Restos e Resultados

Destrinchando sentimentos. Hoje é o último dia das férias que eu e Otávio tiramos na casa de meus pais. Não estou à guisa do escritor que carrego do lado de dentro. Fechei as janelas, chacoalhei o ambiente; o que era varanda não é mais, os cômodos viraram do avesso, e a prisão, que construí moldada nos pesadelos, transformou-se em um cativante cantinho de leitura, berço da paz e da acolhida. Foram-se as ruas entortadas, os transeuntes apressados, os carros das cinco horas, as conversas de portão, o comércio delirante e a vida da grande cidade pequena.

Nada como o tempo, piscando os olhos para quem perceber suas artimanhas. Ah, férias ligeiras. Como pôde passar, assim, tão rapidamente? E a chuva, molhando a grama, levantando a hera, marcando de pegadas e patas o piso da cozinha, encheu-me a alma e está prestes a transbordar. Que texto é este? Nada falei da agitação que está no meu peito. Dos pensamentos escorregadios e das reflexões rarefeitas. Tenho medo do amanhã. Ainda? Não fui eu que amadureci antes do tempo? Mentira contada por muitos; acreditada por tão poucos. Deixei para viver depois, bem depois, o que podia ter vivido antes. E, se hoje as palavras fazem sentido, leio desesperadamente os livros que não li quando deveria.

Minha mãe, meu pai, o cachorro Bill; estão todos bem. Otávio também está. E eu? Filipe, agitado, descontrolado, tentando achar nuances de simpatia para disfarçar a beira do precipício da saudade. Belo Horizonte me aguarda, mais uma vez. Os dias passados foram de muitas risadas e casos, brincadeiras e acontecimentos. Deus nunca me desamparou. É hora do pêndulo voltar. Outro princípio: o do ritmo. O relógio cumprindo o seu papel. Todas as vezes que me desesperei não valeram a pena. Dores de cabeça à toa para chegar à calmaria cansado de tanto bater nas paredes dos pensamentos murados.

Estou me confundindo nas palavras. Ontem senti saudade de coisas passadas. Hoje, sou apenas um restolho de acontecimentos almejando o futuro para deixar de ser resto. Acho que já posso ser resultado somado, multiplicado, potencializado. Deixemos as divisões para lá, nas margens do rio barrento de temporais. Olha! Que escrita simpática... Mesquinha! Inútil, nem tanto. Achei a ponta da linha. Vivo de esperança. Espero acontecer a festa no outro apartamento. Não, não. Festa, de jeito nenhum. Espero a hora chegar, sabendo que ela já chegou.

Por isso vivo enlouquecido. E encontro um pilar nas palavras para me sustentar. Ano que vem não sei como será. Pode ser que a água aspergida não caia sobre minha cabeça. E eu não sei se terei a audácia de subir no altar para pegá-la de novo. Talvez eu suba. É! Eu acho que sim. Dona Judite, quase esquecida na mente, retornou como uma preciosa lembrança dizendo-me coisas agradáveis. E aquela outra mulher, desconhecida, pegando-me pelo braço para me falar sobre coisas grandiosas que aconteceriam na minha vida. Estão acontecendo, de fato. Posso afirmar que vivo o período mais feliz, até então. O período de sonhar. O percurso a percorrer. A paisagem tem se revelado aos poucos. Estou do lado certo da história.

Tenho tanto a dizer que não sei como fazer isso. Amanhã é um novo dia. Minha agitação vem justamente do desejo de viver o novo, ainda estando no mesmo lugar. Lugar? O espaço muda com o tempo. Aprendi alguma coisa de metafísica para entender que há conceitos além das aparências. O lugar não é o mesmo, caríssimos. Eu também não. O tempo já passou. E o que eu tenho levado são lembranças. Lembranças de tudo e todos.

Obrigado, meu Deus! Obrigado por eu ser saudosista ao ponto de revisitar o passado e conseguir extrair preciosidades despercebidas que agora reluzem sob a luz do sol. Tudo faz sentido com o tempo. O que antes era uma porta fechada, hoje é campo aberto, sem portas ou paredes. O céu, as pradarias, o vento, os dias e as noites, são tudo o que há numa folha escrita. Construções de tijolos não fazem sentido neste campo descoberto. O valor das coisas tem-se revelado. Ainda descubro o resto... Aliás, resultado. Nada de restos por aqui.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Se perdeu!

Prática Diária da Escrita: Dificuldade e Superação

Alguma Coisa Incomum