Estrelas da Manhã

Isso tinha de acontecer agora. É certo, ou não, que as coisas têm mudado muito ultimamente. Eu tenho mudado muito. As palavras já não são as mesmas. O que antes era marcado nos relógios, hoje se desfaz no tempo. Esquecido, inebriado, deixado de lado.

Por isso peguei as amarras da escrita, desfiz os nós do presente, selei o passado, muitas vezes incompreendido, e dei-lhe um nome: caixa secreta. Não uma qualquer. A de um escritor naufragado. Que depois de muito navegar, percebeu que não tinha mapas nem bussolas; percebeu que não sabia o nome de onde tinha de estar, se é que tinha de estar; percebeu que o mar era seu aliado e que as ondas eram apenas palavras de uma história velada.

Tudo foi se fazendo de palavras. E as palavras foram feitas de mar. Eu, bem longe das praias, sem ter o infinito no horizonte, ainda que náufrago nos mares do entendimento, busquei o infinito do céu.

Foi exatamente nas noites estendidas fora da cama, buscando-me nos reflexos de um espelho convexo, nos sonhos esquecidos e nos azulejos gelados do chão que pude ver as últimas estrelas. Outras estrelas.

Estrelas que se misturaram com a manhã. E que apesar da presença do sol, resolveram ficar um pouco mais. Ficaram porque sabiam que eu as queria comigo. Queria fazê-las de amuletos sagrados; quem sabe numa poesia rasgada ou numa hora de banho largado ao som da água que cai.

Àquele instante, de mero acaso, acaso premeditado, percebi-me encontrado. O naufrágio terminara. E tudo que fora concebido em meio a ondas violentas, havia se perdido. Apenas a caixa restara. O segredo inconcebível que jamais fora revelado. Até agora.

Foram-se os nomes, os anseios, os orgulhos, os rasos desejos de adjetivos pesados. Foram-se os anos. Anos para chegar aqui e dizer que ando com os bolsos vazios. De mãos leves e limpas.

Ainda sinto o cheiro do mar. O som das ondas. Mas caminhei para longe. Por caminhos nunca antes imaginados. Andei e andei, tomando conta das minhas sandálias desgastadas enquanto parava para descansar. Até certo ponto, o medo me acompanhava. Depois, ele também seguiu outra direção. Daí também deixei as sandálias, e nunca foi tão bom sentir as gramas nos pés.

Hoje estou aqui. Carrego comigo outra voz, conquanto as palavras sejam as mesmas. Alguma ou outra, aprendida e destacada. Sem razões ocultas de estarem ao entorno. Entendo-me escritor de memórias que não chegaram a pertencer ao passado. Memórias atuais, curiosas e um tanto quanto abstratas.

Se fosse para falar do passado, falaria diferente. Mas, apesar dos desígnios do tempo, carrego comigo ares de saudade de coisas que já não existem. Uma nostalgia latente; erva cuja flor não se revelou. Porque só tenho memórias. E são delas a parte que compete aos mistérios.

Haverá tempo para eu falar, assim espero. Para isso, preciso saber falar. Tudo está uma bagunça. As coisas fora do lugar ainda me tiram do sério. Por sorte, a bagunça permanece lacrada na secreta e copiosa caixa de tempos naufragados. Do lado de fora, a noite está bela.

Nada mais carrego comigo. O gosto pelas estrelas tomou conta de mim. Isso sim é mistério. O passado no presente. A vida que aconteceu vista de um outro ângulo. Este texto é sobre vida, mas não das estrelas. Vida de um grão em meio a outros grãos.

Sei que existem coisas grandes demais para serem entendidas. Apesar da ideia de infinito o limitar à mesquinharia, entendo que quando descubro um novo ponto de luz é como se eu ganhasse uma nova razão para viver.

O texto parece tomar conta de mim. Como se eu vivesse para ele. Como se todas as ideias tomassem a mesma direção e caminhassem rumo ao mar. Agora que não sou náufrago, posso contemplar o infinito se delineando na linha do horizonte.

O que eu queria já fiz. Comecei. Neste instante, não possuo mais respostas. Apenas sentidos. E se me foram dadas as estrelas da manhã, que seu consiga contemplar muitas manhãs para escrevê-las. Manhãs escritas são manhãs lembradas. Estrelas vistas são virtudes do céu que poucos conseguiram desvendar.

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