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Mostrando postagens de 2021

Palavras Densas

Existe uma parte da minha vida que não foi vivida. Mas não vou me queixar sobre isso. Vou viver o que estiver para mim, no meu caminho, no compasso em que me encontro. O problema é que eu não consigo tirar esse aperto no peito. Agora exerço a contemplação, e na rodovia dos pensamentos encontro um ou outro para me trazer tranquilidade. Apenas um ou outro. Essa carreata tem me matado lentamente; meu coração não aguenta. Agora me deito e espero por um milagre na mente. Esta se tornou minha inimiga... Por ora!  Deixarei as palavras por aqui. Quero vê-las amadurecendo até cair do pé. E não é que caiu?! Rolaram rio abaixo, mas não chegarão ao mar. Ficarão presas nas pedras.  O mar é apenas para quem leva sutileza consigo, e minhas palavras não são sutis. São densas e logo se enterram nas profundezas onde a correnteza não exerce força alguma. Tentei ler alguma coisa, mas nada parou em minha mente. Pensei que alguma mensagem pudesse me fazer bem, mas... Não encontrei alguém que sentis...

Fragmento de um Reencontro

Um reencontro do artista com a arte. As palavras deixaram de reluzir, mas, diante de tamanha ofuscação, surge a mensagem limpa e direta. E ela diz o seguinte: não sei mais fazer uso das frases; perdi as metáforas e agora busco por respostas na realidade vazia de comparações. A fantasia não condecora mais os predicativos de minhas frases. Esta é a mensagem. Queria até contar uma história do pássaro que vivia apenas numa única árvore, sem nunca desbravar a floresta em todo seu esplendor. Mas hoje não tenho vocabulário para tamanha proeza. Sou apenas um ser humano desprovido de imaginação. Isso porque eu já estou no meu segundo parágrafo e não sei mais sobre o que discorrer. Acontece que as palavras ainda me fazem bem. Eu, ser ansioso das profundezas... Opa! Nada de fantasia. Quero despir-me e andar nu no campo das ideias... Ah, não. Por um instante eu me esqueci. As metáforas são proibidas.

Gosto De

Gosto dos livros;  das histórias;  das páginas amareladas;  dos objetos esquecidos; das coleções incompletas; do encanto de completá-las; da arte sentida; das cores na parede; das molduras trabalhadas; da paisagem estática e da dinâmica também. Gosto de uma conversa louca; de sentimentos florescendo; de músicas ecoadas em quartos pequenos; das formas desconhecidas e seus contornos vibrantes. Gosto da última poesia do exemplar; do que é desconhecido; do mistério a ser revelado; das tardes de verão jogadas aos cantos de pássaros felizes. Gosto da felicidade, embora nem sempre ela esteja presente; de estampar sorrisos em rostos obscuros; de ver o riso rolar e cair em precipícios. Gosto de ser chamado de doido, insano, estranho e insensato, Pois entendi que a raridade está na incoerência dos predicativos. Também gosto de ler contos jamais lidos e senti-los com o coração pulsante de amor; de plantar em jardins coloridos; de colher em pomares tão verdes Ao ponto da esperança fa...

O Beija-flor e a Tempestade

Hoje, pela manhã, quando abri a janela, lá estava ele.  O beija-flor. Circundando as flores a procura de uma que mais lhe agradasse. O pequeno animal ia e vinha, parava no ar, e me ignorava no parapeito. Para ele, eu não existia.  Apenas flores e mais flores, compondo a orquestra de cores do pequeno e sorrateiro jardim. Depois, a pequena ave voou e uma forte chuva começou a cair. A poesia da manhã havia acabado com a tempestade. Onde estaria o beija-flor em meio àquela borrasca? Foi então que me veio à mente o motivo que me levava a compor versos lúdicos em tons vibrantes: A ilusão de uma vida inexistente. Estava na hora de eu mudar.  Enxugar as palavras, tirar os afrescos barrocos, criar uma flecha e acertar o alvo. A tempestade chegou e o beija-flor se foi.  Toda pompa honrosa de cores já não fazia mais sentido sob o firmamento acinzentado. Minha poesia se encontrava no azulejo frio... Na luz fluorescente; Nos móveis de pó de serra; Na poeira acumulada; Na mediocri...

Combatente Interno

Diário de um combatente interno. Personagem criado em uma tarde qualquer, que diz o seguinte: — Estou mal. Uma sensação nunca antes vivida invade meu peito. Algo que estimula o instinto de ânsia.  Um certo nojo, talvez. Mas, não... Desgosto pode ser a palavra. Desilusão.  Hoje é um dia que deveria ser esquecido. Um dia de sentimentos ruins. De palavras vazias e mentes fechadas. De falta de sentido nas frases E de baixa frequência. Não queria que fosse assim, mas a felicidade se foi E se escondeu. Eu não tenho nenhum sinal dela. Parece que tudo o que construí caiu por terra. Não tinha uma base sólida.  Colapsou. Estou tremendamente preocupado com tudo.  A luz do sol não me alegra. Tampouco o azul do céu.  Sinto-me um lixo.  Alguém usado e descartado. Não tenho coisas bonitas para falar. Plantei e colhi... Não é assim que funciona? Não fui eu que corri atrás da tormenta? Pois bem.  Agora eu que aguente. Não tenho mais o brilho nos olhos E o coração pulsa...

