Depois do Meio-dia

Então, uma nova janela se abre. Se passei por momentos difíceis, foram-se com o rio. Estou na margem, molhando os pés, jogando água pelas costas, para lavar-me a alma tão cansada de pedir. Pedir já não condiz com o que acredito. Usar a palavra para impor condição é fazer uma arte limitada. Por isso, caríssimos, venho aqui para abraçar e agradecer.

Isso me faz lembrar das sete ondas puladas no réveillon como forma de iniciar o ano. Depois da sétima veio a oitava, a nona, a decima... Deve ter sido umas vinte e tantas. Mas para tanto, o ano até que está agradável. Já passei, de fato, por questionamentos profundos que me levaram à câmara secreta do arrependimento. Depois, tudo se desfez. Qual é o antônimo de se arrepender? Pois foi isso que aconteceu logo após eu ter saído do campo dos segredos. Acredito que a palavra que busco é reincidir. Tomei as rédeas do carro de boi; dessa carroça capenga que atravessa as ruas esburacadas chegando de um lado a outro, buscando diferenças nas fachadas tão iguais.

Estou numa margem legal. Está fresco do lado de cá. Tenho coisas ao meu alcance. Apesar de não fazer uso de tais coisas. Poderia ter usado um adjetivo no diminutivo como forma de sarcasmo e ironia, mas, cá para nós, não sou tão audacioso assim. Vivo pregando uma simplicidade luzente que some todas as vezes que arranco uma fruta do pé. Ao saciar-me, percebo que saciei o ego. Depois de lutar contra ele, no deserto da imaginação, tive a impressão de vitória. Vitória contra a tormenta. Tudo mentira, contada e recontada. O ego continua. E eu sigo redescobrindo formas de assassiná-lo. Sem me dar conta que todas as descobertas que faço são vozes de vitória do outro lado, na margem. Finalmente, sempre soube que estava perdendo, ainda que com a sensação de estar ganhando.

Muita confusão, meu Deus! Já não me conheço mais. Esses textos todos serão perdidos um dia. Ficarão para ninguém. Porque ninguém os entenderá. E se acaso alguém os entender, peço perdão. E só lamento por estar na mesma margem que eu. É chata, às vezes, conquanto pareça legalzinha. Está vendo! O diminutivo que havia falado. Desde o início, sabia que iria avançar as barreiras que impus. 

Escrever não é nada além disso: avançar para cima das imposições. Derrubá-las! E reencontrá-las logo à frente. Por isso é viciante. É estimulante. Vibrante. Escrever é viver. E é por isso que vivo. Depois do meio-dia, tudo faz sentido. Assim, encontro-me feliz.

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