As Mesmas Coisas

E agora: eu perdi a linha e a mesmice foi-se embora.

Tanto reclamei dela que ela se foi e me deixou de mãos vazias.

É... Não tenho nada para dizer: antes fosse a mesmice.

As palavras se revoltaram comigo: uma a uma,

Fizeram fila e brincaram de ser formigas.

Entraram no formigueiro e de lá partiram para o seu mundo secreto.

Não fui convidado.

Elas se reverberam por conta própria,

Entoam suas sílabas umas às outras,

Vivem livres, felizes,

Sem pretensão de voltarem ao mundo que criei para habitá-lo.

Pois é, antes fosse a mesmice.

Palavras para um lado; mesmice para o outro.

E eu parado aqui, esperando o sol nascer.

Todos os dias, o mesmo sol. Nunca me cansei de vê-lo nascer.

Tem outra coisa: nunca me cansei de comer arroz com feijão.

Nunca me cansei de contemplar a mesma roseira de anos,

Que neste ano deu mais de cem rosas amarelas.

O mesmo tom.

Eu não esperei que ela desse rosas vermelhas.

Também nunca me cansei de fazer café pela manhã,

De vê-lo passar pelo coador de pano e cair direto na mesma garrafa.

Porque a mesmice foi embora, eu não sei.

As palavras, por sua vez, seguem no formigueiro.

Eu sigo em casa, buscando entre um livro e outro

Um segredo que não me pertence, mas que quero saber:

Acho que no próximo ano a roseira dará mais de duzentas rosas.

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