No Mesmo Caminho

Eu sabia que ia sentir algo distinto assim que voltasse para Belo Horizonte. Aquela angústia, cuja carta já lhe escrevi com verdade, esverdeando o caderno já tão verde. Ah, Filipe, Filipe! O que você fez nesses últimos anos? Vagou por aí, batendo a cabeça, tentando ser o que nunca foi. E por que justamente agora esta onda de desejos velados vem sacudir os cais de suas praias? Você falou muito de saudade, palavra tão difundida e pouco compreendida, como uma floresta não explorada. O que te aperta o peito não é saudade.

Deixemos isso para depois. Algum tempo se passou. Coisas aconteceram. Ouvi a voz de minha mãe. E agora, bem, agora vou sair por aí, curtir a tarde que se esvai. Caminhar pelas ruas da capital, do bairro onde moro, redescobrindo na forma das plantas uma nova interpretação para a vida. As plantas dos jardins dos outros têm muito a dizer. Não é à toa que estão na frente das casas. Toda casa carrega consigo muitos sonhos. Com a minha não é diferente. De todas as casas que tive, a que me trouxe mais sonhos foi esta em que vivo hoje. Refiz o jardim em vasos de argila, tomando conta para que todas as plantas crescessem saudáveis e felizes. Se os sonhos vieram daí eu não sei. Sei apenas que depois continuarei daqui, onde parei. Tenho muito a falar sobre o meu coração. Coisas das quais quero me desfazer.

Já é noite. Não sei mais falar do que não sinto. Sentia saudade, e agora: muito barulho. Já não escrevo por mim. Por ter deixado para depois, passou. O texto ficará incompleto. E é nesta inclompletude de palavras que eu me completo. Sempre foi assim. A televisão fala de coisas que não posso entender. A louça escorre na pia, gota por gota, secando-se lentamente neste espaço pequeno que divido com diplomacia. No fim, no fundo do baú, as relações internacionais valeram para algo. O espaço pequeno é justamente ilusão de mentes pequenas. Tudo é pequeno em relação a grandes pensamentos. Eu sabia, desde sempre, que uma pena pensante significava mais do que o ato de escrever pensando. Em outras palavras, eu queria mostrar que tudo era uma questão de percepção.

Muito bem. Em relação ao que penso, todos os espaços são claustrofóbicos. A experiência de escrever em meio ao ruído faz sair outras ideias do campo desertificado. O dia foi puxado, como muitos outros dias. Mas pude caminhar. Pude ler um livro. Pude escrever este texto. Também varri a casa, almocei e jantei. Tomei alguns banhos para disfarçar o calor do verão. Pensei na vida e no futuro. Pois é; está aí a palavra que enlaça as questões que trago: futuro. Ele, que sempre se mostra como a fera ceifadora de sonhos, está mais compreensível. Para todos, é incerto. É abstrato. Apenas se molda em diferentes recipientes. Lembre-se dos vasos de argila. Das plantas que assumem a personalidade de quem delas cuida. E se o futuro for assim?

Não sabia que ia me estender tanto. A chave sobre a mesa faz alusão as portas que tranquei. Mas elas pararam de me incomodar logo pela tarde. Um dia pode trazer muitas coisas. Se puxa daqui, solta dali. E a gente vai seguindo este pêndulo, que muito tenho falado sobre, para seguir o ritmo do amadurecimento. Um dia, todos nós nos encontraremos no mesmo caminho.

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