Brinco nas Entrelinhas

Minha escrita está viciada. A mesma coisa todos os dias.  Nada de novo! Somente reflexões vazias a respeito das frustrações. Permaneço tentando fazer cair a fruta da árvore seca. Balançando galhos no outono, quando todas as folhas já estão no chão. Não sobrou nada para mim. Apenas o zumbido irritante do mosquito querendo chamar atenção.  Os projetos voaram. E eu estou de mãos vazias. Nada mais tenho a oferecer. Foi-se a época de viver aventuras; de rastelar o gramado das ilusões; de cuidar das hortaliças sentimentais; encontrar-me no sagrado das horas compromissadas; viver o coletivo e ser alguém para me orgulhar. Hoje, apenas poeira. Poeira de livros não lidos, estacionados numa estante do sótão.  Sento-me numa cadeira plástica, humilde, para escrever a mesma baboseira. Isso ocorre todas as vezes que as palavras insistem em ecoar seus anseios. Talvez eu tenha apenas aprendido a não ser. Pois foi exatamente isso que aconteceu: eu não fui. E também não sou. Brinco de ser e...

Minha Velha Biblioteca Mágica

Caminhei muito por paisagens opacas e devastadas, em tons cinzentos pela fogueira que incendiou minha biblioteca mágica. Uma fumaça densa pairava no ar e eu quase nada podia ver senão a completa destruição daquilo que eu havia construído por anos. Minha biblioteca estava destruída. E com ela, as histórias de minha infância, os olhares inocentes para o céu de nuvens esbranquiçadas, as brincadeiras na área externa de minha casa, os risos soltos pelas tardes dos inúmeros verões, as cores das minhas memórias... Tudo queimado. Andava por ali, amortecido pela camada de cinzas aos meus pés sem saber aonde ir. Tornei-me um caminheiro solitário nos destroços de minhas fantasias e já não podia mais olhar para o céu. A fumaça ainda não se dissipara, impossibilitando-me encontrar o caminho de volta. Tempos depois, descobri que não havia volta. Era um percurso de mão única e eu tinha de enfrentar aquele campo de batalha sozinho, tendo como maior inimigo os desejos incabíveis que incendiaram minha h...

Ecos Eternizados

Relógio, palavras, amor, alegria, rio de desejos escondidos... Amor! Condicionado... Encaixe de aventuras e desventuras. Estética de gatilhos apinhados nos galhos do esquecimento. Esta é a caixa formadora das palavras não ditas e este caminho não tem retorno.  O que eu escrevi? Fruto do inconsciente que gritou por um instante de distração. Eu queria ser aquela versão minha, perdida nas cavernas do passado. E por um surto repentino de predicativos não pensados, fiz um esboço do jardim que costumava pisar quando meus passos não tinham percorrido os caminhos tortuosos da vida. Hoje sou ecos eternizados na montanha. 11:00h da manhã do dia seguinte: Mais um espetáculo às cegas! Eu nem sei sobre o que escrevi ontem ou se a continuação será coesa. Contudo venho falar que me sinto mais leve.  Depois que os dias de chuva passaram, eu parei para observar o céu. De azul estupendamente vivo. Assim como os sentimentos que semeio. Vivos! Dessa forma eu me faço pelos dias sem fim, nessa cami...

Singela Alegria

Uma alegria misteriosa invade minhas entranhas.  Cravejada de dúvidas sobre os meandros existenciais.  Seria alegria, mesmo?  Ou seria um gotejar lancinante de esperança minguante?  O sonho de um final feliz. A ciranda circundante em danças e cantigas Da infância cujas páginas se perderam Recomeça em tons tímidos de felicidade.  Teria ela o direito de girar e girar, sem medo de existir,  Depois de tantos anos passados?  O passado ficou para trás.  Foi deixado com palavras incisivas E inocentes de um texto esquecido, quase morto, Perdido em meio às novas histórias que o sufocaram. Lembro-me do que ele dizia: Quero passos assertivos!  Sem ao menos saber o que era assertividade.  Mas o tempo passou e os conceitos se refinaram, Bem como as palavras. Elas abriram espaço e permitiram a chegada de sentimentos. Feito este que agora explano: A singela alegria Tímida em essência, mas forte em sua função De colorir os passos de outrora Com cores de...

A Pepita Dourada

Fiz morada em um deserto de fantasmas, cujas muralhas mostravam-se intransponíveis. Era eu e mais ninguém. Qualquer um que tentasse avançar surpreendia-se por pedreiras intrincadas e quilométricas de altura colossal. Por dentro, dunas e dunas de uma areia esbranquiçada feito sal que refletia incertezas de uma vida não vivida. O  falso sal ardia na pele e eu suportava andando sem rumo, enganando-me sob os raios do sol a pino. Aos poucos, a circunferência da muralha ia se fechando e meu espaço ia diminuindo potencialmente. Nem sequer uma ave poderia sobrevoá-lo, já que nenhum ser volátil se mostrava hábil a voar tão alto. Sim, eram muralhas elevadas cercando um deserto onde tão somente eu caminhava carregando acorrentada a legião de fantasmas que criara comigo durante anos a fio. Um peso que não me pertencia, mas que naquele instante se camuflava de suprimento para viver uma mentira. A mentira da fortaleza. O círculo fechado que mais parecia um poço sem fim. Não sei se fui eu que com...

