A Força do Tempo

Já posso ver ao longe uma linda tarde outonal em contrastes opacos de um dia já findado. O azul metálico tinge o céu aos poucos, ganhando um matiz enegrecido que anuncia a chegada da noite.

Hoje o dia foi longo. Viajei alguns quilómetros para contemplar este céu. A luz do quarto tremula e um hiato silencioso se propaga entre as teclas do computador, uma vassoura varrendo a calçada e crianças brincando ao longe.

Minha cabeça pesa. Mal consegui dormir na noite passada. Uma estranha melancolia fustigou meu coração quando disse adeus aos emaranhados de devaneios que carregava em meu íntimo. Adeus, pensamentos aluados. É hora de abrir espaço a novas narrativas.

Tudo bem eu fazer da escrita um refúgio. O adeus nem sempre é agradável. Olhei para o meu quarto, minha cama, minhas coisas, agarrei as alças da mala e, sem pestanejar, cruzei a porta deixando os planos para depois. Fiz isso porque o sentimento falou mais alto.

E agora escrevo sobre um céu já escurecido pela noite entre nós. Meu corpo ainda dói. A viagem foi maçante. Bocejos ininterruptos cortam frases ao meio como uma carreata desenfreada rumo ao aconchego de uma cama confortável. Mas ainda não está na hora de eu dormir.

Quero falar tanta coisa. Uma delas é sobre a satisfação de transformar este espaço num diário cheio de textos vazios. Como eu bem sei, são textos que desfazem os nós da minha mente. E quantos nós. Um para cada pensamento intrincado na ansiedade que me devora.

Sobre ela, já não quero mais discorrer. Quero falar do dia: um sol estonteante seguido de uma névoa fria ao entardecer. Fonte de reflexão para a vida. O tempo muda a todo instante dentro de nós. E é por isso que me encontro cansado. Cansado de lutar contra a força do tempo. Se eu ao menos relaxasse e deixasse as coisas acontecerem como devem acontecer. Mas não... Não! Tenho sempre que interferir e acabar no poço das frustrações.

Nos últimos dias reli alguns textos escritos por mim e descobri que passei pela névoa a que me refiro. Que dramaticidade embebida de superficialidade, meu Deus. Só agora posso ver os primeiros raios de luz surgindo. Algo alegre para compartilhar? Sim! Estou com vontade de estudar. E estudar é sempre bom.

Não vou falar de árvores hoje, tampouco de pássaros voláteis. Vou dizer apenas uma coisa para concluir: nunca, em hipótese alguma, se deve lutar contra o tempo. Contra ele, só os tolos exercem uma batalha já perdida. E gastam suas vidas tentando alcançar falácias infundadas em preconceitos ressequidos ao chão, como folhas de um outono que passou.


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