
O corpo fora encontrado tempos depois, mas os boatos já corriam pela região. Que tristeza! Daquela casa, nada restou; onde antes a alegria reinava nas refeições em família, o luto se firmara. Algo evitável? Como uma bola de neve que vai rolando montanha abaixo, não se sabe as proporções que certo acontecimento pode acarretar. O que se sabe é que dali nunca mais foi emitido um riso; os raios de sol não mais entravam pelas janelas cerradas, nem tampouco os passos marcavam a grama do jardim, pois aquele velho portão fora trancado e nunca mais voltara a se abrir.
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