Chão de Terra Molhada

O dia está lindo. O céu se assemelha a um quadro renascentista, em tons azuis contrastados pelo branco das suaves nuvens passageiras. Meu coração está em paz. Observo as plantas e percebo tamanho ensejo à luz do sol que invade a varanda. As semanas que se foram bagunçaram meus pensamentos. Minha mente havia se transformado numa carvoaria, queimando as últimas fontes de preocupações que enegreciam meus pensamentos com a borralha da insensatez.  Agora ponho tudo em seu devido lugar. Ritmando-me à música ecoada ao longe, como pingos prateados de uma chuva que não existiu. Apenas em sonhos.  Sonhos de uma tarde que passou. De gotas escorrendo pelos vidros, fazendo caminho em meio à miríade de iguais.  Talvez eu fosse tais gotas. Tentando me esquivar das semelhantes em busca de uma rota única ao chão de terra molhada.  Falácia. Pensei tanto em traçar um esboço resplandecente ao fascínio que não fui capaz de me mover. Estacionei-me, e até hoje permaneço no mesmo lugar....

O Domo Transparente

Ressignificação da realidade paralela. Uma gota caindo devagar em um balde chegando ao seu limite: ansiedade. Equilíbrio entre transbordar e manter-se intacto.  Ao menos posso usar a alta tensão superficial do líquido ao meu favor. O vento atravessa o recipiente gotejado e nada acontece Senão uma dança gelatinosa do domo transparente. Mais uma gota que se junta ao espetáculo. E outra... Todas ligadas por hidrogênio; coesas e polares. Por vezes, sinto vontade de chutar o balde sobrecarregado. Contudo não saberei até onde irá a cúpula imprevista que insiste em existir. Por quê? Por fim, olho para cima e vejo uma estalactite se formar. Seu significado eu não sei Mas está prestes a furar o domo iludido em esplendor. Talvez seja a hora, de fato. Fim do ato. E a cortina se fecha para ninguém. A lagrima do menestrel frustrado caiu e a cúpula sucumbiu Pelo chão da caverna escura. O balde continuou cheio até ser chutando No pico de adrenalina Ecoando batidas pelo vazio. Assim, a estalactite...

Universo da Alma

É difícil para mim entender que existem outras estrelas.  Elas não são vistas, tampouco sentidas. Mas existem.  Maiores do que as que carrego dentro de mim. São constelações pontilhando o tecido fino, quase incerto, dos sonhos. Estes que vagam por aí, por noites e noites... Nada encontrando, senão estrelas. Perdidas, talvez. Ou expostas em pedestais, onde os astros circundam sem parar. O tecido se estende até eu perdê-lo de vista, mas não se rasga. Apenas estampa a fosforescência dos sonhos. As estrelas de que falo! Muitas e muitas por aí. Algumas solitárias, outras sufocadas. Elas existem, cada qual no seu devido lugar. E o brilho de uma não ofusca o da outra. Coexistem. E brincam no escuro. Uma não deixa a outra se apagar ou se perder de seu posto. Lá estão, no alto dos mais nobres pensamentos, No breu dos medos desconhecidos E nas encostas dos desejos mais profundos, Compondo a canção das estações E pintando um retrato da realidade vigente Como forma de traçar uma rota, Apo...

O Último Raio de Sol (OK)

Eu renasci em meio à tempestade De pingos em sonhos chorados por nuvens pesadas; Carga de desilusão na ventania E devaneios varridos pelos entardeceres esquecidos. Superei a perda.  Vela de chama fraca que se apagou Na noite de inverno que não se perpetuou  Pelo frio adentrando nas janelas abertas de minha alma. A primavera chegou a tempo de me resgatar E me levou para os jardins coloridos de um novo capítulo. Agora brinco com essas palavras luzentes, Tentando refletir sobre os desígnios emocionais  Que avassalam meu coração iludido  Pela tempestade que já passou.  Eu sobrevivi. É hora de aproveitar a paisagem à frente: Montanhas de brechas, Ensejos desirmanados, Contornando o pôr-do-sol Que se faz de objetivo a alcançar. Desço pelo vale até me agarrar no último raio, Corro pelas extremidades sem tropeçar, Carrego nas costas as noites em claro E mares que se secaram. Dessa vez é para dar certo. Enquanto isso, as primeiras estrelas surgem Simbolizando a esperança...

Uma Floresta de Sentimentos

 Algo me consome por dentro. E preciso controlá-lo com sabedoria dos magos da floresta. Raiva; irritabilidade; estresse; nervosismo; tudo tenta me avassalar e me colocar numa carruagem enegrecida rumo ao precipício. Mas eu não vou. Permanecerei na floresta dos meus alvoreceres. O controle das sensações é um mistério a ser descoberto pelos alquimistas do deserto. Já que vivem na aridez e nada possuem senão a areia escaldante, que sejam eles os responsáveis pelo peso da consciência. A floresta é bela. Cheia de cores e sons. Um sonho, talvez. Caminho entre as árvores e vejo as aves voando de galho em galho. No chão, uma relva tão verde que me faz querer cair e sonhar num sono profundo. Deito-me e encontro um tesouro: pensamentos preciosos de autoconhecimento. Falarei mais sobre isso depois, agora preciso refletir meu espectro no lago das emoções e beber de suas águas. Quando o sol se pôs, lá estava eu caminhando à luz das estrelas. As faustosas copas eram ornamentos do céu, celebrando...

