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Mostrando postagens de 2023

Um Talvez e Uma Ave (OK)

O amanhã é sempre uma fonte de inesgotável "talvez". Mais à noite, caminharei por aí vendo as entrelinhas do céu quando puder e quiser. Por ora, fico por aqui, fazendo de mim um ocaso de ideias. Páginas não escritas. Outra hora, depois, adiante, vai-se sem rumo o rio do ser pensante que se envereda para outras histórias, de capas desconhecidas e cores estranhas, de traços fortes e vozes macias que dão direções. Direção de correnteza não se dá. Hora marcada é apenas um movimento de relógio. A gente erra por falar demais, ou por não dizer nada. Mas erra. E errando, vamos mergulhando vendo margens de tantas árvores e pedras jogadas que ficaram para sempre esquecidas nas beiras por onde o rio passa. Esperar que a água esbarre de tanto correr é tortura, mas também amor das pedras, das árvores e dos bichos que não voam. Apenas os pássaros podem ir ao encontro do rio, no centro de sua correnteza, na pedra esquecida, aquela que ficou para fora das águas, para provarem do majestoso mo...

Meia Hora Depois (OK)

Posso escrever o infinito até esta sensação sumir. Ou escrever a sensação, algo do tipo, até virar infinito e eu me afundar nestas noites tão iguais. Destrinchei o mar para não precisar navegar perdido por aí, revisitando pretéritos imperfeitos como ia, cria, escrevia. Ainda vou por aí, crendo no aconchego das chegadas, escrevendo as sensações do mundo e flutuando em mares pontilhados de luzes. Viver é verbo; bem como amar; bem como apreciar o presente e desembrulhá-lo para se ter a surpresa. Ler um livro é ler a vida, e virar páginas e sempre ter surpresas nas mãos. Ouço a voz das palavras que saem de mim, principalmente quando pegam o ar para si e inflam meu peito para saírem depressa, em uma única respiração.  De uma só vez, sem vírgulas ou pontos. Apenas palavras. Sem sentido. Porque o mundo o perdeu logo que deixou de viver o agora, dado como um embrulho deixado à porta de um qualquer que jamais esperou por uma surpresa que fosse. Pois eu esperei por tantas, em cada curva, cad...

Mistério de Dezembro (OK)

Foi-se mais um. É dezembro, de novo. Outro, mais claro que os jogados no fundo do baú. A caixa secreta foi aberta por diferentes personalidades e em diferentes cenários. O de agora, por exemplo, é calmo, simples, enferrujado, quase realizado, profundamente tentador, e outras tantas coisas iguais que se enveredam por aí. Dezembro é o desfecho de estar, de se entender como gente que se perde de tanto se encontrar; mês do meu aniversário, como outros aniversários já passados com abraços e "desabraços", com sonhos de outras vidas sonhado por outras pessoas. Eu, escrevendo cartas para ninguém, vivendo um personagem diferente a cada dia, depois de muitos e muitos anos, encontrei-me nas entrelinhas de uma história e refiz a narrativa. Trouxe-me o protagonista, sintetizando os fatos e revendo os anos já passados. Não podia fazer mais nada além de pontilhar vírgulas no lugar dos pontos. Continuei sonhando onde muitos pararam. Não me importei com os números que se enfureceram. O meu ca...

Abismo dos Gracejos (OK)

Essa vida é, de fato, um gracejo que se lançou ao precipício. Caiu sorrindo, rodopiando, expandindo-se nas reminiscências de uma queda que quis ser voo. Liberdade seria, então, ir além do chão? Pois para o gracejo não houve chão de se cair, mas nuvens, em formas distintas, construindo salões azuis para amanhecer de novo. Mais céu para nossos pés. E assim, o riso se propaga no infinito de muitos e muitos problemas solucionados. Viver é flutuar nas bordas, nas beiradas das estradas perdidas e reencontradas. Não é à toa que toda queda traz um frio na barriga, um sentimento de perda, uma questão sem resposta, uma pedra no sapato, uma nova perspectiva de cair. Graça mesmo é quando nos lançamos e não caímos. De tanto ver precipícios, a pétala voou, o orvalho despencou, a letra se curvou e mensagem foi passada e novamente rasgada. Jogada ao longe para também cair. Mas não caiu. O céu a acolheu na infinidade de mensagens lançadas que se perderam. São sonhos descontextualizados. Poetas que não ...

