Algo sobre a Dúvida

A ave grasnou no ninho de incertezas; a noite girou numa roda de dança; as luzes se apagaram; as estrelas fugiram; as peças faltaram no jogo; o manto não mais cobriu de alento; a fogueira deixou de trepidar. No fim, janelas abertas e o frio adentrando as ramificações da existência.

Mas o que é a dúvida? Escolhas sob privações; andar desnorteado com mapas rasgados nas mãos; perder a areia da ampulheta quebrada; abrir uma porta e encontrar três; escutar as batidas do coração precipitado; ouvir os gritos da consciência enlouquecida e nada poder fazer, pois o agir deixou de ter papel no ato das interrogações. Por isso a dúvida se embebeda com o veneno do ócio, encharcando seus casacos para lançar abraços em chegadas insensatas.

Há muito ela deixou de ser cruel para se tornar uma assassina de sonhos.

13:40 do dia seguinte:

Uma claridade tenta adentrar o quarto. Solidão. 

Ontem eu escrevi sobre a dúvida; hoje já duvido de minhas palavras. Sei que preciso agir, mas sinto meu corpo preso em uma espécie de visco. Garras de uma fera esquecida. Ou talvez irresponsabilidade minha. A dúvida se fez gigante, quebrou as pedreiras e ecoou na infinita noite. As horas saltaram e o relógio se partiu com um raio vindo do céu.

Uma leitura, quem sabe. Por ora, brigo comigo mesmo: ser de mente preguiçosa. Incapaz de delinear os próprios sonhos. Se eu falasse menos, talvez teria mais energia para tecer as ideias que nascem nas fontes do precipício. O sol. O que ele representa agora? As palavras sequer fazem sentido sob a luz. E eu nem estou falando de ansiedade.

Esta eu já cansei. Perdi as estribeiras tentando entendê-la e nenhuma resposta tive. No fundo, eu sou a resposta. Mas não quero acreditar nisso. Os quartos falam comigo; suas vozes são cruéis. Deixo eles falarem sozinhos. O ar se torna leve e eu posso aprender. 

Se ao menos pudesse firmar um propósito que fosse... As energias se renovariam igual da última vez. E os caminhos se abririam a minha frente. Conquanto buscarei outra rota. Um olhar para dentro. Uma brisa serena entrando pela janela. É a vida brincando de ser gente.

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