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Mostrando postagens de abril, 2022

A Parede e a Fome

O relógio se desprendeu da parede. Ao fundo, o vazio hipnotizante da branquidão Empobrecida de mofo e infiltração Da parede despida, mirando a família Com olhar de história escondida. Escondida ou apagada. A parede queria dizer um segredo pelos quadros Que a privaram de ter: quadros de alegria. Ao centro, uma mesa sem pão. Olhos para o chão, buscando nos cacos do relógio Uma esperança de vida. Poeira de memórias e rezas de loucura Dando tempo à parede que morreu, mas respira. A casa não está vazia, só a parede. A parede, a mesa, o fogão, os pratos. O chão incerto trepida e oscila a parede que nada tem a oferecer. O que tinha já deu: tempo. Mas o tempo acabou. O pão não chegou e a fome continua. A família não percebe que a parede chora Pela falta que sente de ter a resposta do "quando?" Não saberão a que horas vão comer. Ela, a parede, escorre lágrimas enlodadas pelos cantos. O relógio quebrado nada fala. A infiltração aumenta. A fome também. A voz feminina da mesa diz: “vamos...

As Mesmas Coisas

E agora: eu perdi a linha e a mesmice foi-se embora. Tanto reclamei dela que ela se foi e me deixou de mãos vazias. É... Não tenho nada para dizer: antes fosse a mesmice. As palavras se revoltaram comigo: uma a uma, Fizeram fila e brincaram de ser formigas. Entraram no formigueiro e de lá partiram para o seu mundo secreto. Não fui convidado. Elas se reverberam por conta própria, Entoam suas sílabas umas às outras, Vivem livres, felizes, Sem pretensão de voltarem ao mundo que criei para habitá-lo. Pois é, antes fosse a mesmice. Palavras para um lado; mesmice para o outro. E eu parado aqui, esperando o sol nascer. Todos os dias, o mesmo sol. Nunca me cansei de vê-lo nascer. Tem outra coisa: nunca me cansei de comer arroz com feijão. Nunca me cansei de contemplar a mesma roseira de anos, Que neste ano deu mais de cem rosas amarelas. O mesmo tom. Eu não esperei que ela desse rosas vermelhas. Também nunca me cansei de fazer café pela manhã, De vê-lo...

Fragmento da Madureza

Cheguei em um ponto. Não reconheço mais as palavras, E o que antes era belo se tornou precário; Inocente; iniciante; ilustrado; incabível. O que posso fazer agora? Continuar arrancando frutas verdes dos pomares, Na esperança de sentir o doce da madureza. Não! Vou me sentar debaixo da árvore, Preciso contemplar o movimento das folhas Que eu já me esqueci. Elas têm mais a dizer que os frutos, Pelo menos para mim, que brinco de escritor.

Semeador de Constelações

Tenho uma estrela na mente; Ela vem cintilado mais E ganhando novas formas. Formas bonitas demais Para os meus pensamentos tão pobres. Ela surgiu do nada Ou foi descoberta ao acaso, Entre páginas de tantos livros. Eu passei a gostar dela de um jeito especial Que pouco sei explicar, Como se tivesse descoberto um furo No manto enegrecido da razão Que vem balançando com a ventania. Daí o furo sobe e desce, Dançando conforme bem entende. Não! Estrela; furo não. Trata-se de uma estrela. Vamos dizer assim. É melhor! A estrela cintila, não balança. Balançar é para quem semeia ventania, Eu gosto de semear constelações. Se tivesse o manto da razão furado, Os pobres pensamentos vazariam Em forma de palavras. Ganhariam interpretações diferentes Em cada mente que as escutasse. Mas isso não acontece. A estrela cintila no infinito que criei Para escrever meia dúzia de versos desconexos. Há um sentimento latente aí; eu espero. Ele vai se gui...

