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Mostrando postagens de junho, 2021

Questões e Esperança

Hoje o dia se apresentou mais bonito. Mesmo jeito de muitos outros; a mudança foi em mim. A beleza veio da interpretação das horas. Agora um dourado vivo se imprime na parede; é o dia dizendo adeus. O sol, tendo cumprido seu trabalho, se encontra na linha do horizonte lançando despedidas para quem teve a sensibilidade de notá-lo durante as horas em que esteve presente. Partindo assim para romper-se em terras indizíveis, que fogem das histórias que já li. O que sei é pouco, e por isso precioso para mim. Mais uma tarde se esvai. Ontem perdi o que era de mim, e hoje encontrei linhas de um passado já não existente. Poucas horas se passaram para que o dia voltasse a surgir no firmamento. E eu? Voltei às páginas para escrever uma história inacabável, inacessível e irrevogável. Venho me encontrando em horas de contentamento, imaginando um futuro onde assumisse um papel desenvolto no contexto de ofícios bem colocados. Paro, bebo água, olho as folhas roxeadas de uma iresine tentando abraçar o s...

O Dom das Asas

Fazendas cintilantes, Estrelas marcantes; É a plantação dos sonhos voláteis, Voando por sobre as árvores da existência. Se ao menos dessem voz às aves, No lugar de piedosos piados, Teríamos o testemunho de que asas são, sobretudo, Palavras Escoadas ao vento e sentidas Por esperançosas folhas a existir Na farfalhada de anseios, Presas aos galhos Cujo alento vem senão Dos sonhos sem raízes, Desbravadores do céu e amantes da ousadia. Vez ou outra, uma única folha Dentre a miríade de sua copa Ousa desprender-se munida de coragem É nesse lapso temporal que ela, Sem nada conhecer, Permite-se voar. Muda e solitária, Pois ao contrário das aves, Não fora agraciada Com o dom Das asas.

Mente Fantasiada

Luzes. É isso que eu vejo. Agora explodo. O ano já chega em sua metade trazendo consigo um leve sabor de coentro baiano. Pouco sei o que será reservado a mim nos próximos capítulos, mas sei que algo me espera.  A vida é amor batendo as ondas nas pedras. Mar?  Para um mineiro falar de mar, a esperança tem de estar vibrando no coração. Cada onda traz consigo prazeres e desprazeres; a gente acaba se acostumando com isso. O segredo é se molhar. Domingo se estendendo pelo quarto. Sol e sombras dançando nas projeções. E eu nada mais tenho para escrever. O inverno começou mas aqui continua quente. Começou mesmo? Nem sei mais.  Tenho um motivo que inebria minha consciência. Mente fantasiada.  Cores performando enquanto a poesia não aparece. O jogo de luz ainda dança nas paredes. Dança também na roda de pensamentos. Tudo em movimento: ondas, danças, cores, sons e palavras. Brincadeiras de criança. Criança que deixei de ser quando dei voz aos fantasmas. O texto fala de coisas ...

Diário de Conclusões

De crônicas não tem nada, efêmero diário de conclusões. Lembro-me de seus primórdios quando começava com um título de poliglota. Piada nas entrelinhas. Se nem do português conseguiu extrair a pérola, vai munir-se de audácia arrojada para afrescar-se com títulos? Não mesmo! Caderno despedaçado. Sei que guarda de tudo um pouco. O restolho vem pra cá. Pensamentos perdidos. Ainda assim tenta fazer-se com títulos. Onde já se viu? Cronista... Essa é boa. Ou melhor, ótima! Você não passa de uma costura retalhada, com tecidos de várias origens. Sequer tem personalidade. Vaga por campos desconhecidos como um doutor do vazio que carrega dentro de si. Você perdeu o jogo. E agora que acordou, pensa que tem o tempo? Não era aquele que dizia ser seu inimigo? E ainda matuta na esperança do mesmo ser solícito com seus desejos infundados. O tempo tem raiva por seu desperdício. Sem desculpas de amadurecimento. Já disse, palavras por palavras, todas enchem as folhas de papel.  Acabou o parágrafo! As ...

