As Gavetas me Perseguem
Estou me sentindo um pouco perdido. Como se a vida se mostrasse cruel para as escolhas que fiz. Em um labirinto de decisões incertas, como grãos de areia caindo lentamente dentro de uma ampulheta ofuscada.
Fiz certo? Não sei... Por vezes sinto que traí a escrita. Que nada mais escrevo senão frases soltas de um contexto ilusório. Tudo o que faço, sem reconhecimento. Embora eu já tenha dito por inúmeras vezes que eu não preciso dele, existem tempos que as gavetas cheias de papéis preenchidos não são mais suficientes.
Eu, mero mortal, como já disse em outras cartas, sou um ser carente. Necessito de atenção. E as gavetas não falam comigo. Não me dão retorno. Não enchem meu prato. Não me dão segurança. Não facilitam as coisas. As gavetas são quadradas, rasas, escondem os segredos que precisam ser revelados.
Nunca quis ser um escritor de gaveta. Acho que também ninguém quer. Mas é tudo o que eu tenho. Por mais que eu me esforce, não consigo sair dela. A gaveta me persegue pelas vielas na imaginação.
Talvez eu não seja tão bom assim. Ou talvez eu seja, só não consigo entregar. Sobre isso, já tentei de tudo. Só não tentei entregar as folhas em bandejas de prata. A futilidade não me pertence, embora faço uso de palavras fúteis. Na assembleia dos sentimentos eu quero ser a esperança.
A esperança de um dia poder dormir sobre aquilo que a escrita me deu. Eu sou apenas um transeunte desorientado que busca reconhecimento ilusório. Todos nós precisamos de uma dose de ilusão.
Sei que poderia fazer melhor. E por que não faço? Porque sinto que me perdi naquilo que sempre quis. Sinto que apunhalei a escrita pelas costas. Sinto que faço uso dela para me firmar em um pensamento coletivo sobre a verdade. Sinto que me distanciei do que eu realmente sou.
E por isso... Por isso as gavetas insistem em me perseguir.
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