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Mostrando postagens de 2022

A Escassez dos Dezembros

Nunca entendi o porquê de eu não escrever tanto em dezembro. Mês de muitas coisas. As palavras, que me suportam durante todo o ano, não têm vez em dezembro. O desfecho do ano passa sem poesia. A poesia, tentando passar, força a barra, despenca no desfiladeiro, arranca as mudas do quintal para replantá-las no ano que virá, e chora porque foi esquecida. Esquecida ela não foi. Apenas deixada de lado. Os últimos dias do ano são assim: fazem-nos esquecer algumas preciosidades para darmos lugar a outras. O tempo passa. Os livros ganham uma nova camada de poeira. Muita coisa some de dentro do armário. Escritos de uma vida quase esquecida. Se não fosse por minha memória, as luzes já teriam se apagado. Mas um dia minha memória também partirá, e tudo isso vai se perder em profundezas inexploradas. Por isso, percebi que toda e qualquer preciosidade parte de dentro para fora. É o que lançamos que torna o alvo precioso. Daí vem meus textos, tantos os perdidos quanto os encontrados, que são de extre...

Compasso do Tempo

 23:58 do dia vinte e dois. Meu aniversário está terminando, por mais um ano. Um novo Filipe, talvez. Jamais pensei que receberia uma carta escrita por mim em 2014, e quando menos esperava lá estava ela na caixa de entrada. A princípio eu não sabia o que era. Poderia facilmente ser excluída por julgar ser algo irrelevante. Por fim, abri o e-mail. Abracei o passado e revi, face a face, uma pessoa que há muito já deixou de existir. 23:51 Foi uma surpresa. Sim. Uma surpresa das grandes. Como eu pude escrever aquilo? E mais: como eu pude me esquecer assim, completamente? A vida é cheia de facetas abstratas como quadros de uma galeria moderna. Cada um interpreta como pode. Esta carta foi interpretada por mim como um soco no estômago. 23:52 Está chegando o fim. Meu aniversário, agora, mais uma vez, só ano que vem. Conversei com meus pais. Com Otávio. Rimos e contamos casos. No fim da noite descobri que todos os textos que escrevi a mão no ano de 2017 e 2018, bem como cartinhas de recorda...

Mar Congelado

Estou perdido em meio a tantas informações. Não sei qual delas me fará bem. Quero aprender o essencial, mas ele está flutuando junto a outros seres flutuantes que o comprimem em um curto espaço de mar. Se o essencial fosse um pouco mais pesado, talvez afundaria. Mas é leve. Menos denso que o líquido sob seu corpo. Acho que muitas pessoas quiseram contemplar o vazio; acabaram enchendo o espaço e sufocando os essenciais da vida. O mar, que antes era para se perder no horizonte, passou a ser um delírio de banhistas desesperados por informações e conhecimentos. Ninguém mais sabe filtrar nada. Ninguém mais fala em voltar à praia. Ninguém aprendeu a nadar e mesmo assim flutua por ser inflado demais. Impressionante a força de vontade para captar os momentos. Será mesmo que captam? Querem transformar o dinâmico em estático; cortar a correnteza do rio e o crescimento das árvores. Amam os perfumes das flores desde que estejam reprimidos aos frascos. Ah, mais uma vez! Mais uma vez estamos no mar ...

Diálogo com o Personagem Esquecido

— Quanto tempo não o vejo! — disse ao personagem esquecido. — Olha, eu realmente não estou sendo visto. Raríssimas vezes, afinal.  Suas palavras carregavam um certo teor de preguiça adentrando os mares da indiferença. Para o personagem esquecido, viver aquém da fantasia lhe dava olhos cansados e obsoletos.  — Creio ser a primeira vez que converso com você — prossegui curioso. Mas o personagem não estava nem aí para o que eu estava crendo. Se fosse a primeira, a segunda ou a terceira; tanto faz. Nada importava para ele. E eu o via envolto em sua aura apática e insossa. — Aparentemente, personagem... Bem, aparentemente você não tem tido muitos problemas, não é? Aliás, nem está tão esquecido assim. Veja só! Você, bem aqui, no mesmo espaço em que eu estou.  Não sei por que estávamos na frente do elevador do prédio onde moro, e ele estava demorando chegar no andar. O personagem quase esquecido não morava por aqui. Mas, por algum motivo, estávamos no segundo piso. No corredor m...

Tempestade de Areia

Pela manhã, tive uma mente limpa. Ao meio dia, ela se decompôs. Feito algo que se decompõe na natureza.  Virou espaço; camuflado e escondido. Às três, uma tempestade de areia encobriu meu horizonte. Tudo se misturou. Tudo era pó esvoaçante. Às seis, percebi que a tormenta tinha passado. Sabe-se lá para onde... Deixando-me sem rastro. Sem norte. Sem margem. Sem qualquer estrela no céu Que pudesse me mostrar o caminho. Meia hora depois, estava eu tentando tirar a poeira de mim Batendo as mãos pelos ombros e braços, pelo peito aberto E pernas cansadas.  Levantei uma nuvem incomodada Por ser conduzida em batidas.  Limpei-me da tempestade. Descobri-me humano, perdido no deserto Por pura e inconstante distração. Havia pontes em algum lugar que não foram atravessadas; Estradas não percorridas; Montes não escalados E mentes não diluídas Por estarem num deserto. Pensamentos ressequidos, calcificados,  Feito pedras que assombravam na escuridão. Não se mexiam, mas sua simples p...

Gotas e Grãos

E a vida que ganha forma de onda do mar, Apagando as pegadas da areia E as histórias de gente que jamais voltou. O que volta são elas; as ondas, Amaciando os caminhos, Passando a limpo uma nova existência Com conchas e corais, Peixes que vão ao raso buscar água morna Para viverem! É o mar, é o céu; os barcos que somem além do horizonte E trazem das profundezas seu tesouro. O mistério se concretiza nesse compasso: Indo e vindo; ficando e retornando. O movimento das ondas busca os grãos mais profundos E os dá a oportunidade de contemplarem o sol Na praia dos sonhos.  Depois, é hora de voltar! E descem às profundezas Levando as novidades da superfície. O mesmo acontece com o céu, Quando arrasta um pouco de mar para si. Sem ter como fazer ondas nas tempestades, Pegando um pouco de estrelas do espaço Para que retornem em seguida Contando as histórias da noite sobre o mar, Devolve o que pegou em forma de chuva. E ela cai alegre, encrespando o reflexo da lua que vibra Com a comunhão de qu...

