Águas Rasas da Inspiração (OK)

Pedras preciosas; laranjas descascadas; escadas encaracoladas; aranhas pelas paredes; luzes crescentes de longos vitrais; passos nos corredores; quadros virados; louças quebradas; biblioteca vazia; ondas do mar; cheiro de café; fumaça da chaminé; grama recém-cortada; doce de leite do fogão à lenha; riacho tímido atravessando o quintal; borboletas no jardim; bolo saindo do forno; livros de capa dura; água da nascente escondida; pinturas rupestres; azul que veste o céu; floresta que cobre a colina; memórias de uma tarde de outono; desejos de uma vida promissora; sonhos de muitas noites; magia que ganha forma; forma que ganha cores; cores que ganham vida e vida que ganha amores.

Amei velhas cantigas; tardes esquecidas; poemas esvoaçantes com asas de anjos caídos. Amei a terra; as flores; as ruas e os pardais que faziam ninhos no telhado de minha casa. Amei as histórias de minha avó; as aventuras pelas cachoeiras; os cães leais; os mistérios do rosário e as balas com gosto de hortelã. Amei as entrelinhas; os detalhes; as miudezas; as coleções incompletas e o feito de completá-las. Amei demasiadamente quem me dava atenção. Criança solitária se encantando pelo mecanismo dos insetos minúsculos.

Hoje eu me pergunto o que é o amor, depois de tanto ter amado. Algo beirando o ato de dar importância; de ver no outro a felicidade dominante, o riso nas horas vagas, os abraços compartilhados e o curso da vida cumprindo seu papel de unir o amante ao bem amado. Quem sou eu para falar de amor?! Há dias venho me contentando nas águas rasas da inspiração, insistindo em bater nas pedras com o intuito de perfurá-las. Escrever tornou-se fagulhas ao breu, pérolas de um colar arrebentado rolando para baixo dos móveis. Aos poucos vou encontrando as orbezinhas entre as tábuas do assoalho para deleitar-me com meia-dúzia de palavras. No fim descubro que nada disso faz sentido, e tudo se configura em sombras projetadas na parede. O irreal ganha força e quando dou conta do acontecido, já me encontro acorrentado na caverna de Platão.

Por isso reconheço o valor do céu noturno. Estrelas não fazem sombras. Ainda que não existam mais, ditando às regras do tempo no espaço percorrido até seu brilho chegar aos meus olhos, embelezam o firmamento de memórias e luzes. Talvez sejam as estrelas o amor incompreendido. Talvez elas são o símbolo do eterno que, mesmo não existindo mais, ainda assim conseguem brilhar em algum lugar ao longe.

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