Algo sobre a Dúvida

A ave grasnou no ninho de incertezas; a noite girou numa roda de dança; as luzes se apagaram; as estrelas fugiram; as peças faltaram no jogo; o manto não mais cobriu de alento; a fogueira deixou de trepidar. No fim, janelas abertas e o frio adentrando as ramificações da existência. Mas o que é a dúvida? Escolhas sob privações; andar desnorteado com mapas rasgados nas mãos; perder a areia da ampulheta quebrada; abrir uma porta e encontrar três; escutar as batidas do coração precipitado; ouvir os gritos da consciência enlouquecida e nada poder fazer, pois o agir deixou de ter papel no ato das interrogações. Por isso a dúvida se embebeda com o veneno do ócio, encharcando seus casacos para lançar abraços em chegadas insensatas. Há muito ela deixou de ser cruel para se tornar uma assassina de sonhos. 13:40 do dia seguinte: Uma claridade tenta adentrar o quarto. Solidão.  Ontem eu escrevi sobre a dúvida; hoje já duvido de minhas palavras. Sei que preciso agir, mas sinto meu corpo preso e...

Sobre Você

I. Há muito não escrevo sobre você; E apesar de muito já ter escrito, O muito nada significa Quando as palavras ficam no passado. II. Emoldurando espelhos de semblantes perdidos, Nas batidas do coração encontro-te vagando Em velhas páginas de histórias olvidadas. Amadurecemos com o tempo E as palavras ganharam novos significados, As músicas ganharam novas melodias, Mas os passos seguem os mesmos. Caminhamos juntos! Nas curvas, novas surpresas e nuances Do sentimento florescido nas linhas de nossa história. III. O tempo passou para nós, Ainda assim, as páginas não se asperizaram, Tampouco ganharam o tom do esquecimento. Folhas e mais folhas: escancaradas A serem lidas, virando-se à suavidade do vento. Assim escrevemos uma história emocionante. Dança de sorrisos e lágrimas; De encontros e despedidas; Abraços e corações apertados. IV. Em linhas tecidas estampei o seu jeito: Um jogo de admiração intrincada com afeto. Por você ser capaz de f...

Memórias Brincando

Quando tudo desaparecer, Restando-me apenas memórias De sóis iluminando dias de ventania; Folhas desprendendo-se das árvores; Passos lentos sem destino E o relógio girando rápido demais, Sentirei a áspera superfície dos papéis Que não foram escritos Por medo de dias construídos Sob fundamentos instáveis. São as memórias brincando, Vestindo fantasias Para assombrar as noites de insônia. Quiseram elas ser fantasmas; Verdadeiros fantasmas. Não passam de sombras no escuro, Invisíveis e irrelevantes. Penso nas árvores do pomar Avistadas da varanda; Na grama bem cortada Cintilando à luz do dia; Nas flores do jardim, Formosas bailarinas; Se esses dias virão eu não sei. Mas carrego comigo o frasco Contendo as gotas de esperança Colhidas no orvalho de uma fria manhã.

O Quarto de Três Metros Quadrados

Depois da solidão, o que vem? O quarto de três metros quadrados Já não conversa mais comigo. Suas paredes não me reprimem há algum tempo. Tampouco a janela outrora fechada Faz-se apática à paisagem. Paisagem? Apenas um muro chapiscado Com uma hera minguada repleta de pragas. Mas ali eu me fiz. E ao som turbulento da rua movimentada, Compus meus poemas vazios. Textos à gaveta em quantidade, Enquanto o quarto me pressionava e me esmagava Em três metros quadrados. Escuridão ao meio-dia, Cortinas fechadas e a porta trancada Já não me atingem mais. Ou melhor: Talvez! Acontece que eu aprendi A viver nos três metros quadrados Com paredes amareladas e manchas de sangue Dos pernilongos mortos em noites quentes De verões desperdiçados. Aprendi a viver ali, naquele cubículo sufocante Escrevendo sobre o que não vivia E sobre o que não sabia. A janela de madeira, o azulejo branco já gasto, A tela do computador e os livros empilhados: O quarto co...