Rostos Conhecidos

Tenho visto pessoas na rua que me despertam para uma verdade imperfeita. Rostos conhecidos que eu desconheço. Sensação de já ter visto sem nunca o ter. Por que tais rostos são tão familiares? Numa capital, transeuntes apressados e descontrolados são efeito de uma vida corrida que passa despercebida nos reflexos das vidraças. A rua, sempre cheia, de carros e ônibus, não conversa com a calçada. Quem anda a pé, segue a pé, mantendo o cuidado de atravessar apenas quando o sinal estiver verde. Das calçadas aos rosto, existe uma ligação: de passos ruidosos estimando uma chegada precisa aonde quer que seja. Uma chegada feliz depois de uma dia cansativo. Na rua, à margem da vida na calçada, os carros se trancam e cada qual carrega consigo a sua realidade. Param apenas no sinal vermelho; e é lá que as cordas da vivência se unem numa única realidade. É lá que a arte acontece. E quem caminha tem vez de atravessar para o outro lado. Existem pessoas que passam a vida tentando se fechar na própria r...

Memória e Saudade

Ontem eu quis escrever tantas coisas, tantas ideias, tantas reflexões brilhantes navegando nos mares da mente. Hoje, manhã cinzenta e silenciosa de domingo, não sou ninguém. Perdi todos os fios que puxei; todos os balões se estouraram; todas as chuvas caíram e, de repente, sumiram. Dormi e não sonhei; sono sem palavras que se pregou na parede no quarto como um quadro vazio, apesar da bela moldura. Por que isso acontece comigo? Vivo perdendo tesouros entre os dedos, de mãos estendidas, querendo saber o que fazer quando encaro o vazio.  O silêncio que busquei tem me incomodado. Fantasmas que voltam sem dó de pisarem novamente no campo onde perderam suas vidas. Tenho saudade de coisas secretas; mistério que se deita mas não dorme; pedra que não despenca morro abaixo; livro conhecido, mas nunca lido. Hoje, vesti-me de azul. Porque quis trazer um pouco do céu escondido para dentro de casa. Na quietude dessa manhã, trabalho com as incertezas de ruídos ao meio-dia. Pela tarde, sei que vou...

Verbos do Aprendizado

Estou em fase de aprendizado. Fora dos livros; da poeira na estante; das teias que as aranhas fizeram; do estrago da chuva forte; das pegadas que algumas aves deixaram na janela; da vassoura escondida atrás da porta; fora até mesmo de mim. Consegui arrebentar as amarras e fugi para um lugar conhecido, aconchegante em sua pequenez, silencioso nas dobradiças das entradas, estimulante na capacidade de se moldar ao que eu preciso. Uma poltrona, um abajur de luz amarela, alguma coisa para esticar as pernas e uma venda para tampar os olhos. Este é o meu mundo. E, nesta escuridão, construo o meu universo. Algum tempo se passou. Algumas vozes foram desaparecendo. E o verbo desaparecer se enraizou, fazendo-se presente na arte que desempenha: desapareceram reflexos, memórias, ilusões; também, pessoas, objetos, cadernos. Foi a primeira vez que vi um verbo sair do papel para atuar no palpável. No físico intransigente, na forma estática do que era para ser esquecido e não foi, nos cacos de um espel...

O Segredo da Verdade (OK)

No dia em que dei a mão à verdade ela me mostrou um segredo. Abriu uma caixa. No canto mais fundo do armário, escondida entre outras caixas, Lá estava ela: opaca, simples, confusa na escuridão, estática, Esperando o tempo de ser redescoberta.  Sua tampa quadrada, de papel amassado, grosso e áspero, Depois de tantos anos, pôde firmemente se desvincular da base. O segredo da verdade lá estava, no fundo da caixa perdida, Tão próximo durante esse tempo, e mesmo assim distante. Não era ouro; não era prata; não brilhava à luz do ambiente, Nem refletia meu semblante surpreso. A verdade o apanhou e o depositou em minha mão, À forma de um sentimento velado, À guisa de um desejo perdido, Ao passo em que não compreendia, Ao molde em que me dava seu tesouro mais preciso.  Era um bloco de folhas com uma caneta. A verdade então pôde dizer-me: "Agora que me conhece, viu o meu rosto, deu-me sua mão, Caminhou comigo por aí, desprendendo sorrisos De quem vê o mundo com leveza,  Você pode c...

Domingo Atípico

Acordei cedo, como de costume. O dia se estende. Clareia o quarto. Avança pelas paredes e abraça os detalhes como os pensamentos abraçam as circunstâncias. Estou me conhecendo. Aprendendo a lidar comigo. Entendendo que apenas eu sou responsável pelas interpretações. A leitura da existência, a arte de lidar com os recomeços, as palavras apinhadas nos canteiros de flor. Como se eu abrisse uma janela e contemplasse um gramado muito verde, limpo, isento de impurezas, rodeado de frases soltas esperando sua vez de se propagarem no quintal. Lá elas pulam, rodam, brincam, se cansam e se deitam olhando para o céu. Eu, escorado no parapeito da janela, observo a vida acontecendo. Embora parado, minha mente acelera. Tenta não perder os detalhes. Tenta encontrar tesouros no silêncio. Quando vejo, o dia se foi. Eu queria não dar tanta importância. De tanto administrar incertezas, obtive o contrário. O verso ignorado de um papel jogado ao canto. A certeza de que o dia sempre retorna, trazendo consigo...