Eu e Parte de Mim

Por que vivo me imaginando sentado em uma poltrona, lendo livros encantados? Que histórias marginalizadas são essas que tanto faço contato no pensamento? Digo que estão à margem por não mergulharem de uma vez na correnteza da minha vida. Volto ao passado, vejo palavras simples, envergonho-me de ter sido tão pouco quando poderia ser muito. Mas fui o que fui e agora a imagem: um velho senhor, realizado com as coisas a sua volta, de costas para uma janela de onde se projeta um jardim de muitos sonhos. Seria uma das muitas faces que tenho de mim? Ou eu não me conheço suficientemente bem para saber que tipo de pensamento é este? A vida continua carregando gracejos, enquanto as aves mergulham sem medo nesse rio que sou eu e, ainda assim, nem sequer toquei com os pés o leito de areia macia. É o que eu acredito. Uma loucura, atrás de muitas outras. Pedras que se revelam quando há seca. Eu devo ter me desequilibrado com os dias mais quentes que o normal para falar coisas assim. Essa conversa de...

Correnteza de Viver

Nem tudo se precipita ao rio que corre valente, revelando-se a cada curva como algo novo de viver. As folhas se desprendem, voam por segundos fingindo ser aves migratórias até mergulharem depois da margem agitada para ser peixe que nunca aprendeu a nadar. O caminho quem escolheu mesmo foi o rio. A folha só seguiu o destino. Quem olhava de fora, queria ser todas as folhas desprendidas. Sem entender a perda que elas encaravam quando contornavam a primeira das infinitas curvas. Longe do rio, outras perdas, outras correntes, outras árvores e outros contornos. A vida nunca parou de correr e de desprender folhas dos nossos galhos. A arte da despedida é para poucos; aperfeiçoada como acender uma fogueira na escuridão. Posso dizer que já quis ter asas, já quis ter raízes, já escrevi poemas para os sonhos que nunca vivi, porque não conseguia pressupor o que vinha adiante. Olhava da margem as flores dos ipês soltando-se para formar um maravilhoso tapete, enquanto outras florezinhas murchavam na ...

Saudade de um Jardim

Ah, jardim! Que saudade de você. Como pôde mudar minha vida tão profundamente com mudas tão comuns? Lembro-me da promessa de um dia te eternizar nas veredas dos sonhos que tracei, sentindo teu gramado sob meus pés já tão cansados de caminhar. Talvez tenha sido o clima; talvez o momento; talvez os sinos ao longe; as cores dos muros floridos; as folhas das palmeiras por despencar; o assoalho rangendo com passos graves; vozes dispersas; uma praça vazia; galhos tremulando e folhas se libertando em seu devido tempo. De tudo, acredito ter sido a fonte de água corrente. Correu para mim como nunca havia corrido para alguém, o cristal líquido escorrido entre os dedos , gelando-me a alma acostumada com o calor de histórias bem contadas. As palavras se dissolveram como o sal se dissolve na água. Tua fonte ficou com todos os poemas para si. Sem reclamar, segui adiante, observando os filetes d'água a me acompanhar pelo caminho. Declamavam versos que eram meus. Tão meus que se revoltaram e parti...

Arrependimento de uma Estrela Cadente

Posso dizer que fui liberto pela água gelada. Escorreu os pensamentos e me guiou ao encontro de mim, perdido no vazio da mente, como se isso fosse um problema. Sentir a mente vazia é a solução para muita coisa. Serve para escutar os próprios ecos, rever os próprios reflexos no chão molhado de tantos banhos frios. Agora que tenho de lidar com a vaidade, tudo é motivo para me desvencilhar. Vamos com calma. Rever os conceitos e acertar os alvos no escuro. Vaidade mesmo é pensamento descarrilhado. Um vagão ou outro que se desprendeu da locomotiva. Eu não vou parar a viagem para recolher o que se espalhou. Deixe que alguma coisa floresça quando houver chuvas verdadeiras. Por ora, banhos gelados. E isso já é muita coisa. Às vezes penso em caminhos contraditórios. Como o fato de eu declamar poesias e me sentir eufórico porque alguém ouviu a minha voz. Como se isso me trouxesse uma especialidade perdida, minguante, parecida com uma estrela cadente pouco harmonizada que se recusou a cair por co...

Fantasma de Canto

Tem horas que tudo parece ser em vão. O trabalho que perdura, escorrendo rios em faces baixas, desorientadas, para quê? A conversa dos cantos; ecos de fantasmas amedrontados tentando desenfrear o medo do coração que insiste em bater pelas portas e portas sem fim. Tudo está trancado. Não adianta pulsar por aberturas na esperança de ver jardins. É triste perceber que as coisas mudam para pior, às vezes, até chegar na indiferença. E as ações de nada valem. Porque já não existe reticências. Eu sigo por aqui, catando os cacos, colando os pedaços com as memórias felizes, limpando o chão com o silêncio das perspectivas contrárias. Pensei que estava fazendo o bastante. Reencontrando poesia no que se perdeu entre palavras vazias. Alguém disse que não. E se eu acreditasse? Se eu acreditasse, nem estaria aqui. Nem escreveria. Nem abriria as janelas todas as manhãs. Nem ouviria as músicas de que gosto ou tampouco leria os livros que me tocam o íntimo. Se eu acreditasse, talvez, seria mais um fanta...

