Jangada Curiosa
Eu não me vi no texto de ontem. Parecia outra pessoa pegando minha mão, controlando meus dedos. Pensamentos desviados à elitização de uma reflexão rasa, quase seca, que não rolou morro abaixo. Não se espatifou. Ficou agarrada no precipício, sem se deleitar com a magia da queda.
Poucas vezes, depois de escrever, não me senti livre. Ontem me acorrentei nas palavras. Senti um peso que nunca me pertenceu, porque até então nunca entendi a sacralidade da escrita. Falei de faces ocultas de múltiplas luas sem olhar para o céu e percebê-lo nublado.
Eu queria voltar lá e refazer o último parágrafo, como quem refaz um embrulho. Talvez eu fizesse isso se não tivesse dado um nó apertado. Um nó difícil de se desfazer.
Pude ver uma verdade oculta: nem sempre escrever é andar em campo aberto.
Fui descendo, descendo, descendo uma escada encaracolada, apertada, escura e empoeirada, pensando chegar em um salão de tesouros opulentos e brilhantes. O que reluziu no último degrau não tinha forma, nem cor, nem sentimento de aventureiro, que adentra câmaras secretas de artes profundas. Eu nadei na superfície. Na poça da rua depois da chuva.
Quero voltar. Levar luz ao que foi concebido na escuridão. No dever de escrever algo para iniciar um ano que já tinha iniciado. Nem sempre a escrita se dá pelas formas tradicionais. Tradição mesmo é o que não há, quando olho para trás e vejo um desejo sombrio de ordem em meio à desordem. O caos de querer tudo em seu lugar. Sem haver lugar. Às vezes, muitas vezes, todas as vezes, por vezes, jogado, largado, deixado de lado, é o jeito que tem de ser.
Largo pra lá a história. A vontade de encaixar as peças. O desejo de dar forma ao abstrato. De colocar na esteira o produto perfeito. Esperando-o chegar no tempo previsto. Cansei-me de compassos ritmados, dos ponteiros do relógio, do som que faz as gotas na pia com a torneira quase fechada. Eu sou a desordem da ordem, a coisa fora do lugar, o texto impreciso, a cor destoante, a nota rasgada do bloco que ganhou destaque nas paredes manchadas. A confusão de uma ventania. Por que me preocupar com textos escritos?
Sei que voltarei lá, para me curar. Para me reconhecer no eu perdido. Esquecido. Inebriado pela sensação de vazio e a vontade de escrever. O ano começou, quanto a mim, esqueci-me de terminar. De fechar as cortinas de casa. De comprar as cortinas. De ter uma casa. Esqueci-me de escrever a verdade, enquanto navegante de uma jangada curiosa. Se flutuo, não é por ser leve, mas por ser vazio, inflado, cheio de nada com nada. Existem mentiras na água que só as praias conseguem entender. Eu não sou praia, não sou areia, nem sal. Sou a palavra que tentou e tentou, e continuará tentando.
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