Postagens

Mostrando postagens de janeiro, 2023

Lugar de Memórias

As coisas estão no lugar. Assim como eu também estou, sentado nesta cadeira, ouvindo música e escrevendo o futuro no presente; ventilador ligado, janela aberta, plantas nos vasos, casa varrida, roupa lavada, palavras escritas e sonhos sonhados. Janeiro atravessado, de ponta a ponta, aberto pelas entranhas de um ano que mal começou. Lembro-me do passado mas já não faço dele um lugar para habitar. É apenas a fumaça do incenso que queima ao meu lado. Perfume de rosas brancas. Mais uma vez: tudo está em devido e dileto lugar. A tarde perpassa pelo ambiente dizendo que o dia já está indo. Ele vai para onde eu já fui. Quando voltei, não sabia lidar com o presente. O passado estava pregado à alma do saudosista viajante do tempo. Sem sair do lugar, ele ia e vinha pelos anos acumulados. Nunca viveu a verdadeira aventura que é o agora. Percebo que memórias estáticas são ilusões. Apenas as que mudam são verdadeiras, porque assim vivem sua natureza na mais plena das formas. Muitas memórias que sem...

Próximo Parágrafo

Começo a pensar que falta poesia em minha vida. As coisas estão tão chatas, tão iguais. A forma poética se perdeu nesse torvelinho de mesmices onde surgem as histórias. Todas mal contadas. Profundas como poças d´água depois de uma chuva normal. Parece mesmo é que eu usei todas as palavras e não tenho mais o que dizer. E como a poesia se perdeu, perdeu-se também a beleza. De quem eu estou falando? Ora, rapaz! Você que já se julgou como o grande entre os grandes sabe perfeitamente que nada é senão poeira. Poeira não faz arte. Você é capaz? Todos são! Chega de dar voz aquilo que nasceu para o silêncio. A mente pode ter muitas vozes; todas são acúmulo de caprichos decorrente da falta de sensatez. Existe uma única voz sinceramente capaz de mudar os caminhos e dizer a verdade impressa em palavras. Tal voz não está nos domínios da mente ligeiramente pensante e transbordante. Trata-se da voz do coração pungente. Ah, coração acelerado por dizer coisas indizíveis. Tudo é tão cheio de contradiçõe...

Versos do Céu (OK)

Nossas memórias. Dia de chuva. Luzes ao longe. Passos molhados. Foi o céu que se entendeu como versos livres e caiu sobre as páginas de nossas pegadas. Não que tenha sido fácil para ele, o céu, cair. Daí pôde nos ensinar que para se expressar na tormenta é preciso se despencar das altas nuvens. O que ele encontrou cá embaixo não foi nada além de poças lamacentas, correnteza que se esvai na sarjeta, espaços apertados onde a água encontra meio de se infiltrar e tudo quanto é correria das pessoas que perderam a capacidade de contemplar as belezas da vida. Digo isso pois também quase a perdi. Ainda assim, depois de tanto tempo, carrego comigo um pouco das tempestades que me orgulhava em ter. Jamais pensei num céu claro onde pudesse me deleitar com o azul estendido sobre o infinito; a cor mais rara da natureza em fonte interminável do matiz que se precipita até nós. Ah, o azul. Azul de todo dia; de mistérios; de qualquer hora; de calor e ventania; de segredos escondidos nos jardins onde as ...

Uma Ave na Janela

Acordei de um sono profundo. Ouvi músicas que há muito não ouvia. E a tarde já estava presente quando percebi que tudo se transformaria em vozes cantadas. Uma vez, lembro-me de ter falado sobre uma ave pousada pela manhã no parapeito da janela. O som me despertou para memórias que eram especiais em outras tardes, mas que nestas deixaram o resplendor para se enterrarem sob o grande e misterioso campo. Campo este que venho decifrando com as palavras. Posso ter escrito um texto denso há poucos dias que me fez enxergar uma epopeia nas minúcias das horas. A jornada do tempo para desbravar esse ensejo de existir. Pouco depois já havia desfeito os nós; a rede não suportava mais o peso dos calhamaços de histórias vazias. Este era o tão quisto momento desértico em que eu fantasiava as minhas elucubrações. Em nenhum lugar era levado de volta por tê-las comigo. Elucubrações de loucura. O deserto foi me dado e dele nada pude fazer. Era para ter sido diferente, de certo modo, com a aridez dos senti...