Interpretações do Mar (OK)

Demorei muito tempo para entender a que se referia pensar nas ondas do mar. Naquela noite, depois de movimentos trocados, vida revisitada, folhas dobradas, um jogo de luzes para me fazer acreditar, o ritmo ecoado na sala ao lado, ou, quem sabe, na mesma sala, harmonizando-se com meu coração que também batia forte, tremulando os sonhos que se repaginavam, ganhavam outros contextos, giravam em roda de mãos dadas com outros que jamais sonhei, as palavras surgiram vagas e sutis: pense nas ondas do mar. Foi o que me disseram. Alguma coisa estava dentro. Virei o copo que tinha nas mãos e olhei atentamente aos olhos que, por si, já eram ondas: não se esqueça, pense nas ondas do mar. Não foi difícil pensar nas praias brancas de ondas cristalinas retumbando nas pedras preciosas do tinha como mente. O quadro estava pintado. E as virgulas se esvaíram. O nome do artista eu perdi. Já não consigo me lembrar daquele com quem dividi o copo. Só tinha aquilo: uma praia para caminhar e molhar os pés da p...

Cores que não se perderam (OK)

Nesta última semana eu me fragmentei num céu de mosaicos. As cores que antes davam as mãos umas às outras se soltaram. Caíram do firmamento. Viraram poeira no horizonte e se varreram com o vento por debaixo dos nossos pés.  Corri para salvar o que estava perdido. Fazer fogo em meio à chuva de verão. O céu se enegreceu e se pontilhou. Estrelas de pérolas no grande oceano da angústia velada. Naveguei num barco pequeno tentando pegar de tudo. Por pouco não me afundei. Consegui chegar à uma margem estranha, todavia muito acolhedora. Acolheu-me na simplicidade das horas que sempre passaram iguais. Sempre estiveram ali, brincando de crianças do mar. Respirei fundo para sobreviver. Senti a noite nos meus braços. Perdi tudo quanto pude colocar no pequeno barco que usei. Na praia, tudo era pedra e areia. O barco se desprendeu e se foi para longe. Eu, estando ali, pontilhando o horizonte sem ser uma estrela, olhei para cima e vi o futuro. Um dia, meus olhos se fechariam para sempre. Mas, por...

Contos Infinitos (OK)

Cá me viro outra vez, sem me reconhecer nos ínterins da tempestade. Sou aquele que se redescobre de época em época, e me vejo nos espelhos de todas as paredes que me serviram de escora. Não desperdicei lágrimas, pois vivi em tempos de muita chuva. Água era o que não faltava sob meus pés. Poças de resplandescências, ondulando a verdade que tinha sobre mim. Pois agora, que venho aqui apenas provar coisas já provadas, possuo a clareza das manhãs. O caminho é este: revelado. Orvalhado nas biografias que tracei para que pudesse sobreviver na escuridão. Por vezes, julguei não existir manhãs. Dobrei os joelhos quando vi os primeiros raios romperem o firmamento. E aos poucos o belo horizonte se projetava em poesia para as almas sensíveis de tanto viverem na esperança. O dia raiou e as aves cantaram. Eu, aquecendo as mãos, comecei a escrever o que via. Desisti. Larguei o lápis, rasguei os papéis, e fui ao encontro do infinito. Corri pelo vale, saltei entre outeiros, deitei-me nas gramas e olhei...

Jardim de Silêncios

Jamais me esquecerei daquele jardim de silêncios. Suas flores, suas árvores, suas fontes, agora, se projetam em meu peito feito um sonho e uma esperança. Fiz uma promessa de um dia sentir meus pés em gramas como aquelas. Fazer acontecer a verdadeira paz que somente a passagem do tempo garante. Mas existem caminhos pela frente, e eu preciso escolher com sabedoria. Alguns, certamente, me levarão ao jardim. Outros, para o deserto das almas. Quis vir aqui dizer tais coisas para não me mostrar obsoleto diante da voz do coração que ecoa poesias no escuro. Escrever para mim ganhou outros moldes, outros movimentos e outros interesses. Preciso eternizar o jardim de silêncios fazendo certo barulho. Perco-me nos detalhes e já não vejo a hora de voltar. Por isso, sinto que estou fazendo o que há de melhor. O retorno. Não me importo com a confusão das palavras. O importante é que elas existam, como existem agora. Filipe, meu nome. O que mais? O que carrego além de três sílabas e três palavras. Um s...

