Asas da Mente e o Deserto Gelado
Nada de belo sai. Já estive neste lugar antes, mas dessa vez não vim parar aqui caminhando com meus pés. Fui trazido nas asas da mente vazia. E agora ando pelas dunas de areias frias e esquecidas; deserto da noite sem fim que já se acostumou com a ausência do sol. Ele não aparece há milhares e milhares de anos nessa profundeza abismal que ainda assim se estende ao breu do céu escuro.
Não estou em uma fenda apertada, mas em um amplo e
tenebroso deserto. Gelado, que se sente nas entranhas do existir. Era para ser
diferente. Mas o sol viu que deveria levar a esperança para outras terras, e
assim o fez. Foi-se embora sem dizer adeus às areias que cativara, deixando
para trás um rio de lágrimas secas e congeladas que dão forma ao escuro vivo.
Eu ando por aqui agora. Sou o único ser vivente capaz de
encontrar caminhos por entre a monstruosidade se precipitando ao infinito. Eu não
queria de princípio, era demais para mim. Mas por ocasião do coração
dilacerado, eu fui intimamente ligado às montanhas que meus olhos jamais viram. Imaginei
uma beleza inexistente e um chamado lancinante que me prendia em suas correntes
enferrujadas. Aos poucos os elos iam me puxando e puxando para cada vez mais
próximo do perfeito nada. Eis que surge a ilusão do vazio.
Minha mente ficou vazia de tudo quanto se pesava em seus limites.
Mesmo assim não tive paz. O vazio ficou grande demais e quis criar algo que
pudesse chamar de seu. Daí veio as asas; pesadas, opulentas e cativantes.
Como negar? Cedi ao vazio que fez da minha mente um ser alada, com a promessa de me
levar ao paraíso. Mas o paraíso se mostrou o mais frio dos desertos.
E sigo por aqui. Com asas na mente, sem saber para onde ir pois tudo se fez escuridão. As areias não permitem pegadas firmes e objetivas,
fazendo do meu percurso uma frágil marcha de desespero velado. Sinto a
fragilidade viva de caminhar para nada, simplesmente pelo esforço de dar um
passo após o outro.
Minha esperança resume-se na simples luz de uma vela gasta. Uma
que pudesse me fazer enxergar nem que fosse um palmo à frente, mas não a tenho.
Percebo que assim como as areias que me sustentam, a esperança também não é firme
como rocha, mas maleável que escorre entre os dedos das mãos.
Um pedido de socorro seria como gritos no vácuo. O som
não ecoa. A vida não flui. O tempo não passa. E asas de nada servem senão de
peso nas costas tão cansadas de andar, e andar, e andar... Sem ver caminhos a
seguir ou lugares para se chegar.
Comentários
Postar um comentário