Jornada da Segunda Pessoa

Sois vós que almejais desbravar os mistérios da língua; palavras intrincadas no desejo que semeais pela genuína voz da expressão. Se acaso quiserdes caminhar pelos campos sombrios do desconhecido, rumando vosso raciocínio à luz da compreensão, tereis de amarrar as sandálias para que aguenteis o percurso. Quando enfim chegardes no ápice, orgulhar-vos-eis da visão infinita, aberta a vossa frente. Posso vos afirmar que em muito sentir-vos-eis o cansaço adentrar. E aqueles que vós acompanháveis já não estarão à vista. De certo, a solidão entrará em seu íntimo tentando fazer-vos desistir. Não desistais! Encorajo-vos por saber das consequências. A jornada valerá a pena quando abrirdes a mente. Se já não estiver aberta. Dir-me-íeis dos pesadelos se fôsseis regado pela covardia. Mas assim não sois. Tendes a verdade ao vosso lado. Ao passo em que também fazeis uso da coragem. Lembrar-vos-eis de quando refletistes o medo para vos encorajar de refletirdes o amor. Sendo assim, da língua de vossa b...

Verdade do Amanhecer

Quase não era para eu estar aqui, escrevendo. Já passou da meia-noite. O dia não foi conduzido pelas palavras. Aliás, as palavras que não foram conduzidas pelo dia. Passou despercebido, sorrateiro, cheio de letras vazias nas nuvens cinzentas que caíam lentamente pela tarde, uma a uma, gota por gota, ditando as regras da mente cansada que me consumia e do quarto abafado em que me encontrava. Depois, respirei. Encontrei umas pegadas por aí. Segui-as até chegar na noite. E por isso demorei. Quase não vim. Mas houve um estalo, pouco antes de agora, que me fez aparecer. Estava lendo. Meio desmotivado, apesar da boa leitura. Lia algo sobre Deus. Um aperto me surgiu bem abaixo do pescoço, lar do coração, peito acelerado pelas escolhas que fiz. Se fiz umas, desfiz outras. Ao longo do processo, fui desconstruindo tanto a minha fé que pouca coisa restou para se refletir no espelho. Afinal, do pó da desconstrução fiz-me os outeiros para escalar e chegar mais perto do céu. Talvez tenha escolhido o...

Depois do Meio-dia

Então, uma nova janela se abre. Se passei por momentos difíceis, foram-se com o rio. Estou na margem, molhando os pés, jogando água pelas costas, para lavar-me a alma tão cansada de pedir. Pedir já não condiz com o que acredito. Usar a palavra para impor condição é fazer uma arte limitada. Por isso, caríssimos, venho aqui para abraçar e agradecer. Isso me faz lembrar das sete ondas puladas no réveillon como forma de iniciar o ano. Depois da sétima veio a oitava, a nona, a decima... Deve ter sido umas vinte e tantas. Mas para tanto, o ano até que está agradável. Já passei, de fato, por questionamentos profundos que me levaram à câmara secreta do arrependimento. Depois, tudo se desfez. Qual é o antônimo de se arrepender? Pois foi isso que aconteceu logo após eu ter saído do campo dos segredos. Acredito que a palavra que busco é reincidir. Tomei as rédeas do carro de boi; dessa carroça capenga que atravessa as ruas esburacadas chegando de um lado a outro, buscando diferenças nas fachadas ...