Retalho e Tempestade

Voltei querendo ser tempestade, para rasgar os breus do meu desconhecido. A briga pelo que julgo ser meu prevalece em dias como este, mesmo eu não tendo nada. Mesmo a chuva tendo passado e a tarde cinzenta se prolongado com franjas tímidas de sol. Firmando a raridade dourada do que se diz valioso. Como se valor fosse medido por resplandescência. Mas, talvez, uma linguagem rebuscada feito esta para tratar de coisas simples tenha seu alicerce condenado pelo silêncio de uma tarde qualquer. Já não sou eu que escrevo. Gosto mesmo é das páginas. Elas possuem poesia ainda que estejam vazias. Confesso que foi por aqui, nestas linhas marginais, que me fiz como condutor de orações. Se passei para o caderno foi porque mantive firme as raízes no deserto que, mesmo tendo abundância de sol, nunca resplandecia. Sempre tinha a mesma cor ocre; um dourado fosco formando o horizonte de quem sonhava com montes verdejantes. Encontrei na capa de um caderno verde uma razão para seguir adiante. Não falava mai...

Tempestades Perdidas

Sei que estou escrevendo pouco por aqui. Tenho gostado de sentir a caneta no papel. Bater teclas ficou menos intenso. Mas insisto. Aqui foi que me fiz. Existe um ponto que separa duas vidas. Algo que marcou para sempre as pegadas na areia e distinguiu aquilo que foi escrito antes daquilo que se escreveu depois. O tempo pode carregar gracejos quando se tem olhos de criança. A nostalgia é apenas uma pena que se desprendeu da ave, passando a voar pelo vento e não pelo movimento de quem realmente voa. Ainda tenho saudade das aves pela manhã. Gosto de escrever sobre elas, como forma de marejar a mente. Não os olhos, mas a mente. Os olhos já marejaram demais. Desaguaram quando acertei os ponteiros e depois não correram um rio sequer. A mente é que brinca de ter vista para o passado. Costuma chorar por manhãs silenciosas. Sempre querendo mais um momento de oração e intimidade com o divino. Divino que ela própria desconhece. São as entrelinhas querendo destaque. É mais um problema de orgulho d...

Memorial da Janela

Janela. Foi o primeiro “livro” que li. Da minha casa, a paisagem era outra. A janela de madeira, cuja função seria a de abrir suas abas para os dois lados, representando o livro fantástico dos meus sonhos, mantinha um segredo que só eu conseguia decifrar. Foi assim que aprendi a ler, ao primeiro momento, a paisagem que tinha ao meu alcance. Fui uma criança solitária. O último filho. O último neto. O último de muitas coisas. Contudo, aprendi a colocar a linha de chegada um passo adiante de mim quando passei a ler coisas com o coração. A partir daí, ultrapassei os limites e espantei os mais velhos que me chamavam de “a rapa do tacho”. A janela da sala de onde morava raramente ficava aberta. Isso porque em seu parapeito se projetavam pilhas e pilhas de livros. Centenas de histórias fechadas que estavam ali simplesmente para enfeitar o ambiente. “Que coisa”, pensava eu com a cabeça de menino que sequer sabia juntar as palavras para descobrir seus mistérios. ...

Alguma Coisa de Memória

Pensei em tantas coisas legais, cores e formas magistrais, beleza sem ares iguais. Mas tudo se foi com o cansaço. Este início se foi com o tempo. Retornou com a vontade de me expressar buscando formas abstratas para moldá-las. Agora, aproveitei o tempo para vir até aqui, no púlpito dos esquecidos, para me redimir. Peço-lhes perdão pelas memórias cultivadas. No lugar onde todos querem a graça do esquecimento, eu fui a resistência. Recordei-me por completo de tudo. Ato não voluntário, mas culposo. Daqueles sem intenção de matar. Porque só morre mesmo quando se esquece. E, ao que tudo indica, enquanto estiver vivo, terei lembrança. Mas, para falar a verdade: este texto não conversa comigo. Um papo frouxo de lembranças rebeldes, beirando a mesquinharia da existência. Uma bobajada sem igual. O que vim fazer, realmente, foi desperdiçar alguns minutos deste dia que já chega ao fim. Faltam menos de vinte minutos. A frase inicial, escrita há alguns dias, é o marco temporal que vive se esquivand...

Pontos e Silêncios

Daí, as coisas vão se transformando. Eu não sei muito bem onde estou. Sei apenas reconhecer os silêncios onde antes existia melodia. A música parou de repente e quando eu percebi, bem, alguma coisa muito ruim aconteceu. Dentro de mim, obviamente. Pois do lado de fora tudo estava conforme sempre esteve. Eu não perceberia nada se fosse surdo. Mas Deus me deu uma audição boa o bastante para perceber pequenos detalhes. Ruídos. Coisas que se foram para sempre. Ou quase sempre. Talvez voltem depois que eu me virar. Sigo com o pescoço rígido, negando-me os lados para onde não quero olhar. Nem os olhares acompanham mais as assustadoras sombras das beiradas. Passaram-se horas. Perdi o fio. A linha arrebentou. A vida passou. E sol... Continua a adentrar pela janela escancarada, marcando o guarda-roupas com uma forma em diagonal, fazendo-me lembrar da infância. Aquele feixe de luz como pequena capela perto da porta do quarto onde dormia. Era o meu templo. A maior sacralidade que podia conceber na...