Sonhos Esquecidos

Ontem eu sonhei com páginas amareladas e ressequidas pelo tempo. Não sei ao certo o que isso quer dizer. Talvez abranja vertentes do pensamento que acessei na noite anterior. Abri a consciência e por um curto período viajei pelas experiências interiorizadas da minha vivência. Quis encontrar respostas, mas não sei se as encontrei. Entendi algumas situações corriqueiras e as trouxe à luz da realidade. Mas as respostas... Permaneceram nas profundezas do meu oceano escuro. Pois bem. Quis mudar! Trouxe a noite para as palavras e as estrelas para os pensamentos. Do antigo Penasso Cronista, apenas lembranças. Agora carrego a caixa mágica de um escritor. Ora posso tirar dela uma obra-prima, ora um cortejo de trivialidades grosseiras chamando a atenção em vielas de devaneios. Tudo é deserto agora. Não há ninguém por aqui ou por ali. Palavras jogadas em precipícios que até hoje caem na esperança de encontrarem o solo para se espatifarem em mil pedaços. Sabem de um segredo? Eu escrevo para ningué...

Areias de uma Vida não Vivida

Angustiado. Mas por quê? Eu nada perdi. Lutei uma batalha, apenas. Sem resultado. Voou, rasgando o céu; estrela cadente voltando para casa. Pedido que se esconde nas entrelinhas de uma paixão. Vou ali, preciso terminar uma história. Depois volto para continuar escrevendo sobre o coração batendo em um peito apertado.  Na caixa secreta do escritor escondi um pedaço de mim. Chorei seco; um deserto. Era hora de dizer adeus mas eu me camuflei nas ruas de uma cidadezinha chamada distração. Agora ouço uma música para me acalmar. A solidão bate à porta, mas quem entra é a vontade de nada fazer. Procrastino à meia-noite. Mas ainda não são nem seis horas. Eu antecipo o relógio e sofro pelo tempo que virá. Este texto é um pedido de socorro. Retirei a capa de mim mesmo. E agora? Sou um copo vazio brincando de ser cachoeira.  Pedras! É isso que carrego comigo, e vou jogando-as pelo caminho. Marcando os passos de uma caminhada lenta e tediosa. O vento bate nas pedras, desvia. A chuva vem e ...

Texto Aleatório

Eu navego na noite escura, procurando a centelha de esperança naufragada. Não posso nunca parar de escrever; a vida continua e minhas palavras também. Há muito isso aqui se transformou em meu diário particular. Talvez eu devesse mudar o nome de Penasso Cronista para Diário de um Escritor Falido.  Mas por sorte meu orgulho me impede. Já estou cansado dessa ladainha de querer escrever sobre alguns assuntos os quais não domino. É uma sensação péssima. Mas como as canetas contornam as extremidades de um desenho torno, eu consigo contornar os nós de uma linha embolada para que se assemelhe a uma espiral. De ideias, talvez. Também estou cansado de falar e escrever "talvez". Talvez, e mais nada. Talvez eu tenha passado no concurso. Talvez eu escrava um livro. Talvez eu chore à noite. Talvez eu acorde ao meio-dia. Talvez a chuva cesse lá fora.  Talvez eu durma sob a meia-luz. Nada de certezas. O celular já não toca. Os e-mails não chegam. As páginas não viram. Mas a cabeça dói. Não p...

Esperar Florescer

 Deu tudo errado. É uma sensação bem esquisita. Dedicar-se a algo durante um longo período de tempo para perdê-lo numa tempestade qualquer. Eu sigo firme, embora um pouco abalado. Jurava no 'sim', e obtive o 'não'. Daqueles que pesam na alma. Mas tudo bem. Não é assim que as coisas funcionam? E eu sou apenas um principiante. Alguém que passa despercebido aos olhares. Um ser das profundezas sentimentais.  Eu não sei quais serão os próximos passos. Tampouco sei onde me encontrarei daqui um, dois ou três meses. Os planos voaram feito areia de um deserto esquecido. O que eu queria ser, não fui. O que eu plantei, colhi... E colhi mal. Mas o que posso fazer se além de uma boa semente, é preciso haver a experiência do jardineiro. Isso me faltou. Infelizmente.  Foi por pouco. Por um triz. Acredito que um milagre não poderia me salvar mais. A caixa está vazia. Eu já usei todos. É uma pena para tantos. Foi bom para me ajudar a ter consciência do que sou e de onde estou. Do meio e...

