Lugar de Memórias

As coisas estão no lugar. Assim como eu também estou, sentado nesta cadeira, ouvindo música e escrevendo o futuro no presente; ventilador ligado, janela aberta, plantas nos vasos, casa varrida, roupa lavada, palavras escritas e sonhos sonhados. Janeiro atravessado, de ponta a ponta, aberto pelas entranhas de um ano que mal começou. Lembro-me do passado mas já não faço dele um lugar para habitar. É apenas a fumaça do incenso que queima ao meu lado. Perfume de rosas brancas. Mais uma vez: tudo está em devido e dileto lugar. A tarde perpassa pelo ambiente dizendo que o dia já está indo. Ele vai para onde eu já fui. Quando voltei, não sabia lidar com o presente. O passado estava pregado à alma do saudosista viajante do tempo. Sem sair do lugar, ele ia e vinha pelos anos acumulados. Nunca viveu a verdadeira aventura que é o agora.
Percebo que memórias estáticas são ilusões. Apenas as que mudam são verdadeiras, porque assim vivem sua natureza na mais plena das formas. Muitas memórias que semeei foram mudando com o passar do tempo. Amadureceram comigo e ganharam outras interpretações. As que quiseram manter a antiga roupagem, foram descartadas. Eu fiz isso queimando-as. Doeu em mim a ardência do fogo quando as vi sobre as chamas. A pobreza é a mais sublime de todas as virtudes. Ela consegue nos fazer leves em meio ao peso do mundo. Quando queimei as memórias estáticas foi porque elas carregavam consigo um peso que não me pertencia. Uma opulência que me cegava e tirava o chão de terra por onde queria caminhar. Foram-se as ilustrações da riqueza que um dia almejei. Hoje, sigo o caminho descalço. Cada vez mais leve e sem as fotografias da mente que me retratavam como um rei de reinos falidos.
Não nasci para ser rei. Caminho por todos os jardins do mundo sem os possuir. Não preciso de posses para apreciar as belezas da vida. Sou o que sou, sujando os pés na terra batida por caminhar  incansavelmente. Os últimos dias foram de mudanças internas e profundas. Mudei para melhor e vi na pobreza uma amiga fiel. Recordei-me do ano em que morei no convento franciscano e me alegrei. De certo, as memórias amadureceram. Eram verdadeiras e vão durar. 
O incenso vai chegando ao seu fim. Bem como a tarde. Daqui a pouco, sairei para andar por aí. Contemplarei os jardins das casas onde nunca entrarei. Jamais conhecerei as mãos que os plantaram. Mas sou grato por assim terem feito. Isso faz minha vida mais feliz e colorida. E agora cheguei num ponto onde não consigo terminar o texto. Talvez eu tenha mais memórias para queimar. Talvez seja hora de trocar a roupagem de outras tantas. Talvez eu apenas deva apagar as luzes. Ou, quem sabe, tirar algo do lugar. Daí terei um motivo para sair e viver.

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