A Parede e a Fome
O relógio se desprendeu da parede. Ao fundo, o vazio hipnotizante da branquidão Empobrecida de mofo e infiltração Da parede despida, mirando a família Com olhar de história escondida. Escondida ou apagada. A parede queria dizer um segredo pelos quadros Que a privaram de ter: quadros de alegria. Ao centro, uma mesa sem pão. Olhos para o chão, buscando nos cacos do relógio Uma esperança de vida. Poeira de memórias e rezas de loucura Dando tempo à parede que morreu, mas respira. A casa não está vazia, só a parede. A parede, a mesa, o fogão, os pratos. O chão incerto trepida e oscila a parede que nada tem a oferecer. O que tinha já deu: tempo. Mas o tempo acabou. O pão não chegou e a fome continua. A família não percebe que a parede chora Pela falta que sente de ter a resposta do "quando?" Não saberão a que horas vão comer. Ela, a parede, escorre lágrimas enlodadas pelos cantos. O relógio quebrado nada fala. A infiltração aumenta. A fome também. A voz feminina da mesa diz: “vamos...