Uma História Sentimental

Estou compartilhando um sentimento. Não sei bem o quê. Esperança, talvez. Mas vai além. Abre espaço aos delírios da juventude indo de encontro ao futuro tão incerto que se quebra ao cair no chão. Dos cacos fiz um colar cintilante que reluzia à luz da manhã. Então pude sentir o sol nascer em mim. Pouco tempo depois as nuvens chegaram e tingiram o céu de tempestade; e lá estava eu pegando as gotas para compor uma canção de amor. Eu sou a esperança que semeio. E posso vê-la voar como uma ave recém-libertada. As grades pararam de fazer sentido. Bom, nada mais posso ver em dois dias. O futuro resolveu descansar bem ali, a dois alvoreceres de distância. Eu bem que podia projetar os segredos que nem conheço mais, buscando respostas sobre o que virá. A semana vai acabar e eu vou renascer de um domingo ensolarado, mergulhar na segunda e me molhar em águas de sabedoria; depois vem terça, quarta, quinta... E assim a semana se encerra mais uma vez. Contudo, eu resistirei ao destino. Peço a Deus qu...

Infinidade de Páginas

Olá, escritor. Esta carta é para você que esteve aprisionado em um canto secreto do coração. Peço desculpas se tive de fazer isso. Em poucos dias eu o libertarei dessas amarras que envolveram seus pensamentos já tão cheios de ideias. Às vezes temos que esconder o melhor de nós mesmos, e eu o escondi para que não fugisse de mim. Não digo que foi possessão, afinal, você é quem jogará as próximas cartas do jogo. Por isso tentei dar-lhe o melhor de mim, trancafiando-o na vila das emoções. Confesso que há muito não a visito. Mas em breve pretendo caminhar por suas ruas de novo e, para isso, preciso de você. Escritor de sonhos! Sentiu minha falta? Como eu sonhei com esse reencontro. Por ora é só para falar que estou bem, tranquilo e sereno. Sabe aquela sensação de dever cumprido? Pois é. Porém a batalha ainda não terminou. Algumas lágrimas já escorreram pelo meu rosto e eu precisava vir aqui conversar com você.  Alguns medos tentaram me dominar. Eu respirei fundo e consegui espantá-los. ...

Felicidade Embriagada

O projeto vai seguindo seu fluxo de forma bem sucedida. Eu estou numa canoa descendo um rio turbulento. Munido de coragem e persistência; tranquilidade e diligência, fazendo da água uma oportunidade de se chegar ao oceano. As pedras do rio estão sendo facilmente contornadas; a embarcação, leve como uma folha desprendida, corta o vento e se impõe nas curvas do curso travesso. Agora eu me encontro no meio de uma batalha. Luto com as garras de um tigre solitário, caminheiro invernal, buscando forças para escrever o legado nos troncos de velhas árvores ressequidas com o passar o tempo. Estou cansado, porém persisto. Há muita coisa em jogo. As palavras já ganham outros significados e talvez a escrita tenha se dissipado na neblina de um amanhecer. Fui eu que abri a gaiola das aves. Nessa caminhada, existe o vazio contrastando a esperança. E se for para segurar em uma mão, que seja na dela. Nado em lagoas evaporadas de tanto pensar. Aliás, voo. Voo por nébulas de caminhos espezinhados, sonhos...

Fragmento do Coração

Os dias costumam brincar de humoristas sentimentais, fazendo piadas com os corações desconsolados. As noites carregam consigo a caixa de gargalhadas ecoadas ao vazio, tirando da essência da emoção a estrela para iluminar tamanha escuridão. Por que sentir é tão ridicularizado às mentes vazias? Lugar de risos forçados e frases prontas de efeitos baratos. Há muito deixei as sombras da indiferença, inundando meu coração de sentimento. E desde então me tornei o maior palhaço do circo das banalidades. O ato principal de um teatro falido. A voz destoada de um concerto qualquer. Sentir virou chacota, e eu só descobri depois de me entregar ao sentimento.

Corrente de Boas Vibrações

Minha mente transformou-se numa máquina. Vem processado informações como nunca antes havia experimentado. Tudo em função de uma causa maior que há muito venho discorrendo em textos avulsos. No mais, sinto-me inspirado, preparado, condicionado e extremamente competente para seguir o caminho que me propus. Depois de alguns dias sombrios, vagando ao leu do desespero e do ócio, eis que surge a tão quista luz ao fim do túnel. Abracei os raios do sol. Na sinceridade do meu querer, nasce a flor da esperança. A certeza da felicidade e da conquista. A força do preparo e o caminho a ser traçado. O futuro se estende a minha frente como quadros em aquarela, movimentando suas cores por sobre a água. A arte ganhou vida e eu respiro em tranquilidade por contemplar tamanha beleza. Sou fruto de árvore virtuosa; não nasci para apodrecer no campo da sequidão, mas para prosperar semeando as virtudes que me foram concedidas em prol de um bem maior: destacar os benefícios do caminho. Afinal, todos eles têm ...

Navegar e Sentir

Calafrios pela manhã depois de uma noite turbulenta. A falta de lampejos para guiar os pensamentos é como nadar num lago sem margens, beirando sempre um precipício marcado pela dúvida do cair. Sonhei com o barco das ilusões, navegando de um lado ao outro sem chegar a lugar algum. Lançada a rede de pesca, só veio os ecos de um passado afogado nas águas congelantes da esconsa vida repousada nas profundezas pedregosas.  Frio exibicionista. Das últimas palavras direcionadas a ele, vem meter-se verbos diligentes para reger o coro das estações. O frio está em mim, mas permaneço resplandecendo nos entraves verbais. Pego, desmancho, mudo e reconstruo. Na esperança de encontrar beleza numa singela folha de um ramalhete sem flor.  Eu era criança e não sabia. Brincava com a seriedade de um adulto em seu ofício. Labores de um ocaso quase esquecido nas fendas das rochas que se precipitaram diante do caminho. E quer saber mais? Cansei de falar sobre caminhos. De que valem se o relógio parou...