Depois para Depois

As pedrinhas que adornam meu quarto nunca foram tão coloridas. A impressora nunca teve tanta serventia. As canetas que estão paradas no pote... Apesar de muito querer produzir. Pois é, este é mais um relato da mesmice. Nada de poesia por aqui. Apenas algo corrido numa estrada sem asfalto. Talvez eu esteja escrevendo só para provar para mim mesmo que não perdi a capacidade de escrever. É mole?! Agora que estou mais visível, tenho medo de perder a verdade. Como se ela fosse algo perdível. Mas não. Uma vez semeada, espero que ninguém a arranque. A verdade! Vamos ver: o que eu posso fazer hoje? Tenho como opção estudar, terminar de ler meu livro, começar escrevendo a história que tem martelado na minha cabeça... Muitas opções. Mas antes de fazer tudo isso eu gostaria de dividir algo que eu percebi ontem dentro de mim. Algo que eu não sei explicar muito bem. Porém, depois de tomar conhecimento de um verso de Adélia Prado que dizia algo do tipo: quando formos tocar uma alma humana, que sejam...

Fumaça no Espetáculo

Uma hora dessas eu escrevo um livro, Que provavelmente já está escrito Por mãos que eu desconheço. Mas deixemos as linhas imaginárias para depois; Há pássaros aflitos querendo voar. Olhem o relógio! O tempo criou asas, Os anjos já caíram; As estrelas sumiram; E a plateia se calou: No palco, um escarcéu. Um jogo sentimental sem acostamento; Querem sempre o papel da vítima. Vítima que padeceu nas palavras que não disse. Esqueceram do cenário; tacaram fogo em tudo. Correria; pânico; gritaria. Em poucos minutos o teatro ficou vazio. Mas o fogo não vingou. Apagou-se antes mesmo de existir. Era só fumaça e nada mais. Fumaça no palco, na mente, na visão, nas palavras... Se alguém atuava, não foi visto. O choro não foi ouvido, e tudo se esmaeceu Sem que a cortina se fechasse. Um vão criou-se no ambiente e lá coube-se o mundo; Mundo de poucos, mas mundo. Nesse mundo, as mãos serviam para plantar e colher; Cada um tinha o seu quintal, sua horta...

Circulando

E a mesmice continua... Será que eu não conseguirei enveredar minha escrita para outros horizontes? Só falo da mesma coisa, sempre e toda vida. Aliás, não falo de nada. O que seria o assunto central de um monte de palavras amontoadas para expressar um vazio? Vocês ainda não sabem da maior. Hoje a saudade reina. E seu reinado será longo. E saudade nada mais é do que vazio querendo ser preenchido. Mas já foram muitas estradas percorridas e buracos desviados para eu chegar aqui e dizer que não, nada foi preenchido. E eu estou cansado. Cansado de metáforas, de contornos extravagantes, de mente fantasiada, de cores enfadonhas, de luzes amareladas para deixar o ambiente mais aconchegante. Sinto lhes dizer: o ambiente não ficará aconchegante. Não com a falta que eu sinto. Ah, querem saber: parece que eu estou escrevendo por vaidade, isso sim. Não porque as palavras me fazem bem. Nem sei mais se fazem mesmo. Sim, estou num poço de vaidade. E quero me desfazer dela, junto a esse ego medíocre qu...

O Caminho de Tudo

Estou entrando numa nova fase agora. Secreta. Muito secreta! Porém brigando comigo mesmo para passar pela porta à minha frente. Alguma coisa dentro de mim me impede. Depois de tanto ter almejado uma nova fase, eis que ela surge. Eu paro. Reluto. Não me sinto preparado. E viro as costas e ignoro? Eu que tanto passei por fendas apertadas por não encontrar portas abertas. Entrei em buracos e saí por outros. Custei respirar pelos corredores do labirinto. Por que não consigo entrar? A porta está aberta. E o segredo? Está lá dentro; eu não sei o que é. Talvez eu não queira saber. Talvez eu não goste de segredos. E daí? Mas o segredo de fascina; a porta de fato é secreta. Empoeirada. Só falta eu virar a maçaneta e entrar; é o que dizem. Será mesmo? Será que para adentrar em um novo recinto é só virar a maçaneta? E minhas roupas; elas estariam adequadas? O meu jeito espalhafatoso? A minha falta de conhecimento? Esses padrões que alguém criou e eu nem faço ideia de quem seja. A porta de fato es...

