O Quarto de Três Metros Quadrados
Depois da solidão, o que vem?
O quarto de três metros quadrados
Já não conversa mais comigo.
Suas paredes não me reprimem há algum tempo.
Tampouco a janela outrora fechada
Faz-se apática à paisagem.
Paisagem? Apenas um muro chapiscado
Com uma hera minguada repleta de pragas.
Mas ali eu me
fiz.
E ao som turbulento da rua movimentada,
Compus meus poemas vazios.
Textos à gaveta em quantidade,
Enquanto o quarto me pressionava e me esmagava
Em três metros quadrados.
Escuridão ao meio-dia,
Cortinas fechadas e a porta trancada
Já não me atingem mais. Ou melhor:
Talvez! Acontece que eu aprendi
A viver nos três metros quadrados
Com paredes amareladas e manchas de sangue
Dos pernilongos mortos em noites quentes
De verões desperdiçados.
Aprendi a viver ali, naquele cubículo sufocante
Escrevendo sobre o que não vivia
E sobre o que não sabia.
A janela de madeira, o azulejo branco já gasto,
A tela do computador e os livros empilhados:
O quarto conversava comigo!
E eu, bem... Eu conversava com o quarto.
Deixava meus temores do lado de fora.
No quarto o medo não entrava,
Só as palavras. Selecionadas e encaixadas
Por minha mente tão verde achando por instantes
Que era capaz de abraçar o mundo.
A verdade era que eu me resumia ali, e mentia para mim
Dizendo ser conquistador dos sonhos improváveis.
Sequer conquistava o quarto,
Pois a cada nova mancha de um pernilongo assassinado
Entendia que aquela batalha estava perdida.
Ao menos eu podia meditar, deitado na cama
Fingindo dominar meus sentimentos e inquietações...
E ali adormecia, sob pretexto de cansaço.
O que se pode fazer em três metros quadrados?
Eu fiz um mundo dentro de minha cabeça.
E nele sucumbi sem lançar uma lágrima sequer,
Porque aprendi a língua da solidão
E a me expressar em frias manhãs de sol brilhante no céu,
Mas inacessível a mim. Afinal...
No quarto não pegava sol. O muro não permitia.
A sensação dele estar no céu e eu não conseguir tê-lo
Feriu-me as entranhas poéticas
De onde saem as palavras.
O sol transformou-se em privilégio
E desejo ao espectro que se imprimia no espelho.
Transformei-me naquele cubículo: sem paisagens ou luz,
Fazendo de minha mente uma oficina
De sonhos arruinados pelo medo de se abrir uma porta.
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