Privações

Depois de ter passado mais de um mês na casa de Otávio, amanhã volto para minha com o coração apertado. Estou farto de afirmar para mim mesmo que depois que o coração passa amar incansavelmente, não existe mais um minuto de paz na vida dos amantes. Digo isso porque estar longe é sofrer.

E eu sofro com a distancia. Sofro com preocupações imaginárias; abutres que pairam sobre as linhas do pensamento. O desejo de estar sempre perto é como uma avalanche de angustia que varre todas as outras coisas, e só quem ama alguém a quilômetros de distância entende o que é isso.

O desejo é um monstro faminto. Coração partido nas entranhas do ser vivente.

Eu queria fazer tantas coisas que não posso que já sinto a privação como um manto de desordem perdido em tardes invernais. E os sonhos, então... Estes que não podem ser sonhados. São lâminas escondidas em um chão de violetas.

Agora estou sozinho, enquanto Otávio está na academia. A luz baixa e cansativa do quarto, o zumbido do computador ligado, a garrafa d´água pela metade, as crianças gritando na rua, a noite avassaladora, a cama bagunçada, o ventilador desligado e a vontade de ficar mais um pouco, tudo isso compõe o cenário de solidão do qual extraio meus bordados literários. 

Por que a vida tem que ser assim? Domingo é dia das mães e eu estarei com ela. Numa rua barulhenta, numa casa barulhenta, num quarto sozinho ouvindo os ruídos estridentes de um passado já findado pelas horas a fio. E meu coração batendo fugaz pela saudade que invade meu corpo. Ah, se não fossem as privações, talvez a vida ganhasse mais cor.

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