A Mentira Construída

Ao longo do caminho, fui pegando coisas irrelevantes porém pesadas de mais, como os medos supérfluos de querer me provar como alguém que nunca fui. Quando tentei jogar a carga fora, ela estava tão presa às minhas vestimentas que minha única opção seria tirar tudo para poder seguir adiante. Daí veio a vergonha de caminhar despido. Como poderia prosseguir? Aos poucos, fui tirando coisas daqui e coisas dali até o limite da capacidade. Comecei a entender pequenas artimanhas que usei para me esconder quando não satisfeito comigo mesmo. Puramente e substancialmente, modificava todas as pegadas julgando meus pés. Eles, responsáveis por toda a trajetória, não eram benquistos. A partir daí, muitas coisas difíceis aconteceram. Perdi o fôlego, tremi na base, quis fugir para as sombras, sacrifiquei meus sonhos, quase virei um ponto mal feito na escuridão, simplesmente por não aceitar as minhas pegadas. Queria, mais que tudo, trocar de sandálias mesmo estando boas para seguir viagem. Quanta imaturi...

Claro e Profundo

Eu não deixei de escrever. Apenas voltei à raiz para encontrar um novo meio. Ficar mais próximo da terra me faz bem. Encostar no papel também. E sujar as mãos de tinta me faz lembrar de quando cuidava de uma grande horta. Tempos passados não entram mais pela única janela aberta. Hoje tem sol, tem céu, tem tarde silenciosa, tem tentativa frustrada de meditação, tem sensação de feridas abertas e peso de saudade no coração. Amanhã é domingo, mas o hoje é que importa. Queria vivê-lo para sempre, perdido na trivialidade do nada para se fazer. O que eu podia, certamente, foi feito. Contemplei as paredes, revivi os fantasmas, despertei as ideias para nadarem contra a correnteza. Tudo isso em uma tarde. Eis a arte de se preencher os vazios. Nada sei a respeito dos finais. Sempre houve um parágrafo para eu recomeçar. Tudo voltará para o início da folha. A história acontece não na escrita, mas na leitura. E cada um lê conforme aprendeu. No meu caso, aprendi com as traças. Roendo de dentro para f...

Alguma Coisa Incomum

Lembre-se sempre de quando pegava a caneta para escrever avulsamente. Não é porque agora encontrou uma razão que as palavras deixaram sua força de caçadoras de sonhos. O tempo que passou sonhando com elas é precioso. Anos e anos deixando ser guiado pelas páginas trouxeram você neste ponto. Quase um final, se não soubesse que existem mais livros na estante. Podemos ir com calma; é a melhor opção. Uma hora chegamos onde quer que seja, mas, por ora, vamos viver este instante infinito que o ponteiro vem marcando. Depois é depois... Este é o fragmento esquecido. Aquele das questões incompreendidas. Do coração que bateu uma vez à porta e não esperou que alguém a abrisse. Voltou pelo caminho que veio, mas não o reconheceu. Foi quando percebeu que voltar não é reviver o passado, mas aumentar as margens do futuro. Uma noite como muitas é exatamente sobre o que eu digo: parece o precipício da mesmice, até espraiar os passos do coração que caminha no escuro. Cada noite é única e cada dia traz con...

O Olimpo dos Insetos

— Dizem que as árvores são os pilares do mundo! — falou um velho besouro para o seu neto. — Mas, vô... Eu não entendo. O que pode ter lá em cima? Certamente, os besouros que habitavam o solo jamais entenderiam os mistérios que as árvores gigantescas da floresta escondiam. Corria um boato sobre seres mitológicos que moravam nas alturas, responsáveis por aqueles que tinham o chão como seu lar. Mas, de tal maneira, era apenas um boato. — Não cabe a gente pensar sobre o que há — respondeu o avô —, mas sobre o que vamos fazer com essas folhas que caem. Vamos! Temos muito trabalho pela frente. Enquanto isso, no mundo dos humanos: Cientistas descobrem que maior parte dos insetos que habitam as copas das árvores da Floresta Amazônica nunca estiveram no solo. O Olimpo dos Insetos surge para os pequenos invertebrados como a Atlântida perdida. Lar de seres que compõem histórias de riquíssima aventura. Avançados no tempo e nas razões de viver como verdadeiros insetos. Todavia, se por um instante a...

Por Acaso

Neste fim de domingo, consegui fazer tudo o que precisava. Agora, jogo os dados na mesa, brinco com a sorte, penteio os cabelos do tempo, sabendo que vou sonhar à noite. A sensação de estar fazendo o melhor que se pode é uma estrela solitária na noite escura. Eu mesmo tive medo de apontar-lhe o dedo, acreditando que fosse nascer uma verruga em mim quando assim o fizesse. Apontar para uma estrela: marca d´água cheia de nuances e crendices supérfluas para sabotar a beleza do simples.  Não acreditava que fazia o meu melhor exatamente por isso. Por ser simples demais. Amanhã, mais uma vez, contemplarei o dia em sua plenitude. Desde o seu nascer, até o seu ocaso. Quisera eu usar a palavra "poer" para trazer à tona uma harmonia forçada. Ocaso que é ocaso, lembra acaso. Entre os casos de todo dia, muitos sóis já se puseram. De todos os "por acasos", contemplar o nascer de um entre tantos dias é o mais sublime. É a forma mais poética de se recomeçar. De se redescobrir. Eu a...