Terra Dura

Seria tudo em vão? Estratégia de achar respostas na aridez Ou de extrair uma joia do leito de um pântano sujo Não leva sentimento consigo. Tudo é querer palavrear a verbosidade ardilosa, Que rasteja buscando os tesouros do sertão Já tão seco, tão carente, tão sonhador; Descobrindo chuva no subsolo porque no céu a esperança se foi. Triste fim perder a esperança no céu; o que resta de nós agora? O cântico de lamentos rasgando noites estreladas; O trabalho braçal dos dias de sol impiedoso,  Queimando viva a delicadeza que pudesse existir Nas estranhas de uma horta mirrada, quase morta, Ou nas mãos de quem a tivesse plantado. Sobrou apenas a brutalidade. Não seria ela uma forma gentil de levar a vida? Para quem gerou raízes profundas e sobreviveu à seca, A brutalidade se tornou necessidade. A terra era dura demais. Não havia água que pudesse gotejar as lágrimas; E ninguém mais soube da existência dos pântanos Que supostamente carregavam as joias. Mas joi...

A Mística da Terra

Pensei no poema perfeito, mas perdi. Perdi a literalidade; a capacidade; a identidade. A vida passou rápido demais e o espelho já não mostra a verdade. As estações dançaram na caixa de música fechada; Ninguém pôde contemplar tamanha sutileza Das bailarinas de alabastro em movimento ritmado Ao som do espetaculoso relógio. Quando dei por mim, já era noite; Já fazia frio em abril; Os dias traziam um azul mais claro, porém triste. E eu? Continuei cavando buracos no meu quintal Na esperança de encontrar um pote de ouro Sem saber que não tinha forças para carregá-lo; Sem saber que o dourado não combinava com meus olhos marejados De saudade do tempo passado Onde havia cores na paleta E eu podia pintar quadros sem contorno. Hoje não sou pintor, mas brinco com as cores que me invadem Quando mexo na terra e descubro formas mágicas que vão muito além De potes de ouro e bailarinas esculpidas. Descubro a mística do ser; do palpável; do transmutável; Do frut...

Semente em Terra Batida

Acho que esse espaço já não me cabe mais. Evoluí de semente a ramo. E brotei de uma terra batida, muito difícil de ser perfurada. Será mesmo? Às vezes me pergunto se consegui brotar ou se ainda permaneço semente. Havia refletido sobre o interstício das fases. O que há no meio da mudança é o elemento primordial para saber que tipo de ramo serei. Então ainda não sou. Pois é. Permaneço semente buscando nas entranhas do subsolo os nutrientes para resplandecer no ar que circunda a natureza da qual faço parte. No ar? Agora surgiram outras perguntas: será que serei árvore tão alta a ponto de ser morada das aves? Ou serei uma grama rasteira para as formigas construírem seus formigueiros e deles fazerem montanhas em seu minúsculo horizonte? Isso só depende de mim, mas tenho tanto medo. Queria mudar de assunto e voltar ao espaço que já não me cabe. Sabe por quê? Porque me sinto sufocado, sem janelas para contemplar paisagens. A verdade é que o espaço ainda me cabe, porém me acostumei mal. Constr...

O que aconteceu comigo?

