Fumaça no Espetáculo
Uma hora dessas eu escrevo um livro,
Que provavelmente já está escrito
Por mãos que eu desconheço.
Mas deixemos as linhas imaginárias para depois;
Há pássaros aflitos querendo voar.
Olhem o relógio! O tempo criou asas,
Os anjos já caíram;
As estrelas sumiram;
E a plateia se calou:
No palco, um escarcéu.
Um jogo sentimental sem acostamento;
Querem sempre o papel da vítima.
Vítima que padeceu nas palavras que não disse.
Esqueceram do cenário; tacaram fogo em tudo.
Correria; pânico; gritaria.
Em poucos minutos o teatro ficou vazio.
Mas o fogo não vingou.
Apagou-se antes mesmo de existir.
Era só fumaça e nada mais.
Fumaça no palco, na mente, na visão, nas palavras...
Se alguém atuava, não foi visto.
O choro não foi ouvido, e tudo se esmaeceu
Sem que a cortina se fechasse.
Um vão criou-se no ambiente e lá coube-se o mundo;
Mundo de poucos, mas mundo.
Nesse mundo, as mãos serviam para plantar e colher;
Cada um tinha o seu quintal, sua horta, seus arbustos
E seus próprios pássaros que iam e vinham como bem
entendessem.
Nesse mundo, o azul era mais azul e o verde era mais verde.
Mas tudo não se passava de uma peça, atuada no escuro.
Ninguém a assistiu.
Embora muitos a tivessem sonhado,
Voltaram a dormir
Como se houvesse pássaros cantando em seus quintais.
Comentários
Postar um comentário