Montanhas e Oceanos

Aqui o sol bate na folha, bate em mim, na caneta e nas curvas das palavras. Deixaram de ser minhas para serem livres nas encostas de uma serra sentimental. Intransponível aos que carregam consigo o peso de sonhos abandonados. São montanhas de esperança, vestidas de verde, trazendo aos corações a nébula de alento que faz de cacos uma obra; de lágrimas, um rio colorido serpeando a essência dos que ouvem os bramidos desesperados de quem há muito fez das cinzas um manto de dor. São vozes abafadas por batalhas perdidas, mas não silenciadas. Em seus corações, a esperança se faz flor e rompe a casca para chegar à luz.  Eu vivi uma vida. E caminhei por caminhos outrora tão próximos que hoje se vão nas brumas do tempo. Tempo este que passou rápido demais; vivi tantas fases e muito andei para chegar aqui e dizer: não me perdi, apenas optei por fazer uma caminhada mais longa.  Agora o frio me contorna, minha atenção vaga às praias em cuja areia marquei meus passos. A criança que fui nado...

Questões e Esperança

Hoje o dia se apresentou mais bonito. Mesmo jeito de muitos outros; a mudança foi em mim. A beleza veio da interpretação das horas. Agora um dourado vivo se imprime na parede; é o dia dizendo adeus. O sol, tendo cumprido seu trabalho, se encontra na linha do horizonte lançando despedidas para quem teve a sensibilidade de notá-lo durante as horas em que esteve presente. Partindo assim para romper-se em terras indizíveis, que fogem das histórias que já li. O que sei é pouco, e por isso precioso para mim. Mais uma tarde se esvai. Ontem perdi o que era de mim, e hoje encontrei linhas de um passado já não existente. Poucas horas se passaram para que o dia voltasse a surgir no firmamento. E eu? Voltei às páginas para escrever uma história inacabável, inacessível e irrevogável. Venho me encontrando em horas de contentamento, imaginando um futuro onde assumisse um papel desenvolto no contexto de ofícios bem colocados. Paro, bebo água, olho as folhas roxeadas de uma iresine tentando abraçar o s...

O Dom das Asas

Fazendas cintilantes, Estrelas marcantes; É a plantação dos sonhos voláteis, Voando por sobre as árvores da existência. Se ao menos dessem voz às aves, No lugar de piedosos piados, Teríamos o testemunho de que asas são, sobretudo, Palavras Escoadas ao vento e sentidas Por esperançosas folhas a existir Na farfalhada de anseios, Presas aos galhos Cujo alento vem senão Dos sonhos sem raízes, Desbravadores do céu e amantes da ousadia. Vez ou outra, uma única folha Dentre a miríade de sua copa Ousa desprender-se munida de coragem É nesse lapso temporal que ela, Sem nada conhecer, Permite-se voar. Muda e solitária, Pois ao contrário das aves, Não fora agraciada Com o dom Das asas.

Mente Fantasiada

Luzes. É isso que eu vejo. Agora explodo. O ano já chega em sua metade trazendo consigo um leve sabor de coentro baiano. Pouco sei o que será reservado a mim nos próximos capítulos, mas sei que algo me espera.  A vida é amor batendo as ondas nas pedras. Mar?  Para um mineiro falar de mar, a esperança tem de estar vibrando no coração. Cada onda traz consigo prazeres e desprazeres; a gente acaba se acostumando com isso. O segredo é se molhar. Domingo se estendendo pelo quarto. Sol e sombras dançando nas projeções. E eu nada mais tenho para escrever. O inverno começou mas aqui continua quente. Começou mesmo? Nem sei mais.  Tenho um motivo que inebria minha consciência. Mente fantasiada.  Cores performando enquanto a poesia não aparece. O jogo de luz ainda dança nas paredes. Dança também na roda de pensamentos. Tudo em movimento: ondas, danças, cores, sons e palavras. Brincadeiras de criança. Criança que deixei de ser quando dei voz aos fantasmas. O texto fala de coisas ...

Diário de Conclusões

De crônicas não tem nada, efêmero diário de conclusões. Lembro-me de seus primórdios quando começava com um título de poliglota. Piada nas entrelinhas. Se nem do português conseguiu extrair a pérola, vai munir-se de audácia arrojada para afrescar-se com títulos? Não mesmo! Caderno despedaçado. Sei que guarda de tudo um pouco. O restolho vem pra cá. Pensamentos perdidos. Ainda assim tenta fazer-se com títulos. Onde já se viu? Cronista... Essa é boa. Ou melhor, ótima! Você não passa de uma costura retalhada, com tecidos de várias origens. Sequer tem personalidade. Vaga por campos desconhecidos como um doutor do vazio que carrega dentro de si. Você perdeu o jogo. E agora que acordou, pensa que tem o tempo? Não era aquele que dizia ser seu inimigo? E ainda matuta na esperança do mesmo ser solícito com seus desejos infundados. O tempo tem raiva por seu desperdício. Sem desculpas de amadurecimento. Já disse, palavras por palavras, todas enchem as folhas de papel.  Acabou o parágrafo! As ...