Eu ainda sonho além das páginas do caderno verde. Mesmo que eu sinta falta da aventura, as folhas arrancadas não valem de nada. Queria experimentar de novo os ares da liberdade que é escrever histórias. Lembro-me de noites com luzes baixas, de pessoas seguindo procissões por caminhos tortuosos, da chuva fina encharcando os pensamentos de quem ousava sair no sereno. Meu Deus, quando foi que eu perdi a minha fé? O que aconteceu comigo? Fingi ser uma estrela cadente; brinquei de constelação antes do anoitecer. Agora olho para o relógio e espero ele voltar a funcionar como antes. Mas em meu coração eu sei que não vai. E não pode. Não pode porque o tempo de antes vazou pelas engrenagens. Tudo virou ferrugem manchando as toalhas brancas do que era sagrado. O sagrado tão almejado que quando tive nas mãos deixei cair. O ato de coragem da desistência segundo a paixão de G.H. Eu não quis desistir. Deus é testemunha. Agora eu me pergunto: testemunha de um crime negligenciado pelo querer e o não q...

Asas da Mente e o Deserto Gelado

Nada de belo sai. Já estive neste lugar antes, mas dessa vez não vim parar aqui caminhando com meus pés. Fui trazido nas asas da mente vazia. E agora ando pelas dunas de areias frias e esquecidas; deserto da noite sem fim que já se acostumou com a ausência do sol. Ele não aparece há milhares e milhares de anos nessa profundeza abismal que ainda assim se estende ao breu do céu escuro. Não estou em uma fenda apertada, mas em um amplo e tenebroso deserto. Gelado, que se sente nas entranhas do existir. Era para ser diferente. Mas o sol viu que deveria levar a esperança para outras terras, e assim o fez. Foi-se embora sem dizer adeus às areias que cativara, deixando para trás um rio de lágrimas secas e congeladas que dão forma ao escuro vivo. Eu ando por aqui agora. Sou o único ser vivente capaz de encontrar caminhos por entre a monstruosidade se precipitando ao infinito. Eu não queria de princípio, era demais para mim. Mas por ocasião do coração dilacerado, eu fui intimamente ligado às...

Ondas Gigantes do Ar

Então me diz: quantas histórias eu vi? Quero que saiba enfim: eu não sou ninguém. Alguém... A esperançar o amor acontecer. O sonho de viver. Perdi minhas vestes no vendaval, caminhei sem pensar nas pedras do mar. Ondas de cor e luz, batendo na costa do ser que conduz Uma cantiga aos navegantes do íntimo infinito que se propagou Nas mentes pequenas do interior, que viam no quintal o seu mundo ideal E nada da imensidão. Por isso eu trago uma canção tão simples Que nenhuma lágrima faz escorrer, ou cascata aparecer... Quem dirá que com o mar poderá o meu pranto competir? Eu sou do interior, de onde as ondas não vão. Aqui o sal não tem razão, diante do verde dos montes Que se precipitam ao coração De quem criou raízes nas minas gerais, De portos sem iguais. Eu não sinto mais falta do mar, pois o mar está dentro de mim, Nas pontas de areias dos cafezais, dos minérios e estradas reais. Eu não sou mais aquela solidão, que ia e vinha nas noites do campo Chora...

Diálogos e Prioridades

Uma música é soada na vizinhança e eu me pego pensando: “Que bom que as pessoas têm motivo para festejar!” Em tempos de crise e aumentos de preços, é raro ver gente festejando aos finais de semana. Mas a exceção se encontra aqui, perfurando os ditames da loucura alheia. O barulho não me incomoda mais; é como se acontecesse em outra dimensão, fora dos limites da que vivo ultimamente. Três metros quadrados de reflexão, introspecção e aperfeiçoamento das virtudes que me fazem humano. E humano é o que busco ser cada vez mais. Se outrora a humanidade tinha como meta a sobrevivência, hoje é se descobrir sobrevivente e o que fazer disso. Pois bem; ontem me foi revelado em segredo uma nova faceta dessa pedra preciosa que é o autoconhecimento. De certo, pegava-me pensamento em excesso e, por incrível que pareça, não sabia em quê. Depois de tanto meditar sobre os caminhos que pudessem me livrar da autossabotagem, a mesma ganhou outros moldes e se camuflou na minha cabeça. Os pensamentos iam ...