Cores e Palavras

E as palavras continuam indo e vindo. Nessa manhã outonal já me inundo de sentimentos invernais. O dia pode até ser bonito, mas traz consigo o frio anunciando a chegada da estação impetuosa.  E quem disse que o frio não tem beleza? As cores ganham tonalidades prateadas em seus contornos e o sol avança pelo pavimento com a suavidade de um pincel marcando a tela vazia. Encantos da manhã. As flores cintilam como as estrelas da noite, pois são elas as estrelas do dia. Constelação da vivência em cores e contornos. E é no ar gelado dessa mesma manhã que meu coração se inunda de alento. A inspiração é o broto rasgando a semente germinada. Não sinto as paredes me apertando pela manhã. O vento matinal tem toque angelical e varre a insegurança que usualmente acorrenta meus pensamentos. O "e se" parou de fazer sentido; transformou-se em "é" ou "não é". Nesse instante eu sou. E ao som da Orquestra Armorial componho o início do meu dia. Que o azul do céu me invada por ...

Tracei Minha Rota

O que escrever quando tudo aquilo que escrevi já se consolidou? Como transcorrer um sentimento já descrito em versos de um poema qualquer? Depois de alguns dias volto aqui e me deparo com estas duas perguntas. Até ia começar a escrever algo novo, já que me encontro em mais um entardecer nostálgico anunciando a chegada do inverno. Dessa vez, sem a estonteante presença do céu rosado.  Tantas cartas escritas. Tantos caminhos andados. E a sensação de não chegar a lugar algum permanece me corroendo as entranhas. Ah, mas eu cansei de escrever sobre essa mesma ladainha todas as vezes. Palavras vazias. Infladas, cheias de ego. Assim como posso fazer jus a minha língua, que delineia meus pensamentos e forma palavras. O português.  Uma rosa plantada sobre pedras soltas que fez seu caminho ao chão fértil. Que bom que minha língua é o português. Com ele eu posso brincar e me deleitar em seus acentos. Assim tracei minha rota. E muito além de contar uma história, a escrita carrega consigo u...

Portão de Ferro

Aquele portão de ferro me trouxe um espectro assombroso de tempos apinhados em lágrimas escorridas por rostos sofridos, calos em mãos que nunca pegaram numa caneta, terços rezados com afinco em noites de desespero, vida vivida no canto de barro e madeira carcomida. A igreja de portas fechadas; da escada, só lembranças de sapatos enlameados pelo percursos. Hoje, um jardim repousa ali. Suave como uma brisa tímida passando rasteira nos calcanhares de quem adentrava aqueles portais com altivez. A igreja não era para todos. Na fazenda havia um rio há muito explorado: de sangue, correndo vivo nas entrelinhas da história. A flores que tiram da terra seus nutrientes sequer sabem o que a mesma terra usou para nutrir-se quando uma mão no arado era mais valiosa do que no lápis. E apesar da severidade do tempo, a pequena igrejinha resistiu com as paredes alvejadas.  No adro, pedras encaixadas expondo manchas da estação. O musgo ressequido tomou conta dos lugares ocupados pelas pranteadoras dos...

