Cacos do Horizonte

Sonhos exauridos e espelhos quebrados. É hora de recolher os cacos!

Vejo muitas faces que não refletem a verdade. Olhares temerosos com o destino escrito em páginas de livros esquecidos. São visões dos muitos que um dia eu fui, estampados nos pedaços ao chão. O espelho se foi, e o desejo pela imagem perfeita também. De que vale um reflexo da carne superficial? Nenhum espelho é capaz de refletir a verdadeira aparência atrás dos olhos marejados pelo peso dos anos. Nem mesmo aquele que se quebrou com os sonhos semeados que não foram colhidos.

Exaustão. E o desejo de deixar tudo como está avança as linhas do inconsciente. Juntar os cacos para quê? Eu não preciso mais do reflexo da mentira, tampouco dos muitos olhares de julgamento oriundos da miríade de cacos precipitados pelo assoalho.

Há uma janela aqui. Ela é capaz de me mostrar o horizonte, as linhas do infinito, os pores-do-sol, as estrelas e o espetáculo do ciclo que recomeça ao alvorecer. Muito de mim está no ocaso, nas horas douradas dos últimos raios, no canto gracioso dos pássaros se despedindo do dia que se vai na carruagem do tempo.

Eu me encontrei com os montes vicejantes. Revivi as histórias e perdoei os cacos espalhados. Todos viraram poeira e eu os joguei da janela. Agora são horizontes. Eu sou o horizonte ondulado dos morros distantes, das florestas fechadas que nenhum espelho ousou refletir. De reflexo tenho apenas as pedras das cachoeiras, as flores silvestres, as cores das aves e o verde latente da minha essência.

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