Malas Perdidas

O personagem esquecido retornou de viagem, com as mãos vazias, sem nada de novo para compor seus artefatos na estante da sala. Trazia consigo apenas a roupa do corpo e algumas palavras avulsas para compor sua retórica: — Foi uma linda viagem! Perdi as malas no porto. Se foram roubadas eu não sei. Talvez tenha sido eu que as esqueci por um delírio de minha parte. Fiquei tão abismado com  imensidão do mar que deixei a mente vagar. Já o tinha visto outras vezes, em outras andanças pelo mundo, com outras cores adornando-o; outras línguas, outras embarcações, outros portos onde desembarquei. Nunca me atentei às profundezas. Tampouco a linha do horizonte que se desenhava à vista de minha janela. Percebi que o cenário era grande demais para um personagem tão pequeno. Viajando de barco por águas desconhecidas. Um barco barato que poderia afundar a qualquer momento. Fazendo desaparecer muitas histórias. Dessas pessoas que andam por aí: pessoas orgulhosas, cheias de si, sem saber para onde v...

A Janela dos Livros Empoeirados

Por anos, a janela foi minha estante. Sua paisagem se dava nas histórias escondidas. Lembro-me de quando não sabia ler e mesmo assim abria os livros para contemplar o formato das letras. Algumas enciclopédias eram ilustradas, fazendo-me ficar horas olhando para as cores e contornos que formavam imagens curiosas. Quanto mais detalhada, mais atenção eu dava. Gostava muito de ver grandes castelos, pontes sobre rios, cidades iluminadas, ruínas misteriosas, animais exóticos, pessoas caminhando, paisagens bonitas, e tudo quanto era engenhosidade ilustrativa. Podia formar narrativas com elas, mesmo sem entender de escrita. Revisitando este espaço, consigo compreender como se deu algumas coisas. Como eu vim parar aqui. Aquela janela tinha muito mais do que livros. Tinha a infância de um menino, alérgico a poeira, que precisava vencer os espirros para folhear a aspereza com suas pequenas mãos. Quanto tempo se passou? Eu nem me conheço mais. Tudo existe apenas em mim. Um coração ansioso pelo toq...

A Festa da Mentira

A persistência mostrou sua face. Algumas coisas foram entendidas a partir disso. Não se trata de um jogo de dados, de quem vai ganhar ou perder, ou dos personagens que vou escolher. Tudo é constância, energia do sol, vida batendo à porta fazendo-me um convite especial. Eu bem que queria administrar as incertezas, mas, sendo incapaz, tento brincar com as frustrações transformando-as em pedrinhas na margem de um rio. A que mais saltar sobre a água é a que mais fundo chegará. Por isso, navego pelas profundezas buscando as belezas da vida mais secreta que jamais subiu à superfície. Quis enfeitar-me para um evento sem convidados. Alertar a todos do salão que eu estava pronto para uma jornada. Servir bebidas e petiscos em bandejas de pratas que reluziam as chamas dos candelabros dourados. Enlouqueci antes da primeira nota do piano. Delirei sobre pretéritos arrancados do campo ressequido. Olhei para a pompa e para a solidão. Vi minhas feridas nos grandes espelhos. Aos poucos, os enfeites fora...

Boato da Felicidade

Se algum dia fui triste, foi há muito tempo. Hoje trago cores nos olhos. Reflexo do inconsciente, olhando para a cachoeira Do rio que sempre correu. Já parou para pensar na vibração da queda? No aroma do mato que cresce pequeno? No peso das pedras que se escondem dentro d´água? Na altura das árvores e no ninho das aves? Há tanto para se pensar. Lápis para se desenhar. São as cores do olhar, do pensar, do estar; Existir e exprimir; inspirar e transpirar Oitavas harmônicas; canções da correnteza; Repentes do pensar que se esvaem pelo torvelinho Que escorre; e corre, rápido demais.  O boato da felicidade, da vida sentida No extremo sentir, vem e se enraíza nos quintais. Como eu busquei uma cachoeira para mergulhar. Sem frio, sem medo, sem receio, sem passos em falso. Apenas pular.  Quero existir desenhando jardins e pomares carregados, Coloridos e de extremo sabor. Tudo mudou quando me abracei na tempestade.  E vi que era completo. Vi que o amor era interno. Quente como uma ...

Cantar para Sempre

E essa nova vida? Com músicas, plantas, dias claros e conversas jogadas fora. Eu realmente não tenho do que me queixar. Cores, paletas, pincéis: o quadro está aí. Caminhei por estradas perdidas que os mapas não mostram. Ninguém precisa passar pelo o que passei. Para chegar aqui?! Não mesmo. Mas eu, bem, eu fui tropeçando pelas pedras pequenas e grandes, pedras de todos os tamanhos, para alcançar um ponto de visão. Sei que agora tenho aprendido a esvaziar o coração. Deixá-lo livre. Flutuante. Foram tantas provas. Para quê? Para provar que sou algo que não sou. Para provar que me destaco em meio aos abutres, ficando com a parte maior da carniça. Que ironia. Eu, que pregava a simplicidade, tentando vender uma imagem idealizada de um ser impreciso. Um desequilíbrio de anseios, tombando para fora dos muros que construí. Demorei muito até pegar no martelo e quebrar tudo. Quero apenas ver o céu. Quero poder me deitar e sorrir para as nuvens. Olá, para você, que me viu enlouquecido na chuva. V...

O Caderno e a Saudade

Lembro-me de um lugar diferente; terra molhada, noite prolongada, silêncio marcante, vida em constante movimento, luzes baixas, hora para começar e terminar, antigas canções, antigos papéis, flores no grande jardim inexplorado, uma casa recém-reformada cheirando a boas-vindas, um caminho serpeando outros caminhos, muitas opções e pouco contato, muita emoção e pouca vivência, muitas histórias e apenas um amor. Foi lá que um simples caderno verde me foi dado. Àquela época eu pensava que tudo era surpresa e não contava os dias no calendário. O caderno seria preenchido com planos de uma vida descartada. Uma noite iluminada pela lua era valiosa. Os caminhos me guiaram para águas nunca antes navegadas. Sem embarcação, eu mergulhei no mar. Acordei numa praia deserta, sozinho. Tudo tinha sumido. Menos o caderno que, tendo perdido sua capa original, fez-se verde. Verde-esperança. Não o preenchi com a vida passada. Apenas com o presente. Aos poucos, fui desfazendo os laços da ilusão. Fui cortand...

