O Grão de Feijão e a Semente de Laranja

Em uma outra pérola que compõe o cordão de histórias fascinantes de minha vó, eis que reluz o episódio do grão e da semente. Estava eu menino na cozinha, brincando com minhas miudezas, enquanto dona Zulmira terminava de fazer o almoço. Panela de pressão chiando, fumaça subindo ao teto, uma melodia já esquecida ecoava pelo ambiente na voz trêmula da velha senhora. Lembro-me de ter feito uma pergunta simples para a mente infantil, porém complexa ao emaranhado de pensamentos adultos: "Se o feijão vem da terra assim como a laranja, por que ele não vira uma fruta também?".

Como foi bom conviver com a sabedoria dos mais velhos, ainda que por pouco tempo. Com suas mãos cansadas repletas de veias saltadas, vó Zulmira pegou uma semente de laranja, ainda no coador de suco, e um grão de feijão. Chamou-me para fora e introduziu os dois caroços na terra dizendo-me: "Veremos o que acontecerá nos próximos dias". Assim, continuamos nossos afazeres.

Na manhã do segundo dia, ouvi sua voz por mais uma vez me chamando. O pé de feijão tinha brotado, minimamente, enquanto a semente de laranja não havia dado sinal. "Tudo bem!", pensei comigo. E lá se foi a semana... A muda que o grão gerara reinava soberana ao lado da companheira, que nem sequer aparecera. "Percebe como o feijão cresce mais rápido? Sua planta agora está maior e logo dará novos grãos. A semente da fruta, por sua vez, passará mais tempo sob a terra até estar pronta para sair. A partir daí, terá um longo e difícil caminho para nos conceder sua primeira laranja".

Que coisa linda aprendia com minha vó. Pude entender a diferença de um para o outro. Missões semelhantes que seguem o mesmo itinerário: ambas sob a terra. O resultado, porém, estava dividido por um abismo no tempo. Quinze anos para uma laranjeira gerar sua primeira fruta! Quantos pés de feijão viveriam e morreriam nesse espaço de tempo? E pensar que um simples gesto levaria-me a esta introspecção.

Enquanto o feijão se destacava no canteiro, a laranja se recolhia em silêncio. Pobre grãozinho; mal sabia que nunca se tornaria uma árvore como a laranjeira, lar dos passarinhos e das borboletas. Mas isso não o fez menos importante, pois o mesmo cumprira com esmero e dedicação sua humilde missão no curto tempo que lhe fora dado.

Quisera eu conviver mais com minha vó, contudo sua missão já havia chegado ao fim quando comecei a compreender os matizes da vida, que são como a terra: podemos semear tudo o que quisermos; grãos, frutos, flores, ervas daninhas... O tempo e a consequência de cada escolha irão definir as veredas nas quais iremos caminhar. Desse processo, devemos apenas distinguir o que semear para, enfim, colhermos os frutos almejados e quistos que representarão nossa missão na perspectiva do tempo que nos foi dado.

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