Algo sobre a Dúvida

A ave grasnou no ninho de incertezas; a noite girou numa roda de dança; as luzes se apagaram; as estrelas fugiram; as peças faltaram no jogo; o manto não mais cobriu de alento; a fogueira deixou de trepidar. No fim, janelas abertas e o frio adentrando as ramificações da existência. Mas o que é a dúvida? Escolhas sob privações; andar desnorteado com mapas rasgados nas mãos; perder a areia da ampulheta quebrada; abrir uma porta e encontrar três; escutar as batidas do coração precipitado; ouvir os gritos da consciência enlouquecida e nada poder fazer, pois o agir deixou de ter papel no ato das interrogações. Por isso a dúvida se embebeda com o veneno do ócio, encharcando seus casacos para lançar abraços em chegadas insensatas. Há muito ela deixou de ser cruel para se tornar uma assassina de sonhos. 13:40 do dia seguinte: Uma claridade tenta adentrar o quarto. Solidão.  Ontem eu escrevi sobre a dúvida; hoje já duvido de minhas palavras. Sei que preciso agir, mas sinto meu corpo preso e...

Sobre Você

I. Há muito não escrevo sobre você; E apesar de muito já ter escrito, O muito nada significa Quando as palavras ficam no passado. II. Emoldurando espelhos de semblantes perdidos, Nas batidas do coração encontro-te vagando Em velhas páginas de histórias olvidadas. Amadurecemos com o tempo E as palavras ganharam novos significados, As músicas ganharam novas melodias, Mas os passos seguem os mesmos. Caminhamos juntos! Nas curvas, novas surpresas e nuances Do sentimento florescido nas linhas de nossa história. III. O tempo passou para nós, Ainda assim, as páginas não se asperizaram, Tampouco ganharam o tom do esquecimento. Folhas e mais folhas: escancaradas A serem lidas, virando-se à suavidade do vento. Assim escrevemos uma história emocionante. Dança de sorrisos e lágrimas; De encontros e despedidas; Abraços e corações apertados. IV. Em linhas tecidas estampei o seu jeito: Um jogo de admiração intrincada com afeto. Por você ser capaz de f...

Memórias Brincando

Quando tudo desaparecer, Restando-me apenas memórias De sóis iluminando dias de ventania; Folhas desprendendo-se das árvores; Passos lentos sem destino E o relógio girando rápido demais, Sentirei a áspera superfície dos papéis Que não foram escritos Por medo de dias construídos Sob fundamentos instáveis. São as memórias brincando, Vestindo fantasias Para assombrar as noites de insônia. Quiseram elas ser fantasmas; Verdadeiros fantasmas. Não passam de sombras no escuro, Invisíveis e irrelevantes. Penso nas árvores do pomar Avistadas da varanda; Na grama bem cortada Cintilando à luz do dia; Nas flores do jardim, Formosas bailarinas; Se esses dias virão eu não sei. Mas carrego comigo o frasco Contendo as gotas de esperança Colhidas no orvalho de uma fria manhã.

O Quarto de Três Metros Quadrados

Depois da solidão, o que vem? O quarto de três metros quadrados Já não conversa mais comigo. Suas paredes não me reprimem há algum tempo. Tampouco a janela outrora fechada Faz-se apática à paisagem. Paisagem? Apenas um muro chapiscado Com uma hera minguada repleta de pragas. Mas ali eu me fiz. E ao som turbulento da rua movimentada, Compus meus poemas vazios. Textos à gaveta em quantidade, Enquanto o quarto me pressionava e me esmagava Em três metros quadrados. Escuridão ao meio-dia, Cortinas fechadas e a porta trancada Já não me atingem mais. Ou melhor: Talvez! Acontece que eu aprendi A viver nos três metros quadrados Com paredes amareladas e manchas de sangue Dos pernilongos mortos em noites quentes De verões desperdiçados. Aprendi a viver ali, naquele cubículo sufocante Escrevendo sobre o que não vivia E sobre o que não sabia. A janela de madeira, o azulejo branco já gasto, A tela do computador e os livros empilhados: O quarto co...

Cores e Palavras

E as palavras continuam indo e vindo. Nessa manhã outonal já me inundo de sentimentos invernais. O dia pode até ser bonito, mas traz consigo o frio anunciando a chegada da estação impetuosa.  E quem disse que o frio não tem beleza? As cores ganham tonalidades prateadas em seus contornos e o sol avança pelo pavimento com a suavidade de um pincel marcando a tela vazia. Encantos da manhã. As flores cintilam como as estrelas da noite, pois são elas as estrelas do dia. Constelação da vivência em cores e contornos. E é no ar gelado dessa mesma manhã que meu coração se inunda de alento. A inspiração é o broto rasgando a semente germinada. Não sinto as paredes me apertando pela manhã. O vento matinal tem toque angelical e varre a insegurança que usualmente acorrenta meus pensamentos. O "e se" parou de fazer sentido; transformou-se em "é" ou "não é". Nesse instante eu sou. E ao som da Orquestra Armorial componho o início do meu dia. Que o azul do céu me invada por ...