No Mesmo Caminho

Eu sabia que ia sentir algo distinto assim que voltasse para Belo Horizonte. Aquela angústia, cuja carta já lhe escrevi com verdade, esverdeando o caderno já tão verde. Ah, Filipe, Filipe! O que você fez nesses últimos anos? Vagou por aí, batendo a cabeça, tentando ser o que nunca foi. E por que justamente agora esta onda de desejos velados vem sacudir os cais de suas praias? Você falou muito de saudade, palavra tão difundida e pouco compreendida, como uma floresta não explorada. O que te aperta o peito não é saudade. Deixemos isso para depois. Algum tempo se passou. Coisas aconteceram. Ouvi a voz de minha mãe. E agora, bem, agora vou sair por aí, curtir a tarde que se esvai. Caminhar pelas ruas da capital, do bairro onde moro, redescobrindo na forma das plantas uma nova interpretação para a vida. As plantas dos jardins dos outros têm muito a dizer. Não é à toa que estão na frente das casas. Toda casa carrega consigo muitos sonhos. Com a minha não é diferente. De todas as casas que tiv...

Restos e Resultados

Destrinchando sentimentos. Hoje é o último dia das férias que eu e Otávio tiramos na casa de meus pais. Não estou à guisa do escritor que carrego do lado de dentro. Fechei as janelas, chacoalhei o ambiente; o que era varanda não é mais, os cômodos viraram do avesso, e a prisão, que construí moldada nos pesadelos, transformou-se em um cativante cantinho de leitura, berço da paz e da acolhida. Foram-se as ruas entortadas, os transeuntes apressados, os carros das cinco horas, as conversas de portão, o comércio delirante e a vida da grande cidade pequena. Nada como o tempo, piscando os olhos para quem perceber suas artimanhas. Ah, férias ligeiras. Como pôde passar, assim, tão rapidamente? E a chuva, molhando a grama, levantando a hera, marcando de pegadas e patas o piso da cozinha, encheu-me a alma e está prestes a transbordar. Que texto é este? Nada falei da agitação que está no meu peito. Dos pensamentos escorregadios e das reflexões rarefeitas. Tenho medo do amanhã. Ainda? Não fui eu qu...

Jardim de Todo Mundo

Então, parece que as coisas se encontraram. Que eu as fiz se encontrarem, umas com as outras, cada qual ao seu modo. E, mesmo descobrindo a fonte pela qual as palavras passarão a existir, não sinto vontade de escrever grandes coisas. Por isso, apesar do grande encontro, tudo continuou conforme sempre esteve. E assim continuará, pelo menos até onde minha imaginação consegue ir. Talvez, quase certamente, o dito encontro tenha se transformado em uma singela centelha de angústia. Por conta das férias chegando ao fim; da saudade que tomará o seu lugar; da espera por uma resposta; porta entreaberta, difícil de decifrar. Os dias estão quentes, o suor me desce a face, deixa meus óculos insuportáveis e, concomitantemente, essenciais. O que seria assim, conceito de polaridade no hermetismo, a mesma coisa: insuportável e essencial, extremos opostos de uma mesma linha. Posso afirmar que estou perdido. E que nada faz sentido. E que estes parágrafos curtos são caprichos tentando fazer algo diferente...

Círculo de Palavras

 Acabei de ler O Encontro Marcado. Por mais que tenha soltado a faísca da estrela perdida, não consigo me desvincular daquilo que preguei à face: o naufrágio. O livro que li me ensinou grandes coisas. Por muito me vi no personagem. Entendi os pormenores reluzindo no fundo da lagoa. Eu precisava tocar o coração. Pois então: o coração foi tocado. A caixa continua. Abarrotada. Sem espaço. Mais está aí, para todos verem. Ninguém a vê. Sabe o porquê disso? É que todos têm consigo uma caixa secreta também. Alguns não sabem. Outros a escondem. Poucos deixam-na aberta. O medo da relíquia. A sacralidade banalizada. Papéis em cima de papéis. No fim, um monte de velharia que ninguém se importa.  Meu Deus! Se eu confessar que ainda levo comigo um aperto no peito pelos caminhos que não escolhi, seria um verdadeiro idiota? Um transeunte saudosista em meio a tantos? Arranquei poesias de mim para que nascessem outras. Talvez tenha desfeito o laço mais importante. Sem saber. Quis ver outras es...