Meio-dia e as Reticências

Por um instante eu me cansei de ser eu mesmo. Foi como se tudo tivesse se tornado, sem mais nem menos, tediosamente esfumaçado. E essa fumaça vinha adentrando as narinas, ardendo minha cabeça, capengando pelas encostas do pensamento e moldando-se na pergunta: quem sou eu? Fora dessa roupagem de chatice para ser um capricorniano verdadeiro de vinte e dois de dezembro. Mas não! Dizem por aí que, a partir dos vinte e oito, o ascendente toma conta. Peixes! Uma emoção descontrolada depois de ter sido tantas vezes pedra escavada do rochedo. Pois é; como a vida muda em pouco tempo. Daí, pela manhã caminhei sem rumo para fechar a semana com feriado na sexta. Queria ser, mais que tudo, simpático. Mas não estava conseguindo o tanto quanto gostaria de ser. Vieram-me pensamentos insanos, fantasmas da claridade. Coisas esquecidas e vozes caladas. Muitas vozes que resolveram falar todas ao mesmo tempo. Uma se sobressaiu: seria eu um verdadeiro amigo? Para quem ficou anos a fio conversando com parede...

Amoras e Pores de Sol

A palavra de hoje é: imprevisto. E eu nem sei se este texto terá um fim. Hoje o dia foi cheio. Desde o seu princípio, quando estava no ponto e pude conversar com uma mulher que lá encontro todos os dias, até o seu fim, quando fiz minha caminhada e aconteceram coisas curiosas. Percebi que preciso focar, verdadeiramente, nos meus pensamentos. E não fingir que estou fazendo isso. Agora mesmo não consigo lidar com eles. Por isso uma música ocupa o vazio e faz com que as palavras saem da mente pesada. Não estou reclamando de nada. Longe de mim. Estou apenas me fortalecendo no campo mental. Para isso, existe um peso a ser erguido. Este peso, então, é a capacidade de lidar com coisas impensáveis. O foco desejado é justamente o nó que vai amarrar o processo em uma só coisa. Sim, minha vida mudou muito. Em muito pouco tempo. Quando caminhei hoje, estava pensando nas minhas fraquezas. Foi quando uma amora caiu em minha cabeça sem eu saber que se tratava de fato de uma amora. Passei a mão para av...

O Vendaval e a Simplicidade

Estou tendo pouco tempo para vir até aqui. Só vim agora porque me sinto bagunçado. Como se um tornado de acontecimentos tivesse passado pelo quintal e trocado as mudas de lugar. Tenho de recolocá-las no devido espaço onde se reconheceram preciosas. De vez em quando a gente tem de enfrentar ventanias. Eu mesmo fiquei cansado com tantas outras nos últimos meses que esta de agora pouca coisa fez senão uma bagunça corriqueira. O que eu preciso fazer é isto que estou fazendo: sentar-me e desembolar este novelo que o gato deixou no canto depois de tanto brincar. Vamos lá: venci a segunda semana como aluno da UFMG. Ponto! Só aí muitas flores já se abriram. Depois, vivi um dia de cada vez e aceitei aquilo que sou como uma virtude arranhada. Aprendi a não mais me envergonhar do que apresento para o mundo quando não sei como agir. Na maioria das vezes, eu não sei mesmo. E vou aprendendo no momento. O meu jeito de falar, a minha forma de andar, a minha respiração descontrolada, o meu nervosismo i...

Palavras Auxiliadoras

Escrevo este texto como forma de organizar as coisas. É sábado à noite. Um sábado bem diferente dos sábados que já vivi. Ele traz consigo a sensação de dever cumprido, a vivência que deu certo, a tranquilidade das horas e os espaços preenchidos. Na verdade, quem traz sou eu. E dissemino ao sábado aquilo que vivi ao longo da semana que passou. E como passou, indo aos extremos e se confortando com o compasso dos acontecimentos no devido tempo. Completo dizendo a mim: deu certo. E agora: uma nova caminhada se inicia. Sim, já tem uma semana que estudo na Universidade Federal de Minas Gerais. Letras! O curso dos meus sonhos, que nunca pude me lembrar quando acordava atordoado por noites mal dormidas. E aqui estou eu, falando sobre ele, com orgulho e brilho nos olhos. O entusiasmo renasceu das cinzas pela razão nobre de acordar todos os dias quinze para as seis, caminhar até o ponto, pegar o ônibus e atravessar os portões da universidade. Confesso que durante muitas aulas que tive, senti uma...

