Telas Empilhadas

Do que é feita a ansiedade? Bem, se imaginarmos um caldeirão de sentimentos a fogo baixo, ela se dá como a fome. Algo paralisante quando não controlado. Pois bem; eis que este mês de junho se iniciou um tanto quanto pacífico. Talvez eu nem saiba verbalizar o porquê.
Começou com um cochilo durante a tarde acinzentada. Um sonho, quem sabe. Lá estava eu, sentado em um banco refletindo sobre a vida. Depois de tanto me desesperar em anseios por dias ideais, de repente me vejo de frente a uma tela em branco. Em minhas mãos, uma aquarela. Tudo o que eu precisava fazer era pintar.
Mas pintar o quê? Pensei. Ora, por suposto a arte diária que perpetuamos no relógio vivencial. Queria a todo custo pintar algo estupendo, extraordinário, faraônico. Olhei para um lado, depois para o outro. Encontrava-me numa varanda vazia em um dia quente de verão. Cenário oposto ao que se projetava lá fora, enquanto dormia.
Acontece que eu não podia pintar aquilo que passava por minhas ideias. Bastou-me escolher uma cor; verde, em espasmo corporal, para traçar um risco torto naquela tela estonteantemente branca. E estava tudo acabado. Nada do que planejei havia se materializado. 
Tudo bem, pensei. Olhei mais uma vez ao redor e não vi nada que pudesse tirar minha paz. Mas na tela estava um desastre esverdeado verticalmente, cuspido por um pincel trêmulo. Havia acabado minhas chances de fazer algo bonito. Para mostrar a quem? Eu não sei, só sei que havia falhado na minha missão de pintor.
Fui para dentro, peguei um copo de água e tomei. Mirei para fora da janela e pude avistar nuvens passando vagarosamente pelo céu. Droga, eu podia ter pintado o firmamento, é claro. Quem mandou eu pintar uma densa floresta sem ao menos dominar as técnicas de cores sobrepostas em verdes magnânimos? Por um instante, senti-me um fracassado. Aquele que joga o tempo fora. Um vagabundo, talvez.
A tela havia sido manchada por mim. E nada poderia desfazer aquele borralho. Disseram-me que eu precisaria mostrar o quadro a alguém. Desconhecido, mas alguém. Um alguém que nunca chegava. E eu desperdiçava meus dias e noites a sua espera. Minha vida se resumia ao quadro. Fitava aquele traço com desprezo às vezes. Até o dia em que eu refleti sobre este mesmo alguém.
Quem é ele? Por que minha vida se baseia em pintar quadros a ele que nunca sequer colocou os pés em minha varanda? Pintava a ele quando muito em tardes outonais e acumulava telas e mais telas na sala de minha casa. Pra quê? Nada tive senão a frustação do vazio.
Encarei aquela mancha verde mais uma vez. Molhei o pincel e encharquei-o de mesmo tom. Aos poucos o branco da tela foi sumindo em meio a selva de minhas reminiscências. No fim, restou-me uma tela completamente verde. Completando a pilha crescente na sala. 
Percebi então a vida acontecendo fora dos pensamentos de tintas e telas. Os detalhes perdidos na efemeridade. Sentei-me no sofá e só então depois um longo tempo fui capaz de apreciar uma lindo livro já escrito. 
Acordei do cochilo. A ansiedade? Esta sumiu nas veredas de uma tarde junina qualquer. 

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