Peregrino das Páginas Abstratas

Hoje uma sombra pairou sobre minha cabeça, inebriando minha consciência às oportunidades da vida. Esqueci quem eu era em meio ao caos de pensamentos indo e vindo; quase deixei-me sucumbir a opiniões infundadas de pessoas que nada constroem senão seus próprios egos.

A vida é cruel às vezes, plantando sementes de árvores frutíferas em solos ressequidos.  É uma saturação sentimental: sentir é pecado aos olhos superficiais. Para eles, fantoches da apatia, valoroso é o desespero da subserviência. A prontidão por fazer-se operário das falácias sociais. São pessoas com campo de visão limitado, de fato. Não as culpo. A vida é quem fez elas assim.

Daí a nuvem começou a condensar-se em memórias já sepultadas, trazendo-as à tona dentro de realidades ilusórias. Lembro-me de quando estava vivendo uma ilusão e meu único desejo era ter coragem para viver a trivialidade da vida. O veneno da rotina maçante. Pois bem, é exatamente por isso que passo agora.

E por muito apresento fraqueza. Os olhares me machucam. As vozes me cortam os ouvidos. E eu nada me acho senão alguém à beira de um precipício de pesadelos juvenis. Se pelo menos eu tivesse semeado em solo fértil, talvez, quem sabe, minha árvore estaria frutificando. Todavia encontra-se seca sobre uma pedra incólume.

À noite a sombra flutuante se dissipou um pouco. Pude ver um futuro brilhante e acolhedor no fim de um túnel há muito cercado pela escuridão. Mas agora que escrevo, uma ansiedade latente me apavora: será possível? Eu aqui, preso no quarto de paredes manchadas pelo assassinato de dezenas de pernilongos, sem saber a que horas o sol nascerá. 

Sei que é um exercício. E o vivo em contextos irônicos. Tento transformá-lo em arte como estou fazendo agora. Mas venho me cansando com frequência. Meu pescoço dói, bem como minhas costas. E eu nada tenho feito senão sonhar com dias de contentamento. A esperança de fato não morreu. Não tive coragem de matá-la.

Creio que o motivo encontra-se no cerne do sentimento: meu coração é repleto de amor. Por isso ainda não me perdi no desespero. Nem desci à sepultura artística do ócio. Ainda respiro os ares da motivação. Tento prendê-la dentro de mim para que crie raízes. Como vê, estou produzindo. E as palavras, ainda que eu as traia vez ou outra, nunca viram as costas para mim, fanfarrão da escrita. 

É tarde. A madrugada já está entre nós: eu, escritor, e você, pobre leitor perdido em páginas esquecidas. Não desejei que fosse assim. Você poderia estar lendo agora um lindo conto sobre as flores, mas seus caminhos pararam aqui para que saiba: estou passando por um momento de solidão estando cercado de pessoas. Não tenho dinheiro, não tenho leitores, não tenho sequer oportunidade para escrever. E não faço ideia de como a conseguirei. Mas se um dia a conseguir, lembre-se: esta madrugada selou nosso encontro entre o passado e o presente.

Eu sou apenas uma lembrança, navegante de páginas pretéritas. Sigamos navegando em busca do saber para que nunca traiamos o verdadeiro propósito de existir. Talvez agora eu venha a desligar o computador e chorar um pouco. Contudo, a esperança segue aqui, caminhando comigo. Se algum dia nos encontrarmos, tenha em mente que escrevi este texto pensando no futuro, peregrino das páginas abstratas.

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