Ócio das Reminiscências

Eu sei que as coisas estão meio estranhas ultimamente. Os textos não se encaixam. Os quadros não fazem sentido. O silêncio se dissipa numa parada de tentativas frustradas.

Cá estou eu, sozinho com os livros há muito lidos. Páginas que não se abrem mais. Fantasmas de uma vida gloriosa que passou na calda de uma estrela cadente. 

Até a água permanece na garrafa. Não é bebida. E o outono está aí, trazendo tons de bronze às poesias inexistentes de um escritor fracassado.

Vejam bem, leitores imaginários, o reflexo do espelho expõe a luz da luminária virada à parede. Nada passa despercebido pelos olhos de quem está  acostumado a escrever trivialidade. Mas sigamos aos fatos: hoje o dia aconteceu fugindo de seu ciclo concêntrico. 

Viajei no segundo andar de um ônibus, no primeiro assento. Tive uma visão panorâmica da estrada que liga Belo Horizonte a Juiz de Fora em um dia daqueles que se perpetuam em histórias fantasiosas. Os poucos minutos de sono da noite anterior não foram compensados, pois estava fascinado pela estrada indo de encontro a minha realidade nada previsível.

A sensação de ver os carros de cima é como se inundar de presença e vestir as cores da aventura, pois lá seguem eles sob os olhares dos fortunados viajantes contemplativos. O ônibus, parado. A estrada é que se movimentava em curvas aceleradas. E o destino veio ao meu encontro. 

Tudo bem, acho que já deu. Não sou mais quem eu pensava. As palavras são teias de uma aranha preguiçosa. Talvez ela já tenha apanhado moscas demais e prefere seguir no ócio de suas reminiscências. Ou talvez ela tenha desaprendido tecer tão belos mosaicos proporcionais ao seu verdadeiro dom.

Quero dizer uma última coisa: sigo perdido no labirinto das ideias infundadas, e acredito que o relógio para quem está nele faz graça com os ponteiros. Ora se desprende de correr, ora se estende na mansidão de um infinito traumático.

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