Recomeçar

Amanhã é um novo dia; Nova mesmo é a vida que vai começar. Flor renascida, depois de tantos anos, Tantas letras, tantas vezes regando Sem esperança de ver acontecer. E aconteceu enquanto todos dormiam. A uma hora, ela rompeu silenciosa. Às duas, saiu devagar. Às três, viu que era tempo de dizer para si: Sou o que sou, nada além de poeira que aprendeu A colorir de verde seus sonhos, de vermelho suas paixões, De azul o céu que fez de espelho E de prata a chuva que cai, e cai, e cai Sem tempo e lugar para botar os pés no chão, Sentir a terra molhada, o cheiro da tarde alegre Que desprende os momentos em cores de raios do sol. A nuvem. O ar. O dia que vai além, sem fim, vagando pelas portas abertas, A junção sagrada de uma chuva repentina ao capim que secava No pasto onde eu poderia correr, Vivendo o único momento feito: então, agora. Adiante, o depois inalcançável. Ficando sempre para lá Do alcance das mãos de quem planta E sabe esperar o tempo de colher. Sou a nova estrada, a nova sement...

Bolsos Furados

Confesso que desconheço esse lugar, Essas formas espelhadas, repetidas, apinhadas Nos esquemas forçados das esquinas que vira o coração. A rapidez me assusta; não tem forma nem contorno, Não brinca de trocar as canetas, nem de desenhar traços Que vão além das linhas. Perdi algo precioso, e só sei disso pelo furo do bolso. Enquanto caminhava, caiu e rolou para longe de meus passos. O que é, eu não sei. Acho que era um barbante Que tentava usar para prender os sentimentos. Devia tê-lo usado para fechar o furo, certamente. No entanto, a gente só percebe os espaços vazios, Os buracos da alma, os passos incertos pela estrada pedregosa, Quando alguma coisa se perde. No caso, apenas um carretel que usaria para ligar pontos, Como uma cama de gato em mãos de crianças Que tentam descobrir a próxima disposição dos laços. Que confusão, tudo isso, toda essa artimanha, Para dizer que ando com os bolsos vazios. Furados. E para dizer também que as estradas pelas quais caminho São tortas.  São de t...

Poema Vazado

Hoje o dia está mais claro. Tudo tem uma cor. Palavras. Escritas no caderno verde. Falaram da vida.  Três páginas sobre a vida. A noite já chegou.  As plantas estão regadas.  A casa varrida.  Tudo em seu lugar. Alguma coisa em meu peito. Eu não consigo distinguir. Passando dos meandros do coração. Esvaziou a poesia que nasceria. Versos em pontos finais. Final. Começo inexistente. Queria vírgulas na brutalidade. Amaciar a carranca mal-humorada. Sabe... Chega dessa estrada esburacada: Gosto do vento entrando pela janela, Fazendo sua volta, enchendo a casa de opções, De presentes, deixando o tempo no tempo E a vida dentro de mim. Agora ficou claro: a culpa é dos pontos finais.  Em meu peito sempre existiu uma história Sendo escrita.  Nada acabou.  E mesmo que eles existam, Os pontos, Estão entre vírgulas. Entre dois E a suavidade das reticências... Que ironia!  Seria então o campo das histórias plantadas? Ou a falta de sentido na via do destino? Nada...

Ciranda da Vida (OK)

É, vida! Você cisma em brincar comigo de ciranda. Venda meus olhos e começa a girar. Fico perdido no meio da roda tentando agarrar uma das suas mil faces. Ouço risos e passos; mais gente chegando e se juntando. A música continua sem que eu nada possa ver. Mas sinto a brincadeira no coração quando ele harmoniza as batidas ao jogo. Que jogo! Já caí algumas vezes no centro da roda; noutras, consegui agarrar alguém e juntei-me à corrente de braços dando os meus. Girei, girei e girei. Cantei e corri no torvelinho de sonhos e luzes de uma manhã ensolarada. É, vida! Quanta magia guarda consigo no galho de uma árvore? Quando pendura sob ele um balanço e me faz sentir o vento. Nem sempre fui capaz de perceber estas coisas. Lembro-me dos vitrais de uma catedral lançando-me as cores de uma história incompleta. Também me lembro de você, vida! Quando guardava caixas no guarda-roupas para enchê-las de memórias. Ou quando fazia do passado um abraço não dado, plantado como muda na horta de um velho ag...

O Estressado

Certa vez eu parei em um ponto de ônibus, encontrei-me com um estressado, e ele me disse: — Hoje eu surtei. Explodi. Deixei o leite derramar sobre o fogão e não limpei. Nem vou. Nunca fui. E é assim que eu seguirei. Ninguém percebe se eu faço ou não faço, se limpo ou se sujo. Todos, eu digo, não estão nem aí. Aí, ali e aqui. Não estão em nenhum lugar. Tampouco minha paz. Não consigo encontrá-la. Você sabe? Sabe como faço para desfazer minhas preocupações? Sabe como faço para calar as vozes que ouço dia após dia? Sabe como desaperto meu peito ou como desato os nós que atei sem saber? Houve semanas de muito aprendizado, e meses de estagnação. É, meu amigo. Eu estagnei. Estou parado sem querer. E, sem querer, também parei de aprender. A casa ficou suja e os livros empoeirados. A caneta se perdeu atrás de algum móvel que eu tive preguiça de arrastar. Ah, não! Não é preguiça. É revolta. Revolta por eu não ser visto. Ou por eu acreditar que tudo é em vão. Na verdade, mesmo, é que eu estou es...

