Versos do Céu (OK)
Nossas memórias. Dia de chuva. Luzes ao longe. Passos molhados. Foi o céu que se entendeu como versos livres e caiu sobre as páginas de nossas pegadas. Não que tenha sido fácil para ele, o céu, cair. Daí pôde nos ensinar que para se expressar na tormenta é preciso se despencar das altas nuvens. O que ele encontrou cá embaixo não foi nada além de poças lamacentas, correnteza que se esvai na sarjeta, espaços apertados onde a água encontra meio de se infiltrar e tudo quanto é correria das pessoas que perderam a capacidade de contemplar as belezas da vida.
Digo isso pois também quase a perdi. Ainda assim, depois de tanto tempo, carrego comigo um pouco das tempestades que me orgulhava em ter. Jamais pensei num céu claro onde pudesse me deleitar com o azul estendido sobre o infinito; a cor mais rara da natureza em fonte interminável do matiz que se precipita até nós. Ah, o azul. Azul de todo dia; de mistérios; de qualquer hora; de calor e ventania; de segredos escondidos nos jardins onde as flores foram ao encontro dele. Roubaram um pouco do céu para elas; as mais pequeninas. As que quase ninguém olha. Sentem que não podem se destacar por ter um pouco do céu dentro de si. Sobretudo, são temerosas por se julgarem impostoras. Mas não são assim.
No jardim quase ninguém sabe do roubo. Ao menos nenhuma das flores, pelo que sei. Apenas as abelhas viram as que roubaram o azul, mas essas não contam. Eu também não vou contar. Pois igualmente peguei um pouco para mim. Era muito infinito para ser intocável. Foi tudo muito rápido. Ligeiramente estendi a mão e belisquei o céu. Guardei o pedaço no campo do coração, onde não há flores que se pintam de azul. A parte em questão se transformou em uma pequena lagoa, abrigando peixes diversos. Segue disfarçada como tal. Mas no íntimo sei bem do que se trata. Os peixes contam histórias para quiser ouvir. Dizem que o ladrão pegou um pedaço do céu por se julgar escritor e necessitar fazer uso do azul para se inspirar nas palavras. No fim, a inspiração nada mais é do que um olhar para cima.
E a coragem nada é além de um beliscão no infinito. Algo que ninguém vê, mas que todos condenam por ser semelhante a um furto. Todos condenam por serem tais ladrões de azul. Querem a tranquilidade só para si enquanto o resto segue descontrolado na chuva manifestada pelo céu. Contudo, estes julgadores não sabem que um pedaço a menos no infinito não o faz finito. De tal modo que, sem julgamento, poderiam pegar as tonalidades do firmamento à vontade. Por que preferem condenar? Creio que pensam na inspiração da palavra quando apontam o dedo para as inverdades; não conseguem sentir a poesia da chuva; não conseguem ler os versos do céu; não levam e jamais levarão a vida à guisa de um jardim. O que me conforta é saber que eu consigo ver beleza em um dia de chuva.
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