Lista de Sonhos

E então, cheguei aqui. Um processo difícil, quase inimaginável para o meu eu de dez anos atrás. Dez anos? Eu já era adulto àquela época, pelo menos no papel. E por falar em papel, estou me enveredando para o fim de mais um caderno. Talvez o primeiro que realmente terá um fim. Os outros acabaram sem acabar. Havia muitas folhas em branco a serem escritas, mas eu, com a imperfeição dos fatos, com a desorientação das ideias, com o raciocínio trincado, com a vontade de sempre viver algo que não fosse o agora, cedi à incompletude lancinante que me atordoava para um constante recomeçar. No desejo incessante de fênix frustrada por não conseguir renascer das cinzas, um recomeço era uma saída de emergência. Queria, mais que tudo, sair de mim mesmo por não me suportar. De fato, não suportava aquilo que se passava pela minha cabeça. Umas projeções que reconheci que nem eu mesmo era capaz de projetar. Havia algo na mente independente da minha força de vontade, que, por sinal, era bem fraca. No fund...

Café de Lembranças

Hoje pela manhã, ao invés de passar o café com água, passei-o com leite. Como fazia anos atrás em Juiz de Fora, no apartamento onde morava. Lembrei-me de quando trocava o dia pela noite e via o nascer do sol pelos vidros das janelas do quarto e da sala. Depois, tomava um banho demorado até resolver sair e ir à missa das sete. Quando finalmente retornava, conseguia dormir. Pelo fim da tarde eu levantava, ouvia uma ave-maria ao longe, e recomeçava o dia pelo seu final. Gostava de rezar o terço, acender uma vela, contemplar o crucifixo na parede e sonhar comigo sendo um frade franciscano. Queria, mais que tudo, a liberdade. E, pra isso, minha única saída seria enclausurar-me atrás das paredes de um convento. Àquela época, jamais pensaria que pudesse existir horizonte após o ano que convivi com o carisma de São Francisco. Certamente, encontrei a liberdade que tanto buscava e hoje, escrevendo este texto, percebo que  o longo e tortuoso caminho pelo qual andei valeu a pena. É estranho pe...

Uma Outra Pergunta

Doze de março, data curiosa para um domingo. Silencioso como todos os domingos. A curiosidade mesmo bateu à porta não pela data, mas pelo desejo de me fazer sentir o silêncio em palavras escritas. Quero saber o que está acontecendo comigo hoje. Já se passaram doze dias do mês e pouca coisa foi falada. Eu, que tanto semeei palavras, não as colhi neste dia curioso. Para um domingo, curiosamente, não tenho maneira de conduzir este texto senão jogando as sílabas fora. O pano branco de fundo, bem atrás de mim, mostra-se como o tecido onde mancho de tinta coisas importantes que foram esquecidas. É como desenterrar fantasmas já perdidos por gostar de ser assombrado. O vazio é mais assustador que o medo propriamente dito. Posso dizer coisas importantes, mas prefiro ilustrar o abstrato com fumaça colorida no espaço. Semanas se passaram; muitas semanas. E cá estou eu, perdido em um domingo outra vez. Certo dia me perguntei sobre quantas palavras gastei para chegar até aqui. Como se tais palavras...

Prefixos de Viver

Estou reaprendendo a me reencontrar. Neste jogo de prefixos repetitivos, refaço os caminhos sob novos olhares. Jamais perceberia o quão verde era a paisagem se não tivesse voltado para pegar as folhas que joguei para cima. Ainda bem que não choveu. Nenhuma delas se molhou ou se perdeu. Consegui, com custo, reunir os capítulos e narrar uma nova história apesar das letras conhecidas. Não é à toa que o caderno em que escrevo, ainda hoje, tem a capa verde. Na maior parte da viagem, foi verde a cor que mais vi e mais aprendi a amar. Tenho marcas nos pés pelos passos em falso que dei. Não são cicatrizes, mas marcas. Facilmente laváveis para recomeçar a caminhada com pegadas humanas, aceitando a fragilidade de pés que recusaram por anos os caminhos certeiros. Por isso se sujaram e aprenderam pela sola grossa que conquistaram resistência. Estou lidando com o tempo diferentemente de como lidava. Aprendendo, como sempre, a aceitar suas nuances de ondas do mar. O tempo precisa ser aceito, present...