Mares que Deixei

Escrevi uma carta sem eira nem beira, Pelo simples prazer de ver o contorno Das letras cursivas formando palavras Que diziam algo.  Algo que eu queria dizer. E não disse. A carta se perdeu horas antes de eu me sentar de novo, Para enfim recomeçar: Agora entendo que estou escrevendo Buscando a preciosidade ímpar Em meio aos barrancos. Eu, que tanto escrevi, não sei mais escrever Sem pensar no que vai ser Quando  minha letra despendida em botões, De uma florada mal cultivada, Finalmente florir. Aqui, bem aqui, você pode dar forma ao ego. O meu tem barbatanas e nada pela imensidão Das ondas e ondas quebradiças Dos mares que deixei para trás. Confesso que não foram tantos. Algumas lagoas; outros, córregos; Mares mesmo, poucos. Nessa dança de marés,  O ego quebrou as correntes, Fantasiou-se com escamas coloridas E plantou-se no espelho d'água  Misturando-se com as carpas Que eram inocentes. Agora já é noite.  Toda água é mistério. E todo mistério, um novo caminho. Eu...

Realidade Desaparecida

Já percebi que depois da chuva de pensamentos vem o vazio. Mas o vazio não é escuro. Ele é bem bagunçado por sinal. É uma mistura de cores indo e vindo dali e daqui, De luzes cujas origens eu desconheço. No vazio não tem nada. Mas tem umas formas estranhas, indescritíveis. Algo beirando o irreal, caso eu não as sentisse.  Sim, pois não posso dizer que as vejo ou as toco. Eu apenas sei que elas estão lá. Diferentes de tudo, Compondo o vazio depois da chuva.  Quando penso nelas e em uma forma de descrevê-las, Canso-me. Perco a paz. Pontos brilhantes aparecem, Formigando a consciência. Daí o vazio se dissipa e os pensamentos retornam. A vontade de entender é uma armadilha. A curiosidade, traiçoeira.  A indiferença, nessas horas, uma amiga. Porque para contemplar o vazio, precisa-se dela. Indiferentemente, as formas vão ganhando aspectos Que passam como fumaça por todas as direções. Se me perguntarem: do que está falando? Bem, a verdade é que eu não sei. Disseram para eu cont...

Cada Planta...

Cada planta sofre ao seu modo. A hortelã secou no início com a falta de água. Não chegou a morrer. Agora cresce feliz e contente com seus quatro galhos plantados no vaso. O cacto-macarrão sentiu quando troquei sua terra e o passei para um vaso maior. Na primeira noite ele murchou um pouco, mas depois se acostumou com o espaço. Hoje se encontra feliz, crescendo para todos os lados. A orquídea, depois de ter sido derrubada várias vezes, achou seu lugar de paz.   As suculentas da bacia encontraram seu paraíso na terra. Bem, a marcela segue estática, sem mostrar sinais de melhora ou de piora. Também tem a rosinha desconhecida de cor magenta que permanece entristecida no canto. Suas folhas para baixo não se alegram com o sol. Tampouco se revigoram com a água. Contudo, ela segue mantendo sua beleza, sua cor e sua delicadeza, sozinha e pensativa, onde acredito que encontrará o caminho para crescer. Agora, o dinheiro-em-penca está cada dia mais amarelado. Não se acostumou aqui. Nada f...

A Senhora dos Olhos d'Água

Esta é uma história real. Bem diferente dos sussurros da minha mente. Aconteceu, de fato, e será transpassada ao eterno pelas palavras aqui empregadas. Por isso, com caráter descritivo, trarei de volta uma experiência marcante, acolhedora e muito, extremamente singular. Íamos eu e Otávio à loja de vasos de argila para comprarmos uma bacia e plantarmos as suculentas que havíamos comprado no dia anterior. Foram quinze mudas, ao todo, para fazermos o arranjo perfeito. Bem, o fato é que, ao sairmos da loja, encontramos uma senhora de idade avançada, lá para os seus setenta e tantos anos, debaixo do sol a pino, a chamar-nos. — Por favor — disse-nos fazendo um sinal com as mãos —, vocês poderiam chamar um Uber para mim? Eu moro bem perto daqui e não trouxe celular. Caríssimos, nessas horas a gente pensa de tudo. Porque tudo é surpresa. A primeira impressão foi a que se tratava de um golpe, como tantos por aí. Olhei para Otávio e ele retornou o olhar. Enfim, fomos até ela saber do que se trat...

Poderia Ser

Aqui, exatamente aqui, neste lugar: Voltei a ser artista, contornando com as palavras As nuances de uma tela em branco, Os adornos de uma noite estrelada, A vontade de pintar uma paisagem mas não conseguir. A vida continua passando, isso todos sabem. O que ninguém sabe é: Onde é que ela passa? Seria então nos diários secretos, onde estão escondidas As páginas que descrevem as paisagens não pintadas; Ou poderia ser, também, nas notas de uma melodia ao fundo, Enquanto os personagens atuam sob às luzes. Bem, para ser sincero, eu acredito que ela passa, sim, Nas marcas evidentes do tempo que não para. Isso é tão obvio.  Existe um mistério por detrás: da arte às horas, Das horas ao dia que se esvai, surgem mais cores. Secretas! Fora dos jardins, dos ninhos e dos entardeceres. Estão presas no imaginário do artista que não consegue pintar, Como uma cena não descrita ou um coadjuvante Que morreu antes mesmo de existir. Não estou falando de espaços vazios, mas da contingência Do que poderia...

Jogo de Viver

Ontem à noite pude sentir a força de algumas palavras. Hoje pela manhã elas eram apenas lembranças de uma incerteza. Pois bem! Percebi, inteiramente, que os pensamentos que venho carregando na mente não me definem; tampouco eu os defino. Eles vêm como uma chuva torrencial avançando pelos espaços do firmamento. O chão, minha consciência, se molha e toda plantação é perdida. Enfim, tudo isso não sou eu. Aprendi como alguém aprende abrindo um pote secreto, há muito enterrado, e descobrindo seus mistérios. Foi exatamente assim que aconteceu. Quando separei os pensamentos da consciência, a chuva ficou mais fraca, assemelhando-se a uma mísera neblina. O chão, orvalhado, mais bonito. Percebi, também, que tudo tem uma conexão muito forte com o coração. Os pensamentos invasores costumavam derramar um líquido fervente nele. Ele, por sua vez, se agitava e se descontrolava. Os impulsos plantados eram diversos.  Foi o fim de uma fase, com certeza. Nenhum pensamento é capaz de derramar as quanti...