Tracei Minha Rota

O que escrever quando tudo aquilo que escrevi já se consolidou? Como transcorrer um sentimento já descrito em versos de um poema qualquer? Depois de alguns dias volto aqui e me deparo com estas duas perguntas. Até ia começar a escrever algo novo, já que me encontro em mais um entardecer nostálgico anunciando a chegada do inverno. Dessa vez, sem a estonteante presença do céu rosado.  Tantas cartas escritas. Tantos caminhos andados. E a sensação de não chegar a lugar algum permanece me corroendo as entranhas. Ah, mas eu cansei de escrever sobre essa mesma ladainha todas as vezes. Palavras vazias. Infladas, cheias de ego. Assim como posso fazer jus a minha língua, que delineia meus pensamentos e forma palavras. O português.  Uma rosa plantada sobre pedras soltas que fez seu caminho ao chão fértil. Que bom que minha língua é o português. Com ele eu posso brincar e me deleitar em seus acentos. Assim tracei minha rota. E muito além de contar uma história, a escrita carrega consigo u...

Portão de Ferro

Aquele portão de ferro me trouxe um espectro assombroso de tempos apinhados em lágrimas escorridas por rostos sofridos, calos em mãos que nunca pegaram numa caneta, terços rezados com afinco em noites de desespero, vida vivida no canto de barro e madeira carcomida. A igreja de portas fechadas; da escada, só lembranças de sapatos enlameados pelo percursos. Hoje, um jardim repousa ali. Suave como uma brisa tímida passando rasteira nos calcanhares de quem adentrava aqueles portais com altivez. A igreja não era para todos. Na fazenda havia um rio há muito explorado: de sangue, correndo vivo nas entrelinhas da história. A flores que tiram da terra seus nutrientes sequer sabem o que a mesma terra usou para nutrir-se quando uma mão no arado era mais valiosa do que no lápis. E apesar da severidade do tempo, a pequena igrejinha resistiu com as paredes alvejadas.  No adro, pedras encaixadas expondo manchas da estação. O musgo ressequido tomou conta dos lugares ocupados pelas pranteadoras dos...

A Montanha de meus Alvoreceres

Estou um tanto quanto esgotado. Sem cabeça para estudar ou consumir palavras. As palavras têm me cansado em demasia. Estariam elas fatigantes ou a gênese do ócio parte de mim, um ser qualquer caminhando sem rumo entre uma história e outra? Há muito venho discorrendo sobre a ansiedade. Neste exato momento ela está controlada. Consegui plantar alguns pensamentos no solo de minha mente que germinaram em lindas flores coloridas. Se eu fechar os olhos, consigo vê-las.  Simplório jardim, de fato. Nada suntuoso. Apenas alguns ramos rasteiros de botões pendidos dançando ao vento aqui e ali. Em perfeita harmonia. Vez ou outra uma névoa os cobre e eu nada consigo avistar senão uma densa tonalidade acinzentada.  Eu não entendo o porquê do meu cansaço. Eu queria ter ânimo para ler mais; estudar e até mesmo escrever. Lindos poemas; textos envolventes; contos marcantes. Mas nada disso eu tenho em mãos. Só um vazio excêntrico, fantasiado de conteúdo primoroso.  Sequidão. Ah, mas vamos p...

A Força do Tempo

Já posso ver ao longe uma linda tarde outonal em contrastes opacos de um dia já findado. O azul metálico tinge o céu aos poucos, ganhando um matiz enegrecido que anuncia a chegada da noite. Hoje o dia foi longo. Viajei alguns quilómetros para contemplar este céu. A luz do quarto tremula e um hiato silencioso se propaga entre as teclas do computador, uma vassoura varrendo a calçada e crianças brincando ao longe. Minha cabeça pesa. Mal consegui dormir na noite passada. Uma estranha melancolia fustigou meu coração quando disse adeus aos emaranhados de devaneios que carregava em meu íntimo. Adeus, pensamentos aluados. É hora de abrir espaço a novas narrativas. Tudo bem eu fazer da escrita um refúgio. O adeus nem sempre é agradável. Olhei para o meu quarto, minha cama, minhas coisas, agarrei as alças da mala e, sem pestanejar, cruzei a porta deixando os planos para depois. Fiz isso porque o sentimento falou mais alto. E agora escrevo sobre um céu já escurecido pela noite entre nós. Meu corp...

Singela Cascata

Hoje te contemplei, singela cascata; quase ofuscada em derradeiros rasantes, mas muito apreciada em páginas já esquecidas ou arrancadas de trágicos exemplares. Isso me fez pensar na vida: tuas águas minguantes outrora tão quistas, como puderam transpassar a história para o lado absorto da vivência? E apesar da sombra estampada pelas pedras molhadas, com ares de dias já findados, a pequena e tímida queda ainda compõe uma canção às aves que ali se banham.  Tudo bem, cascata acanhada. É trabalho do tempo fazê-la correr por entre os rochedos e encontrar caminho na densa mata fria. Para que se lembrar da história agora? Só te traria tristeza, quando por conseguinte viesse ao reflexo de dias azulados o rubro tom do sangue derramado em suas margens agora tão plácidas. Quantos ali perderam suas vidas, banhando as feridas e enterrando os sonhos? Se eu soubesse a resposta, quem sabe teria tuas feições em meu rosto no instante em que meus olhos cruzaram teu reflexo. E outras cascatas escorrer...