Pena Solitária

Já nem sei mais sobre o que escrever. Amanhã meus pais virão a Belo Horizonte para me visitar e, então, comemorarmos juntos minha aprovação na Universidade Federal de Minas Gerais. Meu cérebro perdeu qualquer meio que utilizava para fazer poesia e deu lugar a uma confusão metal muito confundida com euforia. São muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo. A venda do apartamento em Juiz de Fora também mexeu comigo esta semana. Fiquei feliz por saber que tudo deu certo. E certo fiquei por saber que provavelmente nunca mais morarei na cidade onde nasci. Digo provavelmente porque a certeza é apenas ilusão de uma manhã ensolarada. A escrita travou, de fato. Perdi o conhecimento das palavras. Não sei como se escreve isto ou aquilo. Todavia, fiz questão de vir aqui forçar a barra. Quero mesmo quebrar estes obstáculos no meu caminho. Estou no final de uma suposta manhã comum pensando nos passos que dei por aí. Quero, sobretudo, que este final de semana seja excelente. São meus pais que estão vind...

Retalho de Sonhos

Sábado. Palavras avulsas. Música instrumental não significado nada. Tarde quente, sem nada para oferecer àquele que diz "estou aqui". Um caderno verde, uma casa limpa, um ventilador ligado, uma camisa dobrada na cama; meu Deus! Quantas coisas para se escrever. Mas e o sentimento? E os dias de angústia? E as feridas cicatrizadas? E os fantasmas depostos? E o medo? Medo! De viver, supostamente, ou de morrer sem ter vivido? Quando foi que as coisas ao redor pararam de falar em voz alta? Tudo para ouvir o que está dentro. Tudo para sentir uma respiração tranquila. Um texto não quer dizer muita coisa comparado ao tanto de coisa que não disse. É apenas mais um sábado. Queria mesmo entender aquilo não foi entendido. Será que cresci demais e não percebi? Será que já sou o adulto que imaginava quando criança? Se sim, por que continuar negando aquilo que os dias me trouxeram? Por que não aceitar? É bem difícil dizer o indizível. Isso porque a tarefa de traduzir sentimentos em palavras ...

Esperança Abafada

Realmente, parece que as coisas deram certo. Lembro-me do desespero que senti quando me foi pedido apenas para acreditar. Eu, que sempre me julguei compreensivo, não compreendi a esperança. Pensei que não a tivesse, mas tendo-a, acabei dilacerando a sua essência na descida da rua onde me encontrava. Meu Deus! Tudo o que me foi dito era: "Acredite!". E eu, corrompido pela cólera de não ter feito o melhor que podia, não quis acreditar. Os dias se passaram comigo reclamando o pedido não atendido. E quando a esperança renascia das cinzas a cada manhã, eu a abafava com uma manta pesada de desilusão. Isso porque estava iludido e descrente da promessa feita. Descrente também do que me disseram sobre: "o que é para ser seu, vem na sua mão". Mais um clichê no meio do balaio de frases avulsas, era o que eu pensava. Daí, veio um novo ano. Novas predisposições para acordar a cada manhã, querendo da vida uma surpresa a todo instante. Quando penso que não, surpreendo-me com o rec...

Livros, Vitrais e Estrelas (OK)

E então, dias vazados, chegarão às poças da noite resplandecida? Encontrarão caminhos pelos torvelinhos de ressentimento guardado ou correrão livres pela correnteza do coração leve? É melhor escolher logo. E com sabedoria levar a vida rumo ao sol do horizonte mais distante que aguentar. Em torvelinhos não há horizontes. Sua casa tem janelas abertas para a verdade adentrar. Pense nisso antes de acumular livros na estante. Tenho acordado cedo, antes do dia invadir o quarto, para pensar nos títulos secretos de uma biblioteca bem escondida. Tão escondida em mim que eu mesmo não a encontrei. Sei de sua existência porque carrego o peso das histórias comigo. Caminho por corredores escuros, cheio de portas trancadas e passagens inesperadas, acreditando buscar o que nunca foi meu, mas que, devido à falta de uma verdadeira história, passa a sensação de pertencimento. Se eu não sentisse falta de nada, jamais buscaria tais livros. Tampouco perderia meu sono pensando em títulos secretos que talvez ...

Poeira nas Mãos

Eu não sei mais o que fazer. Arranquei todas as flores do jardim. Cavei poços sem ferramentas e desnivelei o solo outrora nivelado. Também não sei o que dizer. O tempo de brincar com as palavras se foi. O que eu tenho agora em minhas mãos é poeira. E já nem sinto sede de água. Olho ao redor; tudo murado. O espaço determinando a existência. O que eu fiz com o meu quintal foi uma catástrofe. Ao invés de esperar o tempo certo de colher, fui lá capinar a grama bem à meia-noite, estando eu cego e atormentado por madrugadas sem dormir. Por isso preciso esperar o tempo da chuva, para desfazer os outeiros que fiz cavando buracos de ansiedade. Sim, é dela que falo. Num momento em que as sílabas pareciam não sair, em que as palavras viraram as costas para o seu escritor, bagunçando o texto na mente em vigília. Sei que o maior segredo que tenho comigo é justamente o fato de não ter segredos mas gostar de mistérios. A espera angustiante destruiu os contextos secundários, os coadjuvantes e os cenár...