A Parede e a Fome
O relógio se desprendeu da parede.
Ao fundo, o vazio hipnotizante da branquidão
Empobrecida de mofo e infiltração
Da parede despida, mirando a família
Com olhar de história escondida.
Escondida ou apagada.
A parede queria dizer um segredo pelos quadros
Que a privaram de ter: quadros de alegria.
Ao centro, uma mesa sem pão.
Olhos para o chão, buscando nos cacos do relógio
Uma esperança de vida.
Poeira de memórias e rezas de loucura
Dando tempo à parede que morreu, mas respira.
A casa não está vazia, só a parede.
A parede, a mesa, o fogão, os pratos.
O chão incerto trepida e oscila a parede que nada tem a oferecer.
O que tinha já deu: tempo. Mas o tempo acabou.
O pão não chegou e a fome continua.
A família não percebe que a parede chora
Pela falta que sente de ter a resposta do "quando?"
Não saberão a que horas vão comer.
Ela, a parede, escorre lágrimas enlodadas pelos cantos.
O relógio quebrado nada fala. A infiltração aumenta.
A fome também.
A voz feminina da mesa diz: “vamos dormir, que passa”.
A voz masculina contempla o silêncio e não se propaga.
As vozes infantis pedem para brincar com os ponteiros.
E alguém as consente.
Naquela noite a parede foi alimentada por brincadeira de crianças
Que adormeceram aos seus pés encharcados de lágrimas.
Sem tempo. Sem pão. Sem afeto.
Só com o medo de que a manhã surgisse
E a mesa continuasse vazia.
Ao fundo, o vazio hipnotizante da branquidão
Empobrecida de mofo e infiltração
Da parede despida, mirando a família
Com olhar de história escondida.
Escondida ou apagada.
A parede queria dizer um segredo pelos quadros
Que a privaram de ter: quadros de alegria.
Ao centro, uma mesa sem pão.
Olhos para o chão, buscando nos cacos do relógio
Uma esperança de vida.
Poeira de memórias e rezas de loucura
Dando tempo à parede que morreu, mas respira.
A casa não está vazia, só a parede.
A parede, a mesa, o fogão, os pratos.
O chão incerto trepida e oscila a parede que nada tem a oferecer.
O que tinha já deu: tempo. Mas o tempo acabou.
O pão não chegou e a fome continua.
A família não percebe que a parede chora
Pela falta que sente de ter a resposta do "quando?"
Não saberão a que horas vão comer.
Ela, a parede, escorre lágrimas enlodadas pelos cantos.
O relógio quebrado nada fala. A infiltração aumenta.
A fome também.
A voz feminina da mesa diz: “vamos dormir, que passa”.
A voz masculina contempla o silêncio e não se propaga.
As vozes infantis pedem para brincar com os ponteiros.
E alguém as consente.
Naquela noite a parede foi alimentada por brincadeira de crianças
Que adormeceram aos seus pés encharcados de lágrimas.
Sem tempo. Sem pão. Sem afeto.
Só com o medo de que a manhã surgisse
E a mesa continuasse vazia.
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