Estrelas da Manhã

Isso tinha de acontecer agora. É certo, ou não, que as coisas têm mudado muito ultimamente. Eu tenho mudado muito. As palavras já não são as mesmas. O que antes era marcado nos relógios, hoje se desfaz no tempo. Esquecido, inebriado, deixado de lado. Por isso peguei as amarras da escrita, desfiz os nós do presente, selei o passado, muitas vezes incompreendido, e dei-lhe um nome: caixa secreta. Não uma qualquer. A de um escritor naufragado. Que depois de muito navegar, percebeu que não tinha mapas nem bussolas; percebeu que não sabia o nome de onde tinha de estar, se é que tinha de estar; percebeu que o mar era seu aliado e que as ondas eram apenas palavras de uma história velada. Tudo foi se fazendo de palavras. E as palavras foram feitas de mar. Eu, bem longe das praias, sem ter o infinito no horizonte, ainda que náufrago nos mares do entendimento, busquei o infinito do céu. Foi exatamente nas noites estendidas fora da cama, buscando-me nos reflexos de um espelho convexo, nos sonhos e...

Outras Estrelas

Parece que tomei o caminho mais longo; o caminho que me leva a uma incerteza diante de várias incertezas. O que sei, de nada vale. O que não sei são portas trancadas de cujas chaves me desfiz. Aliás, eu nunca as tive. Apenas fingi que as tivesse. Um fingidor na multidão é apenas um rosto. Um mistério entre muitos mistérios é apenas uma folha querendo se desprender da árvore porque descobriu que no chão tem mais chances de ser folha. Escrevo isso porque me cansei desse lugar. Dessa árvore de muitos galhos. Preciso de novas estrelas. Do ponto onde estou, não as vejo. O céu é lindo, e, apesar de se estender pelo firmamento, eu não o conheço. O céu é a  preciosidade incompreendida que busco nos meus cadernos mais antigos. Alguns, queimados. Outros, esquecidos. Um eu perdido que se consumiu nos limiares de um campo aberto, gramado enluarado, outeiro noturno de desejos deixados de lado. Este espaço se consumira, reduzindo-se ao grão deixado por pegadas longínquas, necessárias e hermetica...

Jangada Curiosa

Eu não me vi no texto de ontem. Parecia outra pessoa pegando minha mão, controlando meus dedos. Pensamentos desviados à elitização de uma reflexão rasa, quase seca, que não rolou morro abaixo. Não se espatifou. Ficou agarrada no precipício, sem se deleitar com a magia da queda. Poucas vezes, depois de escrever, não me senti livre. Ontem me acorrentei nas palavras. Senti um peso que nunca me pertenceu, porque até então nunca entendi a sacralidade da escrita. Falei de faces ocultas de múltiplas luas sem olhar para o céu e percebê-lo nublado. Eu queria voltar lá e refazer o último parágrafo, como quem refaz um embrulho. Talvez eu fizesse isso se não tivesse dado um nó apertado. Um nó difícil de se desfazer. Pude ver uma verdade oculta: nem sempre escrever é andar em campo aberto. Fui descendo, descendo, descendo uma escada encaracolada, apertada, escura e empoeirada, pensando chegar em um salão de tesouros opulentos e brilhantes. O que reluziu no último degrau não tinha forma, nem cor, ne...

Sendo Infinito

Hoje compus uma poesia no banho, que escorreu. De luz apagada por volta das seis da tarde; os azulejos embaçados pelo vapor, a pedra fria da pia, o som da água caindo do chuveiro, minha cabeça molhada no centro da queda que lavava a alma, as gotas contornando o vidro, traçando caminhos, listras de uma correnteza que nunca existiu, que ninguém se lembra ou viu. Foi no eco abafado que os versos se fizeram de água, que as estrofes não começavam nem terminavam, apenas existiam no compasso das gotas que despencavam de folhas de pequenos bambuzais. Aos poucos, uma borboleta amarronzada quebrava a esmeralda que se estendia na imensidão que eu havia criado naquele mundo de uma pessoa. Tudo acabou quando desliguei o chuveiro. As palavras foram esquecidas, mas o sentimento continuava. O dever estava cumprido. A arte se concretizara nas sutilezas da inexistência. Algo que foi real na ausência do presente. Por isso dizem que a lua só existe quando alguém está olhando para ela. Do contrário, ela ta...