Próximo Parágrafo
Começo a pensar que falta poesia em minha vida. As coisas estão tão chatas, tão iguais. A forma poética se perdeu nesse torvelinho de mesmices onde surgem as histórias. Todas mal contadas. Profundas como poças d´água depois de uma chuva normal. Parece mesmo é que eu usei todas as palavras e não tenho mais o que dizer. E como a poesia se perdeu, perdeu-se também a beleza. De quem eu estou falando? Ora, rapaz! Você que já se julgou como o grande entre os grandes sabe perfeitamente que nada é senão poeira. Poeira não faz arte. Você é capaz? Todos são! Chega de dar voz aquilo que nasceu para o silêncio. A mente pode ter muitas vozes; todas são acúmulo de caprichos decorrente da falta de sensatez. Existe uma única voz sinceramente capaz de mudar os caminhos e dizer a verdade impressa em palavras. Tal voz não está nos domínios da mente ligeiramente pensante e transbordante. Trata-se da voz do coração pungente. Ah, coração acelerado por dizer coisas indizíveis.
Tudo é tão cheio de contradições. Eu mesmo sou. Dizendo e contradizendo, como bordando uma grande toalha e deixando o avesso de lado. Ninguém se importa com os avessos até virar a toalha. Até sujá-la e ter de tirá-la de cima da mesa. O texto está lento para que eu possa refletir sobre essas coisas. Quase parando. Agora parou! E retomou a caminhada por um viés desconhecido. Não quero falar do que fiz hoje ou do quão belo o dia está. Aliás, não quero falar de nada. Sinto-me flutuando nesses pormenores e não consigo absorver muita coisa. Só sei que hoje, mais cedo, caminhando pelas ruas enquanto voltava da igreja de São Sebastião, pensei em coisas interessantes. Tais como: "Eu ainda fantasio a realidade!"; "Eu ainda dou razão ao ego!"; "Eu ainda não tenho domínio sobre os pensamentos!"; "Eu ainda alimento fantasmas!"; "Eu ainda perco a paciência!"; "Eu ainda choro escondido!"; "Eu ainda me preocupo com o que não preciso me preocupar!"; "Eu ainda não sei aonde quero chegar!".
Ainda é cedo. Estamos pela manhã. Se me conheço um pouco, posso enlaçar o texto com um sentimento de alívio. Se nada me conheço, desfaço os laços com um sentimento de culpa. Já me senti culpado por coisas que não me competiam. Por sorte, ou por conquista, hoje o texto não tem peso de culpa. Não traz consigo o tom do arrependimento. Está aí a outra ponta do laço! Falando sobre contradições, contradigo que a sensação de alívio não venha pelo enlace do texto. Texto por texto; palavra por palavra; embrulho por embrulho. O alívio é apenas um ponto final. Já a culpa, o próximo parágrafo. Paremos por aqui; ponto final.
Comentários
Postar um comentário