A Mística da Terra

Pensei no poema perfeito, mas perdi.

Perdi a literalidade; a capacidade; a identidade.

A vida passou rápido demais e o espelho já não mostra a verdade.

As estações dançaram na caixa de música fechada;

Ninguém pôde contemplar tamanha sutileza

Das bailarinas de alabastro em movimento ritmado

Ao som do espetaculoso relógio.

Quando dei por mim, já era noite;

Já fazia frio em abril;

Os dias traziam um azul mais claro, porém triste.

E eu? Continuei cavando buracos no meu quintal

Na esperança de encontrar um pote de ouro

Sem saber que não tinha forças para carregá-lo;

Sem saber que o dourado não combinava com meus olhos marejados

De saudade do tempo passado

Onde havia cores na paleta

E eu podia pintar quadros sem contorno.

Hoje não sou pintor, mas brinco com as cores que me invadem

Quando mexo na terra e descubro formas mágicas que vão muito além

De potes de ouro e bailarinas esculpidas.

Descubro a mística do ser; do palpável; do transmutável;

Do fruto; das folhas; do orvalho; do sol; do vento; da chuva.

Descubro a mística de ser terra;

De pegá-la nas mãos

Como quem arranca o futuro do relógio.

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