Janelas Fechadas

Eu, que vi as janelas se fecharem, caí de joelhos no quarto de dormir.  Antes de anoitecer, já era noite em minha casa. Já havia tomado o escuro pelo braço e caminhado pelos corredores de muitas portas. Essa casa... Bem, essa casa não era de tijolos nem de pedras. Não tinha móveis ou obras de arte. Apenas muitas portas e janelas. Que se abriam e se fechavam, aqui e ali, batendo e rebatendo, contando e descontando suas intenções escondidas. Portas e janelas! Não é hora de chorar pelos textos que não escrevi. Aqueles que passaram por minha mente, nas frestas do ocaso, brincando na casualidade dos fatos. Depois, foram-se embora até se perderem. Eu nunca mais os encontrei. Embora saiba que um dia eles caminharam pelos corredores de minha casa. Tais textos nunca foram meus. Não tinha como escrevê-los. Vieram de surpresa, preenchendo os espaços vazios. Tacando fogo na escuridão. Lampejando de sonhos a miríade de ilusões que se fantasiavam de verdade. Foi triste a partida. Na ventania, pu...

Rios Acima

Hoje acordei com a claridade do dia. Entrando pelas janelas, invadindo meu interior. O sol, dissipando incertezas e frustrações, Disse-me que era hora de acordar de mim mesmo. Andando pelo quarto, a passos lentos, percebi Que ainda dormia do avesso. Fiz o café, sentei-me à mesa e pensei: Que horas são? O despertar tem de ser agora. Abri os olhos da alma; sensualidade oblíqua da verdade. O sol, os raios, as manhãs, o céu azul e o vento lá fora Entraram! Cantaram ao dia que marcou Entre idas e vindas, a essência de uma flor Gotejante em pétalas pelos caminhos andados. Hoje, enxergo que sou mais. E posso ir além. Nadar contra a correnteza, Descobrindo a beleza de rios acima.

Não Falei

Eu perdi alguma coisa da qual não me lembro. Ela estava aqui e de repente não estava mais. Foi-se o tempo das grandes reflexões, dos estudos gerais, dos amores invernais e das flores de setembro, amarelas, como a alegria de se viver um sonho acordado. Eu não acordei, tampouco sonhei. Sonho para mim foi uma costura precisamente planejada em uma toalha branca, pouco desbotada com o tempo. Lá, no vai e vem da agulha, furei os dedos e manchei de sangue aquilo que devia ser para mim o sonho. Depois, caminhei por ruas. Descalço, fingindo ter sob meus pés algo que me protegesse. A solidão me assustava. Sentia frio.  Fora do quarto, tudo era mais claro. Mas por mais que eu tentasse sair, eu acabava me prendendo de novo, e de novo, tornando a me enclaustrar nos pensamentos mais cruéis que minha mente fosse capaz de criar. E ela criou. Vários! Eu quis acordar, é claro... Mas, algo me puxava. Larguei da mão o peso das palavras, o tesouro que julguei possuir. Tudo ficou tão raso, tão simples, ...

Sonho Toda Noite

Foram-se os papéis rasgados,  As tardes vazias  E as sombras das paredes. O relógio parado voltou. Agora não mais contando horas, minutos, segundos... Mas mostrando paisagens.  O relógio é a minha paisagem. Nele, eu contemplo o presente, Navego oceanos, crio labirintos para me perder. É a janela aberta. O ar entrando. O passo lento do menino Que desaprendeu a correr. O jeito certo de criar e criar expectativas frustradas sobre o entardecer Que nunca chega. É manhã todo dia. É dia de noite, E a lua chorando, mostrando retratos nos interstícios dos ponteiros. Não há ponteiros. Não há lua.  O relógio é uma criança brincando comigo Que um dia já fui relógio. Hoje, que já se foi, fui homem sério que se perdeu. Quis ser menino de novo, correr por aí e brincar pelo chão. Por isso fechei os olhos para sonhar. Que linda paisagem tive orquestrada. Que lindas cores da infância recuperei. Eu, risonho com as nuvens do céu, voltei a acreditar que eram feitas de algodão. Voltei a v...

Palavras Guardadas

Está tudo mudado. Estas palavras esquecidas. Este medo quebrado, despedaçado, estraçalhado no chão, cortando os pés de quem caminha nesta sala de estar. Estar! Falando nisto, estou cansado. Estou perdendo as palavras mais uma vez, para reencontrá-las lá na frente. Em um lugar onde eu não sei. A verdade mesmo é que eu queria muitas coisas. Inomináveis. Viver a aventura mais uma vez. Percebo agora que estou despertando coisas que não deviam ser despertadas. E por mais que pareça que muito escrevi, olhando bem, foram apenas frases mirradas incapazes de sustentar a montanha que acumulei. Não, ela que se acumulou. Quando fui jogando fora aquilo que não precisava mais.  Só depois vi que precisava de muitas coisas. Mas me encontro de mãos vazias para escrever um texto. Eu tentei; mas, de mim, apenas um fragmento retorcido pelo tempo de palavras guardadas.

