Saudade da Minha Cidade

Nada contra a cidade em que cresci: a pequena Mar de Espanha. Tenho plena admiração por sua exuberância natural; cachoeiras, vales, paisagens, florestas, montes e montanhas. O que falar dos riachos de pequenas cascatas? Só beleza! As estradas de terra batida também me encantam. Levam-nos para os distritos, as fazendas, sítios e chácaras. Vez ou outra é possível avistar uma boiada à frente. Carroças e cavalos; canários voando rente ao chão; seriemas desengonçadas e maritacas nas copas das árvores frondosas. Eu cresci próximo a isso tudo. Porém alguma coisa mudou...

Minha Mar de Espanha da infância não existe mais. E eu poderia falar muito sobre isso. Textos e mais textos. Mas hoje não vou me aprofundar. Minha cidade ficou fria de uma hora para outra. Não sinto mais o aconchego de outrora. Uma turbulência descomunal tomou conta de suas ruas. O barulho de uma cidade industrial se fez presente nas salas das casas. Principalmente na de meus pais.

A varanda onde brincava não traz mais a mesma paz. Não posso mais brincar em suas pedras. Há muitos anos deixei a pequena Mar de Espanha. E todas as vezes que volto, surge uma estranheza. Cadê aquela cidadezinha do interior? A  cidade de vó Zulmira. Das brincadeiras de rua nas tardes de sábado. A rua onde morei não descansa: carros, motos, ônibus, carretas e caminhões. Todos buzinando ao mesmo tempo. Um engarrafamento ininterrupto. A varanda empoeirada, o jardim sem cor, os portões trancados e as janelas cerradas. Nenhum momento de silêncio.

Passei por muitas coisas em suas ruas. Mais tristezas que alegrias. Mais desencantos. Desilusões! E, ainda assim, consigo ter um amor escondido dentro do peito por ela: a pequena cidade escondida por entre as montanhas de Minas Gerais. Gosto de sua natureza. Não da confusão de suas ruas. Nem tampouco das fofocas inventadas por poucos moradores típicos do interior. Apesar dos pesares, o céu lá continua azul. E a brisa primaveril ainda nos dá as boas-vindas.

Ah, Mar de Espanha! Que saudade... Da chácara da vó Zulmira, dos pés de jabuticaba, das grandes palmeiras imperiais, das histórias antigas e de seus mistérios. Também recordo-me dos tempos de escola e dos recreios passados na casa de minha outra vó, Maria. Lá eu comia broa, pão, biscoito, bolo e doce de figo. Brincava por ali... Nas ruas calmas e pacíficas.

Tudo isso não existe mais. Se dissipou como uma nuvem cansada de chover memórias e memórias sem fim. Adeus, Mar de Espanha dos meus antepassados. Sei que hoje você se tornou uma cidade de oportunidades. Bem diferente daquela que me acolheu na tenra idade infantil na sombra de grandes árvores. Dela só me resta as lembranças; lembranças que se perpetuaram nas batidas do meu coração.

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