Uma Ave na Janela

Acordei de um sono profundo. Ouvi músicas que há muito não ouvia. E a tarde já estava presente quando percebi que tudo se transformaria em vozes cantadas. Uma vez, lembro-me de ter falado sobre uma ave pousada pela manhã no parapeito da janela. O som me despertou para memórias que eram especiais em outras tardes, mas que nestas deixaram o resplendor para se enterrarem sob o grande e misterioso campo. Campo este que venho decifrando com as palavras.
Posso ter escrito um texto denso há poucos dias que me fez enxergar uma epopeia nas minúcias das horas. A jornada do tempo para desbravar esse ensejo de existir. Pouco depois já havia desfeito os nós; a rede não suportava mais o peso dos calhamaços de histórias vazias. Este era o tão quisto momento desértico em que eu fantasiava as minhas elucubrações. Em nenhum lugar era levado de volta por tê-las comigo. Elucubrações de loucura. O deserto foi me dado e dele nada pude fazer. Era para ter sido diferente, de certo modo, com a aridez dos sentidos. Esperava que a arte ficasse mais forte e vivaz. Acabou por sumir. E tudo que tenho dito e mostrado já não sei se faz sentido.
Seria este outro texto para ser deixado de lado? O depois em segundo plano, carregando as preciosidades, enquanto o agora mingua à beira da morte. Fiasco imaginário de nuvens cansadas de chover. Não aproveitei o silêncio e a solidão. Julgava saber lidar, mas os joguei fora pela janela onde a ave cantava. O tempo acabou e tudo se perdeu.
Este é um fragmento de história sem começo ou fim. É apenas o meio do que nunca aconteceu. O miolo deixado às traças para ser devorado por aquilo que subestimei. O tempo. Passado, o presente se mostra pretérito. E o futuro, apenas uma ideia. Ideia para quem sabe pensar. Não para quem semeia fantasias vespertinas. Vá, tarde! Vá embora e leve as ideias consigo. Leve as palavras e as histórias que não valeram de nada. Leve também este vazio que me cerca. Devolva-me a esperança do amanhecer e a coragem para enfrentar a noite escura.

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