A Montanha de meus Alvoreceres

Estou um tanto quanto esgotado. Sem cabeça para estudar ou consumir palavras. As palavras têm me cansado em demasia. Estariam elas fatigantes ou a gênese do ócio parte de mim, um ser qualquer caminhando sem rumo entre uma história e outra? Há muito venho discorrendo sobre a ansiedade. Neste exato momento ela está controlada. Consegui plantar alguns pensamentos no solo de minha mente que germinaram em lindas flores coloridas. Se eu fechar os olhos, consigo vê-las.  Simplório jardim, de fato. Nada suntuoso. Apenas alguns ramos rasteiros de botões pendidos dançando ao vento aqui e ali. Em perfeita harmonia. Vez ou outra uma névoa os cobre e eu nada consigo avistar senão uma densa tonalidade acinzentada.  Eu não entendo o porquê do meu cansaço. Eu queria ter ânimo para ler mais; estudar e até mesmo escrever. Lindos poemas; textos envolventes; contos marcantes. Mas nada disso eu tenho em mãos. Só um vazio excêntrico, fantasiado de conteúdo primoroso.  Sequidão. Ah, mas vamos p...

A Força do Tempo

Já posso ver ao longe uma linda tarde outonal em contrastes opacos de um dia já findado. O azul metálico tinge o céu aos poucos, ganhando um matiz enegrecido que anuncia a chegada da noite. Hoje o dia foi longo. Viajei alguns quilómetros para contemplar este céu. A luz do quarto tremula e um hiato silencioso se propaga entre as teclas do computador, uma vassoura varrendo a calçada e crianças brincando ao longe. Minha cabeça pesa. Mal consegui dormir na noite passada. Uma estranha melancolia fustigou meu coração quando disse adeus aos emaranhados de devaneios que carregava em meu íntimo. Adeus, pensamentos aluados. É hora de abrir espaço a novas narrativas. Tudo bem eu fazer da escrita um refúgio. O adeus nem sempre é agradável. Olhei para o meu quarto, minha cama, minhas coisas, agarrei as alças da mala e, sem pestanejar, cruzei a porta deixando os planos para depois. Fiz isso porque o sentimento falou mais alto. E agora escrevo sobre um céu já escurecido pela noite entre nós. Meu corp...

Singela Cascata

Hoje te contemplei, singela cascata; quase ofuscada em derradeiros rasantes, mas muito apreciada em páginas já esquecidas ou arrancadas de trágicos exemplares. Isso me fez pensar na vida: tuas águas minguantes outrora tão quistas, como puderam transpassar a história para o lado absorto da vivência? E apesar da sombra estampada pelas pedras molhadas, com ares de dias já findados, a pequena e tímida queda ainda compõe uma canção às aves que ali se banham.  Tudo bem, cascata acanhada. É trabalho do tempo fazê-la correr por entre os rochedos e encontrar caminho na densa mata fria. Para que se lembrar da história agora? Só te traria tristeza, quando por conseguinte viesse ao reflexo de dias azulados o rubro tom do sangue derramado em suas margens agora tão plácidas. Quantos ali perderam suas vidas, banhando as feridas e enterrando os sonhos? Se eu soubesse a resposta, quem sabe teria tuas feições em meu rosto no instante em que meus olhos cruzaram teu reflexo. E outras cascatas escorrer...

Telas Empilhadas

Do que é feita a ansiedade? Bem, se imaginarmos um caldeirão de sentimentos a fogo baixo, ela se dá como a fome. Algo paralisante quando não controlado. Pois bem; eis que este mês de junho se iniciou um tanto quanto pacífico. Talvez eu nem saiba verbalizar o porquê. Começou com um cochilo durante a tarde acinzentada. Um sonho, quem sabe. Lá estava eu, sentado em um banco refletindo sobre a vida. Depois de tanto me desesperar em anseios por dias ideais, de repente me vejo de frente a uma tela em branco. Em minhas mãos, uma aquarela. Tudo o que eu precisava fazer era pintar. Mas pintar o quê? Pensei. Ora, por suposto a arte diária que perpetuamos no relógio vivencial. Queria a todo custo pintar algo estupendo, extraordinário, faraônico. Olhei para um lado, depois para o outro. Encontrava-me numa varanda vazia em um dia quente de verão. Cenário oposto ao que se projetava lá fora, enquanto dormia. Acontece que eu não podia pintar aquilo que passava por minhas ideias. Bastou-me escolher uma...