Sendo Infinito

Hoje compus uma poesia no banho, que escorreu. De luz apagada por volta das seis da tarde; os azulejos embaçados pelo vapor, a pedra fria da pia, o som da água caindo do chuveiro, minha cabeça molhada no centro da queda que lavava a alma, as gotas contornando o vidro, traçando caminhos, listras de uma correnteza que nunca existiu, que ninguém se lembra ou viu. Foi no eco abafado que os versos se fizeram de água, que as estrofes não começavam nem terminavam, apenas existiam no compasso das gotas que despencavam de folhas de pequenos bambuzais. Aos poucos, uma borboleta amarronzada quebrava a esmeralda que se estendia na imensidão que eu havia criado naquele mundo de uma pessoa. Tudo acabou quando desliguei o chuveiro. As palavras foram esquecidas, mas o sentimento continuava. O dever estava cumprido. A arte se concretizara nas sutilezas da inexistência. Algo que foi real na ausência do presente. Por isso dizem que a lua só existe quando alguém está olhando para ela. Do contrário, ela também é fantasia. É a poesia que ninguém ouviu.

Dezembro acabou. O ano já começou. Foram-se cinco dias. Só agora vim criar uma toalha de mesa, bordando as palavras, para enfeitar o princípio que já se esvaiu. A sala de jantar onde os banquetes foram servidos precisa de uma nova roupagem. Sobretudo na mesa onde a ceia foi posta. Conquanto as festas tenham terminado, costumo enfeitar o ambiente para mim mesmo. Escrever histórias para um único leitor. Alguém que merece uma leitura exclusiva, sucinta e nada superficial. Que esteja acostumado a ler as nuvens e suas formas, a contemplar o hermetismo da mensagem oculta nas entrelinhas, a viver fora do quarto ainda que a porta esteja trancada do lado de dentro, a fazer das emoções um oceano simplesmente por gostar de escutar as ondas na pedra. Este ano! O ano do estalo da compreensão. Lugar onde as coisas começarão a fazer sentido.

A ausência de sentido nas orações é o caminho que percorro para me encontrar. No deserto não tem árvores. Árvores cujos galhos crescem sem sentido, mas que o encontram quando encaram o firmamento de frente. O céu, por sua vez, é infinito. Em outras palavras, se eu não conseguir encarar o infinito, que eu aprenda a me tornar infinito. Nem que seja bordando uma toalha ou compondo uma poesia no banheiro.

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