Águas Rasas da Inspiração (OK)

Pedras preciosas; laranjas descascadas; escadas encaracoladas; aranhas pelas paredes; luzes crescentes de longos vitrais; passos nos corredores; quadros virados; louças quebradas; biblioteca vazia; ondas do mar; cheiro de café; fumaça da chaminé; grama recém-cortada; doce de leite do fogão à lenha; riacho tímido atravessando o quintal; borboletas no jardim; bolo saindo do forno; livros de capa dura; água da nascente escondida; pinturas rupestres; azul que veste o céu; floresta que cobre a colina; memórias de uma tarde de outono; desejos de uma vida promissora; sonhos de muitas noites; magia que ganha forma; forma que ganha cores; cores que ganham vida e vida que ganha amores. Amei velhas cantigas; tardes esquecidas; poemas esvoaçantes com asas de anjos caídos. Amei a terra; as flores; as ruas e os pardais que faziam ninhos no telhado de minha casa. Amei as histórias de minha avó; as aventuras pelas cachoeiras; os cães leais; os mistérios do rosário e as balas com gosto de hortelã. Am...

Cacos do Horizonte

Sonhos exauridos e espelhos quebrados. É hora de recolher os cacos! Vejo muitas faces que não refletem a verdade. Olhares temerosos com o destino escrito em páginas de livros esquecidos. São visões dos muitos que um dia eu fui, estampados nos pedaços ao chão. O espelho se foi, e o desejo pela imagem perfeita também. De que vale um reflexo da carne superficial? Nenhum espelho é capaz de refletir a verdadeira aparência atrás dos olhos marejados pelo peso dos anos. Nem mesmo aquele que se quebrou com os sonhos semeados que não foram colhidos. Exaustão. E o desejo de deixar tudo como está avança as linhas do inconsciente. Juntar os cacos para quê? Eu não preciso mais do reflexo da mentira, tampouco dos muitos olhares de julgamento oriundos da miríade de cacos precipitados pelo assoalho. Há uma janela aqui. Ela é capaz de me mostrar o horizonte, as linhas do infinito, os pores-do-sol, as estrelas e o espetáculo do ciclo que recomeça ao alvorecer. Muito de mim está no ocaso, nas horas dourad...

Falha de Suas Paredes

Uma página; uma história; um sentimento; um caminho; uma ação. Estou cheio de “umas” coisas. Umas daqui, outras dali. Ao todo, tenho um monte. “Um” monte. De coisas jogadas, desorganizadas, esperando serem postas no lugar. Agora eu desenvolvo o texto: que lugar é esse dos mil “uns”? Um quarto trancado, empoeirado, com ares de outras histórias. Como se um vendaval tivesse passado por lá, tirando tudo do lugar. O quarto perdeu as paredes, o espaço, a forma, mas permaneceu existindo depois da ventania. A essência continuou. E a metafísica o denominou de quarto dos pensamentos livres, desobedientes, rebeldes e orgulhosos. Todos habitavam o espaço outrora delimitado que sucumbiu. Vamos falar a verdade: os ares não mudaram no quarto mesmo depois de sua ruína porque ele já estava uma bagunça mesmo antes de vir abaixo. E se hoje existe “um” monte de coisas jogadas ao chão por falta de parede, antes havia “um” monte de coisas abarrotadas em um pequeno espaço abafado. É cômodo sempre botar a cul...

