Círculo de Palavras

 Acabei de ler O Encontro Marcado. Por mais que tenha soltado a faísca da estrela perdida, não consigo me desvincular daquilo que preguei à face: o naufrágio. O livro que li me ensinou grandes coisas. Por muito me vi no personagem. Entendi os pormenores reluzindo no fundo da lagoa. Eu precisava tocar o coração. Pois então: o coração foi tocado.

A caixa continua. Abarrotada. Sem espaço. Mais está aí, para todos verem. Ninguém a vê. Sabe o porquê disso? É que todos têm consigo uma caixa secreta também. Alguns não sabem. Outros a escondem. Poucos deixam-na aberta. O medo da relíquia. A sacralidade banalizada. Papéis em cima de papéis. No fim, um monte de velharia que ninguém se importa. 

Meu Deus! Se eu confessar que ainda levo comigo um aperto no peito pelos caminhos que não escolhi, seria um verdadeiro idiota? Um transeunte saudosista em meio a tantos? Arranquei poesias de mim para que nascessem outras. Talvez tenha desfeito o laço mais importante. Sem saber. Quis ver outras estrelas, para voltar aqui e me deparar com o mesmo céu nublado.

O período de férias está chegando ao fim. Logo retornarei para Belo Horizonte. Lá se vai, mais uma vez, Mar de Espanha. À espera de um milagre. De um sim que bate à porta e entra com todos os cadernos que um dia escrevi. Antes fosse na época dos desenhos que me debruçava sobre antigos rabiscos como forma de entendê-los. Nunca os entendi.

Por conseguinte, entendo o protagonista de Fernando Sabino. Muitas de suas questões são as minhas questões. Muitos de seus fantasmas são os meus fantasmas. Mas ao contrário dele, que apanhou o fruto ainda verde no pé, sinto que o tenha apanhado tarde demais. Daí, sigo caminhando a passos lentos. Mas caminhando.

Tenho um medo indecifrável dentro de mim. Foi-se a viagem a Cabo Frio, foi-se as risadas, foi-se as festas de fim de ano, e agora é hora de dizer adeus. Para quem? Para mim mesmo, quem sabe. Existe um Filipe que no cortejo da saudade preferiu acompanhá-la. Ele se distanciou de mim. Eu não o reconheceria em meio à multidão.

Vamos lá. Este texto está ficando longo demais. Não existe outras estrelas. Isso é bobagem. São as mesmas estrelas. Dentro da mesma noite e do mesmo céu. Eu estou no mesmo espaço, mas não sou o mesmo. Alguma coisa se desprendeu enquanto outra cisma em ficar. 

Vou controlar minha respiração outra vez. Tentar enxergar o que há por trás da realidade mascarada. Não adianta eu chorar mais pelas histórias perdidas. Nunca mais as terei de volta. Partiram sem dizer adeus. Não posso esquecer que quem decidiu isso fui eu. Eu as expulsei. Na verdade, fiz escolhas. E quando escolhi um lado, o outro deixou de existir. As histórias do outro lado se foram com ele. Hoje não existem mais lados.

Estou num círculo de palavras. Vivo girando a mesma roda, inúmeras vezes. Meu Deus! Como pode? Por que sinto falta do que escolhi deixar partir? Será mesmo que assim o tenha feito? Acho que neste jogo de lados, o que se foi acabou por vir. Escondeu-se dentro de mim e hoje habita aqui, nas batidas do meu coração. Talvez, em algum dia, em outra vida, eu possa reencontrá-lo. Farei diferente! Eu prometo.

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