O Caminho de Tudo

Estou entrando numa nova fase agora. Secreta. Muito secreta! Porém brigando comigo mesmo para passar pela porta à minha frente. Alguma coisa dentro de mim me impede.

Depois de tanto ter almejado uma nova fase, eis que ela surge. Eu paro. Reluto. Não me sinto preparado. E viro as costas e ignoro? Eu que tanto passei por fendas apertadas por não encontrar portas abertas. Entrei em buracos e saí por outros. Custei respirar pelos corredores do labirinto. Por que não consigo entrar?

A porta está aberta. E o segredo? Está lá dentro; eu não sei o que é. Talvez eu não queira saber. Talvez eu não goste de segredos. E daí? Mas o segredo de fascina; a porta de fato é secreta. Empoeirada. Só falta eu virar a maçaneta e entrar; é o que dizem. Será mesmo?

Será que para adentrar em um novo recinto é só virar a maçaneta? E minhas roupas; elas estariam adequadas? O meu jeito espalhafatoso? A minha falta de conhecimento? Esses padrões que alguém criou e eu nem faço ideia de quem seja. A porta de fato está aí; mas a porta talvez nem seja para mim.

E se eu quiser que ela seja para mim? Mesmo em trapos... Afinal ela está aqui. Talvez seja escuro lá dentro e minha aparência nem faça diferença. Já que ela é tão secreta assim. Poucas pessoas ultrapassaram essa fase; é o que dizem.

Agora me veio algo: o problema não é a porta. É a fase. E se a fase for difícil demais? Poderia até perder minhas vidas. Como se eu estivesse em um jogo. Mas, calma, eu não estou em um jogo. Meu Deus, que desespero. Eu preciso passar!

Atrás de mim, caminho. Na minha frente, a porta. Caramba! Foi tão bonito o percurso até aqui; exaustivo, mas bonito. E se depois dessa porcaria de porta for feio e sem graça? Não tem como eu saber. Então eu espio pelo buraco da fechadura como quem não quer nada. O que há? Pulo para trás.

Um olho?! Alguém está me espiando pelo buraco da fechadura. Está vendo meu desespero, minha indecisão, minha insegurança, meu medo de simplesmente virar a maçaneta. Espera! Quem está lá dentro por estar sentindo o mesmo que eu! Talvez ele queira passar para o lado de cá. Isso quer dizer que do lado de lá é muito ruim. Afinal, ele está querendo vir para o meu lado. Ou não...

Pode ser que a nova fase dele seja o lado de cá. Caramba! Eu preciso avisá-lo. Ele tinha medo nos olhos, assim como eu. Que jogo difícil. Não, não... Não é jogo! É a vida. Vamos lá; vamos abrir essa porta.

Então quando pego na maçaneta sinto alguém a pegando do outro lado. É ele! A porta se abre e eu dou de cara com alguém receoso, olhar aflito, duvidoso, como quem estivesse esperando o pior. Espero não ser o pior em sua cabeça.

— Olha, você está tentando passar para o lado de cá? — perguntei-lhe. — Não é fácil, mas se faz parte da sua missão você precisa ir. O caminho é muito bonito. Tem muito verde. Muita água. De sede você não vai morrer. E isso já é uma boa notícia!

Mas ele estava com muito medo. E mal conseguia movimentar os lábios para dar continuidade a conversa.

— Jamais conseguiria abrir essa porta sozinho — ele disse. — Quando espiei pela fechadura vi seu olho do outro lado e tive uma singela esperança nascendo em mim. Não me sentia capaz de continuar, mas quando vi alguém do outro lado pensei: “é possível”. Então virei a maçaneta. Mas agora que o vejo me pergunto o porquê de ter de passar para o lado de cá. Tem muito morro; você vai se cansar de tanto subir e subir. De qualquer forma, eu te agradeço por ter me ajudado a abrir a porta. Agora que vejo o caminho, percebo que não é tão difícil assim.

— Meu caro! Eu que te agradeço. Há muito venho tentando chegar mais perto do céu e a melhor forma de fazer isso é escalando os morros do caminho. Quer dizer que a caminhada até aqui valeu a pena.

Não nos falamos muito mais do que isso. Cada um seguiu a sua direção. E agora eu me encontro aqui, caminhando rumo a serra que me deixará mais próximo do céu. E ele lá, adentrando as florestas que um dia pisei.

Sim, a questão sempre foi a fase e não a porta. E eu fui tolo de ter sido tão fútil. De ter me preocupado com roupas e comportamentos, deixando a essência de lado. Agora caminho, sim, conforme sempre caminhei.

Nunca foi fácil. Mas é gratificante. E o curioso é que a minha fase não é mais avançada do que a do rapaz que voltava pelo percurso. Para ele, o objetivo estava no meu ponto de partida. E cada qual compõe a sua história de acordo com os passos dados no decorrer do caminho.

Sei que vou encontrar outras portas. Outras formas de atravessar as fases da vida. Pontes, portões, trilhos e cavernas. Sempre buscando me superar. Vamos lá, o caminho continua. E eu não posso parar.

Agora percebo que mudar de fase não é tão secreto assim. E que sempre haverá beleza para me alegrar ao redor. Vejam essas flores tão rasteiras colorindo a terra. Essas pedras. E os pássaros? Eles estão lá; olhem. Bem perto das nuvens. Onde nem a copa das árvores mais altas conseguem chegar. Encontro, vez ou outra, uma cachoeira e me alegro com as águas do rio. Tudo em movimento. Que lindo é o caminho do rio. Ele de certo não tem portas para abrir. Mas o quão difícil devem ser essas corredeiras estreitas e pedregosas? Até chegar o oceano tem muito chão.

Boa sorte, rio. E sigo caminhando. Já consigo ver as montanhas. Que engraçado: saí da floresta para encontrar um verde mais bonito aqui. Mais prateado, quem sabe. Tudo tem ar de serra agora. E a serra se encontra em mim.

Queria não ser tão superficial assim. Há tantas coisas para se falar. Tantas belezas ao redor. Talvez eu devesse escrever um livro, mas... Ah, deixa pra lá! O mais bonito está escrito aqui, bem pertinho dos meus pés. A carreira de formigas carregando as folhas. Nenhuma história terá mais ordem que elas. Para onde será que elas vão? Que caminho engraçado, trançando o gramado em veredas tão pequenas. Mas tão desafiadoras para elas.

Amigos, esse relato está ganhando novas proporções. E eu estou sentindo de chorar. Serei eu o responsável pelo caminho das lágrimas? Elas, de certo, vão molhar o chão. Onde caírem nascerão outras flores. Quem sabe mais belas... Mas vou segurar um pouco mais. Planejei poucas palavras para descrever os mistérios da porta que tinha de abrir e vejam só: elas se multiplicaram. Agora vejo que tenho muito a dizer.

Porém, tenho muito o que andar também. E agora já é hora de fazer o silêncio presente. Ele também tem uma missão a ser cumprida. Sua barreira não são portas, nem corredeiras, nem a queda ao chão. Mas minha simples vontade de continuar falando e falando, sem parar.

Só que chegou a hora. Preciso subir essa montanha. Existe uma vista a ser contemplada. No mais, a fase é bonita. O superficial, a casca, não faz nenhuma diferença. O segredo, tão secreto, que comecei falando há pouco está dentro de mim. Nos limites do coração. Eu tenho o meu. As aves têm o delas. O rio, a floresta, as flores e até o vento. Tudo é vivo. Tudo vibra. E tudo tem um caminho a ser seguido.

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