Ao meu caro amigo, Vento

Às vezes me vêm alguns conflitos que preciso resolver por minha conta. O excesso de confiança que eu tenho em você faz com que eu acabe compartilhando estas questões que tanto me inquietam intimamente. Está montada a armadilha. Você não tem culpa do que semeio no inconsciente. Tanto que ainda trabalho com aspectos que você já domina. Não tenho a segurança que você tem, tampouco a capacidade de me externar. Você divide as doses emocionais e as usa conforme necessário; já eu deixo tudo acumular e despejo um balde de inseguranças em quem confio. Desculpe se te peço para ter algo que não pode ter: a solução para todos os meus problemas. Há muito já entendi que o maior responsável pela minha vida sou eu; desde então venho tentando encontrar um desfecho para as coisas que me tiram o sono, mas em vão. Ainda não é tempo. O maior problema disso é quando eu me esqueço, e busco em alguém a chave para abrir as janelas da minha alma. No caso, você. Por mais que eu te ame, não posso me esquecer de que você é o vento que sopra meus dias sem fim. Com questões fluídas que jamais entenderei, porque passei muito tempo pensando em mim mesmo. Não farei nenhuma promessa aqui buscando ser alguém diferente, apenas farei o possível para semear em mim a compreensão necessária para ler a vida conforme ela realmente é, e não conforme eu a criei. Desculpe também se tentei fazer de você meu psicólogo, resumindo sua companhia a um depósito de problemáticas. Sei que me ama também, do contrário já teria seguido seu fluxo. Ninguém aguentaria tamanha trivialidade. Toda vida foi assim; eu já me acostumei. E por ser assim, fui ficando mais sozinho e reservado. Aprendi a observar e com isso veio outro problema: o de achar que tudo o que presencio tem um porquê. Mas não tem. Não posso reclamar de ser uma pessoa introspectiva, eu realmente gosto disso. E acredito que você me completa com sua expansividade, apesar de saber que eu nunca serei assim. Isso seria um motivo de preocupação se eu não me interessasse por aquilo que eu não tenho. No caso, eu me inspirei em você. E respeito toda e qualquer diferença que você apresenta. Jamais tentarei te mudar — vento impetuoso —, por mais que minhas palavras pareçam tender para este lado. Como eu disse: eu apenas quero aliviar minhas inseguranças, e encontro em você um portal para atingir experiências desafiadoras. Se eu não me esquecesse da realidade, não me perderia no labirinto do meu ego. Mais uma vez: desculpe se te ofendi esperando brisas assertivas sem olhar para o que você já fez. No mais, sou uma pessoa descontrolada e ansiosa; toda essa organização e planejamento são apenas uma capa para esconder meus problemas. Defeitos despistados por alguém que trocou as placas de entrada na medida em que foi envelhecendo. Talvez tudo isso se resuma ao medo de te apresentar meu subconsciente regado pela indiferença, talvez seja apenas mais uma dose de insegurança que instiga a minha ansiedade ou, quem sabe, apenas mais um problema que tento despejar em você conforme venho fazendo por noites e noites. Em síntese, minhas sinceras desculpas.

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