A Rua, O Oceano e Os Pensamentos

Bom é saber a palavra que se resolve nos meandros do texto. Ela decidiu e pronto! Está feito. Então, vamos lá: eu já havia dito que vivi perdendo muito que já nem sei o que perdi. Milhões ao quadrado. E continuo... Nesse texto sem fundamento eu me faço e não me perco. Pois perdido eu sou. Perdido nos pensamentos que vem, e vem força, batendo nos muros e nos portões das ruas de calçadas estreitas. Aliás, muito estreitas. Tanto que para eu andar preciso usar a rua feita para carros. E sou atropelado. Como já fui muitas vezes, por esses pensamentos automobilísticos destruindo os passos de quem cisma em caminhar. Eu... Se paro, sinto frio. Se sigo, morro atropelado pelos pensamentos que surgem sem minha permissão. Nunca quis que fosse assim. Mas é... E isso não se trata de autoridade sobre "quem dirige o quê". Ninguém dirige nada. A diferença está em quem finge dirigir alguma coisa. E na fantasia cria padrões inalcançáveis de andados e transeuntes não desgovernados que se desgove...

Raro Dia Produtivo

Li Vidas Secas de uma só vez. Estou me sentindo um grande leitor. Como nunca me senti. É estranho atingir patamares almejados e depois perceber que, graças ao gosto à leitura, não foi tão difícil assim. Aliás, não foi nada difícil. Foi é pra lá de divertido, isto sim. Eu amei. E estou sentindo meu cérebro me agradecer pela leitura. “Obrigado, Filipe”, ele diz. Como se tivesse ganhado massa e, estando para pedir mais histórias, se regozija pelo feito: “Estou contente!”, completa. Loucura de leitor que descobriu o caminho, certamente. Sim, meus caros, eu descobri o caminho. Há muito fingi fazer uma leitura aqui e outra ali. Mas agora, de fato, eu leio com prazer porque quero saber o desfecho. E quero, sobretudo, viver a experiência. Algo está mais leve em mim. Até a semana acabar eu descubro o que é, e venho perpetuar a descoberta. Vamos fazer daqui um pequeno diário: hoje eu arrumei meu quarto, lavei roupas, assisti às aulas já gravadas e, no fim do dia, iniciei a leitura que já termine...

Uma Garrafa Normal

E eu, né... Que tenho florescido meu jardim de leitor. Algo nunca antes buscado com tanto afinco. Tenho um novo sonho agora, mas ele ficará em segredo até que se realize. Você, garimpeiro de palavras, talvez nunca o descubra, porque quando tudo acontecer e este pergaminho vir à tona, o contexto já estará banalizado; o sonho será rotina cansativa, mas feliz e alegre. Assim como os outros sonhos que um dia acreditei. Este texto navegará pelos mares mais profundos e por lá ficará. Até ser descoberto, oh, levará muito tempo. Isto se for... Se o sonho se concretizar, haverá grandes chances. Contudo, tenho que confessar: não é o meu primeiro sonho. E talvez não seja o último. Sobre o futuro não posso dizer; digo apenas pelo presente que tem se estendido por toda a minha vida. Depois de tantos sonhos — não, não vou dizer frustrados — e planos, um outro reluz no leito do riacho. Claro que irei pegá-lo! E, por conseguinte, criarei afeição a ele. Sobre este texto, o pergaminho virtual, será po...

O Barulho

Passos ruidosos não me afetam Pois aprendi a caminhar no silêncio. O barulho adentra o quarto, quebra as vidraças, Vira poeira e escuridão. Sua voz não faz diferença, Seu bater de portas não é levado a sério, Sua irritabilidade é motivo de risadas Quando resolve se virar. Vire-se! Vire-se, e siga o seu rumo. Aqui já não há caminho para você, Antagonista da paz. Suas chaves são gravetos ao chão; Não abrem as portas que você cisma em bater. Pode fazer, sim, um estrondo; Um estrondo de folhas secas. Não surte efeito: gota despejada no oceano. Se descobrisse a tempo, encontraria tesouros perdidos. Experimente! Ainda dá para plantar neste solo. O único afetado pelo escarcéu que cria, é simplesmente você. Ninguém se importa. Ninguém vive em função da sua desarmonia. Vamos, barulho! Metamorfoseie-se no brilhante silêncio de suas entranhas. A vida é bela demais para ser ofuscada com bagunça De caprichos desirmanados.

Palavras Esquecidas

Aquela íntima friagem que me abraça, ainda que em dias quentes, se presencia no percalço das horas. Consegui estudar, sim, e ler um pouco. Mas falta! Alguma coisa me falta e eu não o que é. Talvez fosse um amparo perdido e um abraço não dado. Ou uma palavra que ficou para trás quando fiz as malas e parti. Eu parti? Não, não. Ainda estou aqui. E ficarei até o fim. As malas foram feitas, de fato, mas seguem intactas guardando apenas o sobressalente. Estão lá: no sótão. Se alguma palavra ficou para trás, é porque está comigo. Na verdade: não há malas, não há sótão, não há palavras. Existe apenas o eu no quarto escuro. Tudo é cinzas que se misturaram com a chuva. Tudo é além do essencial. É copo transbordado e estrelas cadentes em noites nubladas. Sofro na pele a vergonha de ser um poço sem fundo. Bonito são os poços que se conhecem. Os misteriosos causam impacto negativo porque chocam quem enfrenta o desconhecido. Vergonha de cair e não chegar ao fundo. Vergonha de um destaque fajuto:...

O Mar e as Abelhas Preguiçosas

O personagem esquecido volta dizendo: — Ele não quis conversar comigo! Encontro-me em águas rasas nadando com os peixinhos. Já ele, navegando de canoa sobre o mais profundo dos oceanos. Tem medo da tempestade que não aconteceu, mas o assombra às entranhas. Ele fala: “Andar onde a água bate no joelho é fácil. Não precisa de grandes esforços. Quero ver remar esta pequena canoa em alto-mar. Sozinho, sem alguém para lhe ajudar. Ao menos tem aos peixes, que podem alegrar o seu dia.” Eu me recolho do discurso. Entendo que, como as palavras são carregadas pelo vento, indo ao encontro das orelhas receptoras, elas sofrem variações de clima. E alguma coisa que disser pode virar outra coisa. No fim, o silêncio vem deste que aqui relata uma história sem começo. Ele não entende. Sofre por antecipação e se irrita. A canoa balança, mas ele não cai. Recupera-se fácil. Navega, navega, navega, e não encontra uma praia para firmar os pés. Não posso dizer-lhe que as pedrinhas das águas rasas machuca...