A Folha e a Lua

Talvez eu volte a contornar os meandros da lua crescente. A maravilha do céu noturno simbolizando a vinda da plenitude. Quisera eu caminhar nesse campo; uma mísera folha levada pela correnteza que por infelicidade do destino ficou agarrada nas pedras. Se alguém com um ramo qualquer me empurrasse de volta para o curso d'água, eu voltaria a ser o navegante destemido que fui quando me desprendi da árvore. Mas contar com a boa vontade de um caminheiro despreocupado em retirar o entulho das pedras é acreditar demais em milagres. Por isso, prefiro acreditar que a lua ficará cheia algum dia; as águas do rio se levantarão e eu me soltarei dos obstáculos que me prendem aqui. Santa ignorância; eu nem sei se rio tem maré para levantar com a força da lua. Coitado do pequeno filete que vai serpeando pela mata rasteira. É mais fácil eu acreditar na chuva torrencial do que na noite de luar. Sonho tanto com a imensidão dos oceanos que faço de conta que já estou nele. E me contento com uma bacia de...

Para o meu Bel-Prazer

Tenho conseguido esvaziar minha mente com maior facilidade. Ao mesmo tempo, ela tem enchido facilmente às vezes, tornando-se uma represa ora com escoamento, ora sem. Principio de loucura, talvez; depois de tanto meditar sobre o espaço em que me encontro, ele voltou a me espremer nas entranhas da essência que vem ficando sem lugar, mais uma vez. Acho que cheguei numa fase difícil de aprendizado e evolução. Depois de ter entregado tudo, o que sobra? Não há mais nada para eu entregar, e é nesse vazio que as cicatrizes têm doído. O quarto tornou-se escuro, empoeirado e esquecido. Os pensamentos também. O quarto é minha mente; os pensamentos, minha fraqueza. Tornei-me chato, ranzinza e sistemático assim como o esboço que mais me causava repulsa. E foi nessa tentativa de não ser que acabei sendo. Foi na fuga que eu me perdi. Nos degraus que negligenciei, nos papéis que rasguei, nas janelas que não abri e nos ares que não respirei. Tranquei-me para o mundo sem saber que estava do lado de fora...

Os Nós da Escrita

Eu não sei construir personagens porque não construí eu mesmo quando tive os artefatos para montar o quebra-cabeça. Chutei as peças para debaixo dos móveis e elas se perderam com o tempo. Misturaram-se com a poeira e foram varridas. Tudo se torna raso na minha mente, como a paisagem vista da janela de um carro extremamente acelerado. Um exímio borrão. Misturando as cores e confundindo minha cabeça com os riscos cortantes de luz que atravessam os pensamentos. Percebi que não sei escrever. Vi minhas velhas histórias e achei todas banais. Todas buscando alimentar o ego e nenhuma exprimindo a verdade do artista fajuto que se esconde por detrás dos panos. Mas aqui farei a verdade reinar! A verdade é que só penso no sucesso; nos aplausos; na glória e no prestígio. Ao mesmo tempo em que sei que tudo isso não passa de ilusão. A balança não equilibra os pratos e eu não consigo me decidir. Já quis escrever para ser ovacionado e deixei os sentimentos passarem em branco nas noites de insônia p...

Um Tempo

Preciso de um tempo! Um tempo para colocar as coisas no lugar. A vela se apagou na correria; o sentimento desapareceu no escuro. Tenho tateado as coisas ao meu redor e nada reconheço senão o meu próprio desespero. O que é que eu fiz da minha vida? Depositei muito amor onde não devia? Apostei todas as fichas em jogo já perdido. Não houve surpresas. Eu sempre soube! Quem mandou eu me comprometer tanto assim?! Agora devo arcar com as consequências. O espetáculo perdeu a graça; o encanto; a magia do palco. A plateia está cansada com a mesmice dos atores insuportáveis. Os atores, cansados com a plateia bocejante, se rebelam um contra o outro. Brigam incessantemente e saem do papel. O palco virou uma jaula de feras e ninguém está se importando com isso. Estou cansado. E não tenho direito de estar. É o que andam dizendo por aí. Não sei se sou ator ou plateia. Não sei se ando no escuro porque tenho medo de ver a verdade. Não sei se devo depositar tanto empenho para colar um cristal espatifado ...