Verdade do Amanhecer

Quase não era para eu estar aqui, escrevendo. Já passou da meia-noite. O dia não foi conduzido pelas palavras. Aliás, as palavras que não foram conduzidas pelo dia. Passou despercebido, sorrateiro, cheio de letras vazias nas nuvens cinzentas que caíam lentamente pela tarde, uma a uma, gota por gota, ditando as regras da mente cansada que me consumia e do quarto abafado em que me encontrava.

Depois, respirei. Encontrei umas pegadas por aí. Segui-as até chegar na noite. E por isso demorei. Quase não vim. Mas houve um estalo, pouco antes de agora, que me fez aparecer. Estava lendo. Meio desmotivado, apesar da boa leitura. Lia algo sobre Deus. Um aperto me surgiu bem abaixo do pescoço, lar do coração, peito acelerado pelas escolhas que fiz. Se fiz umas, desfiz outras. Ao longo do processo, fui desconstruindo tanto a minha fé que pouca coisa restou para se refletir no espelho. Afinal, do pó da desconstrução fiz-me os outeiros para escalar e chegar mais perto do céu. Talvez tenha escolhido o caminho mais difícil. Mais longo e tortuoso. Às vezes acho que Deus tenha se escondido, até reencontrá-lo por aí, nestas página cheias de histórias. 

Pode ser que eu não saiba mais falar de Deus, apesar de tanto querer. Vontade de chorar secamente. Nenhuma lágrima preciosa para encharcar o campo da fé. Apenas memórias. Jamais me esquecerei daquele dia. Dia feito só para mim: prostrado de joelhos diante de Deus, tinha todas as lágrimas para os oceanos se formarem e eu poder navegar livremente. Hoje, vivo nos montes da fé. Ora pequenos, ora medianos; quase nunca grandiosos. Mas estão lá, muitas vezes escondidos. Como agora que precisei desvendar o mistério das palavras.

Tudo bem! Sei que Deus está por aqui. Tudo está em paz. A noite silenciosa vagueia na rua de poucos acontecimentos. Cenário a espera de um novo dia. Os personagens se deitam, sonham e não se lembram. Isso porque se lembrassem não seria fé, mas apenas memória. Memória mesmo eu já tenho. Fé é o que eu tento ter. Busca incessante como o sono de todo dia. Quanto mais se tem, mais se mostra necessário. Depois é só acordar, abrir os olhos e enxergar a verdade do amanhecer.

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