O Abismo e o Jardim

Sabe este caminho? Este, que estou percorrendo neste exato instante. Ele estava completamente bloqueado pela avalanche que caíra tempos atrás. Não consigo precisar o quando. Durante anos a fio foi necessária uma força intrincada no desejo de prosseguir para liberar a via na qual ando agora. Minha vida ganhou verbos secretos. Desejos íntimos nas profundezas do abismo que já não se mostra tão ruim assim. Na verdade, nada ruim. O abismo é uma parte de mim. E dentro dele tenho descoberto, pouco a pouco, um lindo jardim. Mistério para todos. Mas que tenho acesso. Eu já caí, já voltei, e tornei-me a cair. Até que uma escada foi construída, dando-me a oportunidade de descer quando bem quisesse. Percebi que se tratava de um gigantesco cânion exuberante de densa floresta, aves silvestres e animais magníficos. Um riacho o cortava de fora a fora percorrendo sua extensão, e coloridos peixes saltavam por sobre as pedras. Agora o abismo é meu Éden. Onde encontro-me para encontrar-me. E não me procur...

Silêncio Cerrado

A noite cerrou o silêncio, partindo-o em dois. De um lado, o silêncio de se calar: aquele que é conduzido livremente por ruas vazias, fins de domingos, madrugadas estendidas de insônia. Do outro: o silêncio de ser calado. Em cujas vozes entoa uma nota quase imperceptível, se não fossem pelos loucos ouvidos fantasiando a orquestra. Por muito busquei os sonhos silenciados e agora enveredo-me para novas inquietações do coração. Acho que amadureci. E com isso vieram as borboletas fosforescentes embelezarem minha noite. São vozes de alento, cantadas pelos ecos dos desejos escondidos. Como fui tão tolo de não ter percebido isso antes? O medo, aos poucos, vai se esvaindo pelas grades da vaidade. Estas estão enferrujadas, imprestáveis. Lembro-me da janela da sala fechada, com livros empilhados. Aquilo era o mistério da minha infância. Antes mesmo de saber ler, abria os exemplares tentando decifrar o anagrama que se seguia no percurso dos meus olhos. Livros na janela da sala. Os que estav...

A Parede e a Fome

O relógio se desprendeu da parede. Ao fundo, o vazio hipnotizante da branquidão Empobrecida de mofo e infiltração Da parede despida, mirando a família Com olhar de história escondida. Escondida ou apagada. A parede queria dizer um segredo pelos quadros Que a privaram de ter: quadros de alegria. Ao centro, uma mesa sem pão. Olhos para o chão, buscando nos cacos do relógio Uma esperança de vida. Poeira de memórias e rezas de loucura Dando tempo à parede que morreu, mas respira. A casa não está vazia, só a parede. A parede, a mesa, o fogão, os pratos. O chão incerto trepida e oscila a parede que nada tem a oferecer. O que tinha já deu: tempo. Mas o tempo acabou. O pão não chegou e a fome continua. A família não percebe que a parede chora Pela falta que sente de ter a resposta do "quando?" Não saberão a que horas vão comer. Ela, a parede, escorre lágrimas enlodadas pelos cantos. O relógio quebrado nada fala. A infiltração aumenta. A fome também. A voz feminina da mesa diz: “vamos...

As Mesmas Coisas

E agora: eu perdi a linha e a mesmice foi-se embora. Tanto reclamei dela que ela se foi e me deixou de mãos vazias. É... Não tenho nada para dizer: antes fosse a mesmice. As palavras se revoltaram comigo: uma a uma, Fizeram fila e brincaram de ser formigas. Entraram no formigueiro e de lá partiram para o seu mundo secreto. Não fui convidado. Elas se reverberam por conta própria, Entoam suas sílabas umas às outras, Vivem livres, felizes, Sem pretensão de voltarem ao mundo que criei para habitá-lo. Pois é, antes fosse a mesmice. Palavras para um lado; mesmice para o outro. E eu parado aqui, esperando o sol nascer. Todos os dias, o mesmo sol. Nunca me cansei de vê-lo nascer. Tem outra coisa: nunca me cansei de comer arroz com feijão. Nunca me cansei de contemplar a mesma roseira de anos, Que neste ano deu mais de cem rosas amarelas. O mesmo tom. Eu não esperei que ela desse rosas vermelhas. Também nunca me cansei de fazer café pela manhã, De vê-lo...

Fragmento da Madureza

Cheguei em um ponto. Não reconheço mais as palavras, E o que antes era belo se tornou precário; Inocente; iniciante; ilustrado; incabível. O que posso fazer agora? Continuar arrancando frutas verdes dos pomares, Na esperança de sentir o doce da madureza. Não! Vou me sentar debaixo da árvore, Preciso contemplar o movimento das folhas Que eu já me esqueci. Elas têm mais a dizer que os frutos, Pelo menos para mim, que brinco de escritor.

Semeador de Constelações

Tenho uma estrela na mente; Ela vem cintilado mais E ganhando novas formas. Formas bonitas demais Para os meus pensamentos tão pobres. Ela surgiu do nada Ou foi descoberta ao acaso, Entre páginas de tantos livros. Eu passei a gostar dela de um jeito especial Que pouco sei explicar, Como se tivesse descoberto um furo No manto enegrecido da razão Que vem balançando com a ventania. Daí o furo sobe e desce, Dançando conforme bem entende. Não! Estrela; furo não. Trata-se de uma estrela. Vamos dizer assim. É melhor! A estrela cintila, não balança. Balançar é para quem semeia ventania, Eu gosto de semear constelações. Se tivesse o manto da razão furado, Os pobres pensamentos vazariam Em forma de palavras. Ganhariam interpretações diferentes Em cada mente que as escutasse. Mas isso não acontece. A estrela cintila no infinito que criei Para escrever meia dúzia de versos desconexos. Há um sentimento latente aí; eu espero. Ele vai se gui...